sexta-feira, março 24, 2017

EDP—um gigante com pés de barro


O terramoto bancário mundial é apenas o aviso de que uma verdadeira erupção vulcânica de largas proporções vem a caminho. Chama-se energia!


The neoliberal era, with its policies of extreme deregulation, debt-money expansionism and harsh national austerity, is thus a direct product of the changing dynamics of the global energy system and the transition into a world of more expensive, lower quality, and environmentally more destructive fossil fuels (N.M. Ahmed, 2017).

O gigante EDP tem pés de barro. A sua dívida total ultrapassa os 18 mil milhões de euros (15,9x10E9 de euros em dívida de longo prazo), perdeu quase 4,6% do seu valor em bolsa nos últimos 365 dias, e os dividendos por ação (EPS) cairam 1,59% em 2016. Não há, pois, motivos para mimosear o CEO da alienada empresa, com mulheres e álcool.

Sendo este problema um problema sistémico (a Exxon Mobile, a Shell, a BP e a Chevron tinham no final de 2016 um dívida conjunta de 184 mil milhões de dólares, o dobro da que somavam em 2014 (Wiiliams and Olson 2016), basta um acidente, ou uma evolução inesperada na tecnologia, na economia ou no comportamento dos consumidores (mapas comparativos de preços e cartografia política organizada), para que os sorrisos do senhor Mexia e do gestor chinês que o supervisiona esmoreçam.

Já algum deputado perguntou ao senhor Mexia porque não paga os impostos da EDP a tempo e horas? O que a EDP beneficiou com o perdão fiscal (19,4 milhões de euros—Expresso) a que a Geringonça recorreu, para atamancar o défice, terá chegado para compensar os descontos feitos aos consumidores com baixos recursos? Que falta faz uma verdadeira esquerda no parlamento!

Este artigo da McKinsey é um bom alerta para o que aí vem. Já agora, para além deste artigo, recomendo ao deep state um ensaio recém publicado pela Spinger. Chama-se Failing States, Collapsing Systems, Biophysical Triggers of Political Violence, e foi escrito pr Nafeez Mosaddeq Ahmed.
From scenario planning to stress testing: The next step for energy companies
By Sven Heiligtag, Susanne Maurenbrecher, and Niklas Niemann
McKinsey&Company

What ‘extreme’ means

Companies need to be bold as they imagine extreme scenarios; almost nothing is too strange or ridiculous to consider. To show the range of ideas that energy firms might contemplate, we offer five extreme scenarios covering several kinds of risk, from compliance and legal risk to business-model disruption to full-bore crisis.

Energy for free

Real-time energy-consumption data are increasingly seen as crucial for a knowledge of customers and their behavior patterns. Smart meters can identify the appliances in operation. Combining data sets on electricity use, heating use, and mobility could provide even more detailed insights. Data-driven companies such as Amazon might challenge incumbent utilities by offering “energy for free” in exchange for personal data. In this scenario, utilities lose the customer relationship and are reduced to mere suppliers of commoditized power. Given the negotiating power, agility, and customer-centricity of digital giants, margins erode significantly.
Que tal um livro branco sobre a energia em Portugal?

Atualização: 25 mar 2017, 11:59 WET

quinta-feira, março 23, 2017

Drinks, joints and coca lines

Anúncio da Super Bock sobre o incidente Dijsselbloem

Os donos e as donas do gado ficaram ofendidos e ofendidas.


A malta amocha quando um ministro dos negócios estrangeiros indígena saúda o seu colega do trabalho e da segurança social como um negociador de gado (o gado a que se refere são os trabalhadores e os patrões portugueses), mas entra em histeria moralista quando um holandês socialista nos recomenda que não gastemos tudo o que pedimos à União Europeia em putas e vinho verde.

A metáfora referia-se, como todos sabemos, às PPP, suas barragens inúteis, autoestradas e aeroportos às moscas (Beja), às rendas do senhor Mexia, ao excesso de deputados do nosso parlamento, às perdizes e aos pombos torcazes do menu do seu restaurante, ao saque pornográfico das nossas poupanças e fundos comunitários através do assalto ao sistema financeiro e bancário que (já não) temos. Quem irá realmente pagar os 10,75% de juros pelas obrigações perpétuas a emitir pela Caixa Geral de Depósitos? Não serão seguramente os prejuízos constantes e acumulados do saco azul do regime.

Quanto muito, o presidente do Eurogrupo não foi politicamente correto.

Em vez de ter dito (foi isto que Jeroen Dijsselbloem disse):
“As a Social Democrat, I attribute exceptional importance to solidarity. (But) you also have obligations. You cannot spend all the money on drinks and women and then ask for help.”
deveria ter dito:
“As a Social Democrat, I attribute exceptional importance to solidarity. (But) you also have obligations. You cannot spend all the money on drinks, joints, coca lines, callboys and women and then ask for help.

Post scriptum

Portanto, o socialista holandês tem razão! Será que que vai haver algum sobressalto nas bancadas da impoluta e mui politicamente correta Assembleia da República?

José Magalhães: Há pagamentos a deputados que são feitos sem controlo 
Negócios jng@negocios.pt
24 de março de 2017 às 09:37 
À pergunta sobre quanto ganha um deputado, José Magalhães, ele próprio ex-deputado eleito pelo PS, responde apenas: "há 230 remunerações". Tantas, portanto, quantos os parlamentares eleitos para o Parlamento. As remunerações, explica, variam de acordo com muitos factores, desde o círculo pelo qual cada um é eleito, a despesas de deslocação que façam, entre outras coisas.

Numa entrevista publicada esta sexta-feira, 24 de Março, no jornal "i", José Magalhães explica que há falta de controlo no pagamento nomeadamente de subsídios. "Em relação a um conjunto muito importante de remunerações, que são os abonos complementares para trabalho de círculo ou para trabalho nacional, é feito o pagamento não sujeito a qualquer comprovação", refere, lembrando que esta espécie de "segundo salário" para os parlamentares tem a vantagem de não estar sujeito a impostos. Na prática, diz, é feito o pagamento sem ser verificado se os deputados fazem o trabalho.

Atualização: 24 mar 2017, 10:43 WET 

É o Diabo!



Caixa paga 10,75% pela dívida perpétua emitida!


Com esta remuneração, todos gostaríamos de ter um bocadinho da Caixa Geral de Depósitos, mesmo sabendo que o casamento seria indissolúvel. Deixar lá 100 mil euros até à eternidade e receber mensalmente 895 euros até que o nosso último trisneto se esquecesse que era um dos capitalistas da Caixa, quem é que rejeitaria tal perspetiva? O nosso investimento, em vez de obter uma rentabilidade negativa, ou seja, em vez de diminuir a cada dia que passa, como hoje sucede, estaria a engordar a 10,75% ao ano, numa era longa de crescimento efetivo abaixo dos 2%, juros assimétricos, e inflação escondida. É claro que as coisas não serão assim tão lineares, mas o que resulta evidente desta desmesurada rentabilidade prometida pela Caixa aos investidores institucionais é a extrema fragilidade, ou mesmo quase insolvência, em que o banco público se encontra. A confiança na sua viabilidade é tão baixa, tão baixa, tão baixa, que os tomadores da dita dívida exigem mais do dobro do que o país paga pela dívida pública a 10 anos, e quase 26x mais do que os mesmos investidores ganham com a dívida alemã a 10 anos (0,414% no dia de hoje). Vale o risco!

Esta operação terá curiosamente lugar num dos paraísos fiscais da União Europeia: o Luxemburgo. Ouviram o Bloco, ou o PCP, piar?

No mesmo dia em que somos surpreendidos com mais este escândalo financeiro que o governo e os média se encarregarão de cobrir com creme pasteleiro, o IGCP anuncia aos indígenas uma remuneração de 1,708% (1,90% + a negativa Euribor a 6 meses) para as suas famosas Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV), a lançar na próxima semana. Ou seja, menos 6x do que o bodo aos ricos da Caixa.

Em suma, sem a mão do BCE por baixo, já vimos o que valem as promissórias indígenas. Nada, ou quase nada. E, portanto, assim que o BCE fechar a bica do Quantitative Easing (na versão LTRO e TLTRO), Portugal entrará de novo numa zona de elevado risco. O risco de um novo resgate!

Teodora avisou, Schäuble avisou, o BCE quer multar Portugal, e o maior e um dos maiores fundos de investimento em dívida soberana, linchados pelo Banco de Portugal ao verem as suas compras de títulos do BES reduzidos a lixo, disseram que os elevados juros pagos por Portugal são o resultado da falta de confiança dos mercados nos nossos governantes e governadores...

Ou seja, o Diabo pode mesmo estar ao virar da esquina. Basta que o barril de petróleo suba para valores próximos dos 75-80 dólares (por enquanto continua a cair), ou que os juros americanos e europeus respondam à inflação emergente com uma subida consistente das taxas, para que o baralho de cartas da Geringonça se precipite para umas eleições antecipadas. Marcelo Rebelo de Sousa não tem sangue frio para aguentar uma pressão a sério.


POST SCRIPTUM

Um dia depois deste post, Mariana Mortágua veio contestar o mérito da operação da Caixa, reconhecendo que a mesma “põe em causa o balanço” do banco público. Pois põe! É que a pipa de massa a pagar em juros dificultará e muito o regresso do mesmo aos lucros. É caso para dizer que o que o Banco de Portugal roubou aos edge funds que foram convencidos a meter dinheiro no buraco negro do BES vai agora devolver pela mão estendida da Caixa, ou seja, farinha do mesmo saco que o sistema financeiro obrigará, uma vez mais, o pobre contribuinte a pagar. Chama-se a isto austeridade de esquerda, e não devolução de direitos, ou de rendimentos, como propagandeia a Geringonça.

Bloco defende que nova emissão de dívida da Caixa deve ser travada
Marta Moitinho Oliveira martaoliveira@negocios.pt
Negócios, 24 de março de 2017 às 12:26 
O Bloco de Esquerda defende que a emissão de dívida que a Caixa Geral de Depósitos (CGD) realizou esta quinta-feira, no valor de 500 milhões de euros, põe em causa o balanço do banco e aconteceu por imposição da Comissão Europeia, que teve de aprovar o plano de recapitalização da Caixa. O partido liderado por Catarina Martins quer que o banco público já não faça a segunda emissão, de 430 milhões de euros, que tem de ser feita nos próximos 18 meses. 
“A recapitalização [do banco público] não pode ser feita à custa do equilíbrio financeiro da Caixa”, disse a deputada Mariana Mortágua, aos jornalistas, no Parlamento.


REFERÊNCIAS

"Hedge funds" ficaram com mais de 40% das obrigações da Caixa

Nuno Carregueiro nc@negocios.pt
Negócios, 23 de março de 2017 às 20:31

A Caixa Geral de Depósitos concluiu esta quinta-feira a emissão de 500 milhões de euros em dívida subordinada que conta como capital (AT1), numa emissão que constou com uma forte participação de "hedge funds".

De acordo com um comunicado do banco do Estado colocado na CMVM, os títulos de dívida foram subscritos por mais de 160 investidores, com as ordens a totalizarem mais de 2 mil milhões de euros, o que superou em mais de quatro vezes o montante da emissão, de 500 milhões de euros.

A Caixa revelou também a distribuição da colocação dos títulos, quer por tipo de investidores, quer por geografia. As gestoras de activos ficaram com praticamente metade dos títulos, sendo que os "hedge funds" compraram 41%. Uma distribuição explicada pelo risco elevado dos títulos colocados, que atraem os investidores mais propensos ao risco, como é o caso dos "hedge funds".

Os investidores do Reino Unido compraram mais de metade dos títulos (59%), sendo que os portugueses ficaram apenas com 14%.


Caixa paga 10,75% pela emissão de dívida perpétua
André Veríssimo averissimo@negocios.pt | Rui Barroso ruibarroso@negocios.pt
Negócios, 23 de março de 2017 às 13:08

O banco liderado por Paulo Macedo fechou a taxa final para emitir dívida subordinada que conta como capital (AT1). Para convencer os investidores a apostar nestes títulos perpétuos, a Caixa Geral de Depósitos vai pagar 10,75%, segundo dados avançados pela Bloomberg. O valor indicado inicial era de entre 11% e 11,5%. No entanto, o juro elevado atraiu um nível e procura que triplica o montante em oferta. A liquidação da operação está prevista para 30 de Março.


IGCP lança nova emissão de Obrigações do Tesouro na próxima semana
Agência Lusa/ Observador, 23/3/2017, 11:13

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) vai emitir a partir da próxima semana uma nova série de Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV), com um montante indicativo de 500 milhões de euros. De acordo com o aviso do IGCP, publicado na quarta-feira em Diário da República, este montante poderá ser aumentado, por opção do emitente, até ao dia 31 de março de 2017, inclusive.

De acordo com uma nota publicada no ‘site’ do IGCP, as OTRV serão colocadas através de oferta pública de subscrição dirigida ao público em geral a decorrer entre o dia 27 de março e 7 de abril 2017, com pagamento de juros, semestral e postecipadamente, em 12 de abril e 12 de outubro de cada ano, calculados a uma taxa de juro variável e igual à Euribor 6 meses acrescida de 1,90%, ocorrendo o reembolso do capital em 12 de abril de 2022.


Grandes investidores internacionais fazem aviso a Portugal
Elisabete Tavares
Expresso, 22.03.2017 às 13h42

O grupo de grandes investidores a nível mundial que sofreu perdas com obrigações do Novo Banco alerta que o país continua a ser penalizado pela decisão do Banco de Portugal, e refere que um acordo seria benéfico para Portugal.

Este grupo, liderado pela BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, e pela PIMCO, uma das maiores investidoras em títulos de dívida, faz parte do conjunto de instituições que perdeu 2,2 mil milhões de euros com a transferência de cinco séries de obrigações do Novo Banco para o banco tóxico que sobrou do antigo BES.

O aviso surge numa altura em que a Caixa Geral de Depósitos procura angariar investidores para a sua emissão de obrigações perpétuas de 500 milhões de euros, no âmbito do projeto de capitalização do banco público.


Quase 500 bancos aproveitaram a última ronda de dinheiro grátis do BCE
Rui Barroso ruibarroso@negocios.pt
Negócios, 23 de março de 2017 às 12:41

Os bancos da Zona Euro acorreram em força à última operação de refinanciamento de prazo alargado direccionadas do BCE (TLTRO). Para estimular a concessão de crédito na Zona Euro, o banco central fez várias operações deste tipo, com juros de 0% ou mesmo negativos e um prazo de quatro anos, sendo que a cedência de liquidez desta quarta-feira é a última agendada.

Houve 474 bancos a participar na operação, segundo dados da Bloomberg e foram alocados 233,5 mil milhões de euros. O valor é bem superior aos 110 mil milhões de euros estimados pelos analistas, o que sinaliza que as entidades financeiras da Zona Euro quiseram aproveitar esta provável última oportunidade para assegurarem liquidez.


Dívida perpétua
Nota da Caixa Geral de Depósitos (PDF)


BCE quer ultimato a Portugal: mais reformas ou sanções
Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt
Negócios, 20 de março de 2017 às 21:10

Portugal está há três anos com desequilíbrios macroeconómicos excessivos e não tem adoptado as medidas necessárias para os corrigir apesar de várias recomendações europeias, o que de acordo com as regras do Procedimento relativo de Desequilíbrios Macroeconómicos (PDM) deveria implicar uma multa de quase 190 milhões de euros (0,1% do PIB ao ano). Esta é a posição do BCE, avançada a 20 de Março, numa análise à avaliação realizada em Fevereiro pela Comissão Europeia aos desequilíbrios na UE, na qual o banco central repete críticas à mão leve que Bruxelas tem revelado na gestão deste mecanismo de coordenação, mostrando-se "especialmente surpreendido" com o comportamento de Portugal, cujo governo prometeu muito e fez pouco em 2016.

Atualização: 24 mar 2017, 16:39 WET

sábado, março 18, 2017

Level entala devaneios da TAP

Airbus A330 - longo curso, low cost

TAP encontra-se há muito numa posição estratégica insustentável e ruinosa, que a aviação Low Cost de médio, e agora longo curso, colocam em xeque.


O IAG (International Airlines Group), dono da British Airways e da Iberia, anunciou a intenção de lançar uma companhia aérea de voos de baixo custo (“low-cost”) para ligar os continentes europeu e americano a partir de Barcelona. 
A nova companhia, denominada Level, vai começar a operar em Junho e oferecerá preços a partir de 99 euros para voos a partir de Barcelona para destinos como Punta Cana (República Dominicana, começa a 10 de Junho com dois voos por semana), Buenos Aires (Argentina, três vezes por semana a partir de 17 de Junho), além dos Los Angeles (arranca a 1 de Junho, duas vezes por semana) e Oakland (perto de São Francisco, com três voos por semana a partir de 2 de Junho). 
As aeronaves ao serviço da Level - dois Airbus A330, numa primeira fase - terão capacidade para 293 passageiros da classe económica e 21 lugares “premium”, ... 
Jornal de Negócios, 17 março 2017


As tendências de mercado da aviação comercial de passageiros estão há muito definidas: ligações ponto-a-ponto e Low Cost—quer no médio curso, mas também, e mais recentemente, no longo curso. É neste contexto que se insere a criação de uma Low Cost de longo curso no grupo IAG (British Airways, Iberia, Vueling e Aer Lingus), a Level.

O grande incremento do turismo mundial, sobretudo na Europa, assentou nesta pequena revolução, a que a TAP sempre virou as costas, arruinando-se com semelhante estratégia de avestruz.

A Aer Lingus passou em julho de 2015 para o grupo IAG, depois da compra das principais posições da companhia, detidas respetivamente pela Ryanair e pelo estado irlandês. Foi no prolongamento desta operação que a Level nasceu.

Outras companhias pioneiras no ponto-a-ponto e no 'low cost' de longo curso são a Canada Rouge, a Eurowings e a Norwegian.

Mais uma vez pergunta-se: e a TAP? Vai continuar a dar prejuízos e a ver a sua frota envelhecer, encostada ao crédito moroso generosamente fornecido pela Caixa, pelo BCP e pelo dito Novo Banco?

Não conhecerá a TAP uma coisa chamada “segmentação de mercado”? Ou será que os interesses do senhor Neeleman no aluguer de equipamento americano são mais fortes?


RESPOSTA A KUNAMI (um heterónimo curioso):

  1. Em 2012 a Airbus tinha registada apenas uma encomenda de 12 Airbus A350-900, com um preço estimado, em 2012, de 2.325 milhões de euros. Esta encomenda, que revelava, além de megalomania, uma completa falta de visão estratégica por parte de Fernando Pinto, viria a ser anulada e substituída por uma encomenda ainda mais megalómana, embora mais próxima das tendências de mercado: 15 A320neo, 24 A321neo, e 14 A330-900neo. Ao que me diz Kunami, chegarão este ano à Portela, três A330-900 e um A321neo. Valor desta parte da encomenda: qualquer coisa próxima 1055 milhões de euros. 
  2. O valor total da nova encomenda (pergunto: quando foi feita a anulação e alteração da encomenda dos A350-900?) rondará os 12.180 milhões de euros. Gostaria muito de saber quem irá abancar os créditos necessários, tendo nomeadamente em conta o estado de falência técnica da companhia. A Caixa Geral de Depósitos, a exemplo do que ocorreu com a dívida mal explicada da UGT a Bruxelas? Ora aqui está uma pergunta que o Soviete Supremo de São Bento, sendo a TAP uma empresa pública, tem a obrigação de responder!
  3. Continua a parecer-me que a megamomania e a falta escandalosa de uma estratégia credível continuam a servir apenas uma ideia maior: justificar a construção do aeroporto da Ota em Alcochete. As encomendas à Airbus jamais se concretizarão na sua totalidade, como não se concretizou a dos 12 Airbus A350-900, mas enquanto a propaganda vai e vem, grita-se que a TAP precisa de crescer, que a Portela rebenta pelas costuras, e que Lisboa precisa dum novo aeroporto onde já muito boa gente empatou dinheiro—do banco, claro! Já agora, quem paga à Airbus as indemnizações pelas desistências e mudanças erráticas de estratégia?
  4. Colocando os valores desta convesa em perspetiva, diria que os planos da TAP equivalem a construir 12 Pontes Vasco da Gama nos próximos anos, ou até o NAL da Ota em Alcochete, com cidade aeroportuária e tudo!!! 
Atualização: 25 mar 2017, 19:40 WET

sábado, março 11, 2017

“A Esquerda lava mais branco”—um aviso ao Presidente



Do populismo vermelho a um novo episódio de asfixia democrática

“A Esquerda lava mais branco” — Luis Mira Amaral.
José Gomes Ferreira é um dos mais respeitáveis e independentes jornalistas económicos portugueses (também porque tem opiniões próprias, claro!) Perante a tenaz que anda por aí a tentar estrangular a liberdade de opinião e publicitação de ideias, e que agora virou agulhas contra o jornalista da SIC (mas que começou a agir no dia seguinte ao da constituição da Geringonça, sobretudo através da mão invisível de António Costa), afirmo bem alto a minha solidariedade com o José Gomes Ferreira, e também afirmo que não tenho qualquer medo dos piratas medíocres, corruptos e culturalmente indigentes que arruinaram o país. O tempo da clarificação aproxima-se rapidamente, e por isso anda tanta gente tão nervosa.

A censura da opinião livre é uma pulsão estrutural das esquerdas leninistas—trotsquistas, estalinistas, ou maoistas. Assumem-na como uma consequência da sua crítica ao que chamam humanismo e liberdade burgueses.

Estes herdeiros da degenerescência do marxismo promovida por Lenine e Trotsky, no fundo, continuam coerentes com o que sempre defenderam e continuam a defender: a ditadura em nome do proletariado, em nome do povo, ou em nome do que, eufemisticamente, Francisco Louçã agora chama decência..

No contexto de uma democracia burguesa como a que temos, esta pulsão transforma-se, para melhor esconder as suas intenções, num polvo que atua silenciosamente sempre que pode e lhe dão espaço—com a colaboração dos submissos de sempre.

O que se está a passar neste momento em matéria de tentativa estúpida de transformação dos chamados órgãos comunicação social—virtualmente falidos, como sabemos— em órgãos de manipulação social, deve preocupar qualquer democrata que saiba que não existe democracia sem liberdades burguesas.

Marcelo Rebelo de Sousa tem, pois, poucas semanas ou meses para acordar do seu devaneio peripatético e narcisista. Se tal não ocorrer e continuar a representar o papel de meio César do cesarismo bicéfalo que paira por cima da Geringonça, ver-se-à mais cedo do que imaginava a contas com o povo que o elegeu.

Eu votei em Marcelo, mas começo a inquietar-me com a sua sobre-exposição mediática. Seria bom que lesse algo sobre a diferença entre a entropia na físisa e entropia na informação.

A repetição e a simetria na física dão origem à ordem, ou seja, a uma forma de neguentropia, mas na informação, a repetição e a simetria provocam o esvair progressivo da eficácia das mensagens, ou seja, entropia. Recomendo-lhe, pois, que substitua as selfies perenes do Instagram, pelo Snapchat!

quinta-feira, março 09, 2017

Ilha ferroviária portuguesa à vista

Comboio de Alta Velocidade em Zamora
Foto @ Lusa

Miranda do Douro está mais perto de Barcelona do que de Lisboa



O interior já não é o que era. Alta Velocidade ferroviária espanhola chega à raia, mas não a Lisboa, nem ao Porto.

As araras que nos têm governado querem (pensam, mas não afirmam) deter uma possível invasão espanhola. É uma teoria que vem do tempo em que João Cravinho era ministro e defendia, por um lado, um novo aeroporto na Ota—para dificultar o crescimento e o poder económico e industrial do norte do país— e, por outro, a prioridade de obras ferroviárias na Linha do Norte (que ainda hoje estão por acabar), para reforçar o centralismo do Terreiro do Paço e São Bento. O resultado está à vista.

A paulatina tomada de posições dos espanhóis e catalães na banca portuguesa, no setor da energia ou da saúde, nas explorações de média/grande dimensão, agrícolas (olival intensivo) e agropecuárias (porco preto de bolota), nas concessões públicas de autoestradas, no pronto-a-vestir e em breve nas grandes superfícies comerciais (Mercadona) não se evita se nos suicidarmos ferroviariamente!

Dando provas de uma inteligência rara e fina, a nossa elite político-partidária conseguiu ainda neste caso a proeza de deitar borda fora os fundos comunitários que estavam reservados para as três ligações ferroviárias internacionais em bitola europeia, e que são parte das chamadas novas redes europeias de comunicações e transportes.

Estas linhas ferroviárias e respetivos sistemas de eletrificação e segurança formam parte de uma espécie de autoestrada ferroviária europeia (que por acaso se estende até à Rússia e à... China), sobre cujos carris andam combóios rápidos e muito rápidos, movidos a eletricidade e não a petróleo—como sucede com as frotas TIR e com os comboios movidos a diesel. A nossa fina elite partidária, parlamentar, e financeira, tal como o bom povo português, não sabem o que está em causa e preferem todos marchar alegremente contra o TGV e fazer pic-nics contra os espanhóis.

O bom povo português e o regime endividam-se a importar carros e a alimentar os buracos negros do estado, da banca e do futebol. Temos o que merecemos.

Pequeno-almoço em Miranda, almoço em Barcelona e jantar de novo em casa 
O presidente da câmara de Miranda do Douro defende que o prolongamento do IC5 até Espanha, com ligação a Zamora, aproximará o Douro Superior do centro da Europa através da rede ferroviária espanhola de alta velocidade. E fez uma viagem da sua terra até Barcelona para provar que assim é. 
No contexto transfronteiriço, os municípios do eixo do IC5 (entre Murça e Miranda do Douro) reclamam uma ligação com Espanha via Sayago, em direção a Zamora, para uma maior proximidade com os comboios de alta velocidade que chegam àquela cidade, estando mesmo a ser preparado um documento reivindicativo para entregar ao Governo português. 
Para provar as vantagens de tal solução, o presidente da câmara de Miranda do Douro, Artur Nunes de Miranda, levou a cabo uma viagem em que tomou o pequeno-almoço em Miranda do Douro, apanhou o comboio de alta velocidade em Zamora, passou por Madrid, almoçou em Barcelona e jantou de novo na sua terra natal, viajando sempre na rede de Alta Velocidade Espanhola (AVE). A agência Lusa acompanhou o autarca na viagem até Barcelona, a uma distância de pouco mais de cinco horas utilizando a rede AVE. 
—in Diário de Trás-os-Montes

quarta-feira, março 08, 2017

Populismo vermelho




Bastaram doze meses...


Não foram as ameaças a impedir a conferência de Jaime Nogueira Pinto. Foi o medo. Foi a conivência. Foi o reconhecimento da superioridade da extrema-esquerda. 
Helena Matos, Observador, 7/3/2017

Aguardo excitadíssimo uma reação dos professores e alunos da Universidade Nova que condenam esta censura inacreditável da liberdade de expressão. O sucedido é grave, sobretudo se o virmos no contexto de uma degradação económica e institucional das classes médias, e do ascenso do populismo por toda a Europa e Estados Unidos. Esta combinação é o fermento típico do fascismo, que aliás sempre nasceu no ventre dos partidos socialistas e comunistas patrióticos. Escrevo isto com o à-vontade de quem nunca prestou grande atenção à direita corrupta ou desmiolada que temos. E de quem nunca leu, nem tem especial apreço pelo taciturno Jaime Nogueira Pinto. O que me preocupa mesmo é a degenerescência, a corrupção e o fascismo que começa a medrar no útero das esquerdas.

E agora Marcelo?

Como se vê por este incidente, que o Presidente da República não comentou (e ele comenta tudo, não é?), Marcelo Rebelo de Sousa, afinal, nem fala de tudo, nem é equidistante. Tão poucos meses para tão grande arrependimento—o meu!

terça-feira, março 07, 2017

O Triunfo dos Porcos

Kasimir Malevich, 'Homem Fugindo' (1933–34)

Nove anos depois do Parlamento Europeu, a nossa Assembleia da República condenou finalmente, a 3 de fevereiro, o holocausto pela fome provocado na ex-URSS, e sobretudo e mais pesadamente na Ucrânia, por José Estaline em 1932-33. Mas com os votos contra do PCP, Bloco de Esquerda, Verdes, e abstenção da maioria do PS, e o silêncio de chumbo da imprensa e do Senhor Presidente da República (que tanto fala sobre tudo e nada).


VOTOS
Favor — PSD, CDS-PP, PAN e 1 Deputado do PS
Contra — BE, PCP, PEV e 3 Deputados do PS
Abstenção — PS

Esta votação exibe bem a indigência intelectual e moral dos partidos portugueses da esquerda e dos seus deputados. Nada justifica a cobardia do PS, e tudo levaria a crer que as gentinhas do PCP e do Bloco já tinham aprendido alguma coisa com a História. Pelos vistos não. É pois perigoso deixá-las à solta pelos corredores do poder!

Não deixa de ser sintomático que tenha sido este genocídio pela fome que inspirou, não apenas o grande pintor russo Kasimir Malevich, mas também o célebre livro de George Orwell, O Triunfo dos Porcos.

E não deixa de ser sintomático que este extraordinário eventos parlamentar tenha sido literalmente escondido por todos os radares da comunicação social do regime. É caso para insistir que a mesma se está a transformar rapidamente num verdadeiro órgão de manipulação social. Cheira e soa a Novilíngua por todos os poros desta Geringonça, sem memória, nem vergonha.

2017
Voto de Condenação Nº 233/XIII 

Reconhecimento do “Holodomor” – Grande Fome de 1932 e 1933 ocorrida na Ucrânia 
Em 1932 e 1933 ocorreu na Ucrânia a Grande Fome, provocada pelo regime comunista totalitário de Estaline, que terá causado a morte a cerca de 7 milhões de cidadãos ucranianos. 
Tal como é destacado na Resolução do Parlamento Europeu de 23 de outubro de 2008, o Holodomor de 1932-1933, foi planeado de forma cínica e cruel pelo regime comunista soviético, tendo como objetivo impor a política da União Soviética de coletivização da agricultura. 
Em Março de 2006 deu entrada na Assembleia da República uma Petição que solicitava o reconhecimento oficial desta tragédia e que vinha no seguimento de diversas tomadas de posição de diferentes organismos internacionais sobre o Holodomor na Ucrânia, nomeadamente, a Declaração Conjunta aprovada na 58.ª Sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Setembro de 2003; a Resolução da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, de 25 de Janeiro de 2006, que condena os crimes praticados em nome da ideologia comunista e a Moção apresentada, em 25 de Janeiro de 2008, na mesma Assembleia Parlamentar sobre “a necessidade de uma condenação internacional do Holodomor ucraniano de 1932-1933”; a Resolução da Conferência-Geral da UNESCO, de 1 de Novembro de 2007, de "Homenagem às Vítimas da Grande Fome na Ucrânia" e, ainda, a Declaração Conjunta dos Estados-Membros da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE.), no 76.º Aniversário do Holodomor de 1932-1933 na Ucrânia, em 30 de Novembro de 2007. 
Importa também referir que os Parlamentos da Argentina, Áustria, Chile, Colômbia, Eslováquia, Equador, Espanha, Estónia, Geórgia, Hungria, Itália, Lituânia, México, Paraguai, Peru, Polónia, República Checa, Estados Unidos da América, e, ainda, os Senados da Austrália e do Canadá reconheceram já o Holodomor ucraniano como um dos genocídios do século XX. 
Assim, a Assembleia da República reunida em sessão Plenária decide: 
1. Expressar a solidariedade com o povo ucraniano e reconhecer o genocídio que terá vitimado cerca de 7 milhões de ucranianos nos anos de 1932 e 1933, na Ucrânia; e 
2. Condenar todas as formas de totalitarismo e todo o tipo de violações e crimes contra a humanidade, como aqueles que ocorreram na década de trinta na Ucrânia. 
Palácio de São Bento, 02 de março de 2017.

2008
Resolução do Parlamento Europeu, de 23 de Outubro de 2008, sobre a comemoração da Holodomor, a fome artificial na Ucrânia (1932 -1933) 
[...]
  a) reconhece a Holodomor (a fome artificial de 1932-1933 na Ucrânia) como um crime horrendo contra o povo ucraniano e contra a humanidade; 
  b) condena veementemente esses actos dirigidos contra os camponeses ucranianos, caracterizados pelo extermínio em massa e pela violação dos direitos do Homem e das liberdades; 
  c) manifesta a sua solidariedade com o povo ucraniano, vítima dessa tragédia, e presta homenagem aos ucranianos que morreram em consequência da fome artificial de 1932-1933; 
   d) solicita aos países que se tornaram independentes na sequência da dissolução da União Soviética que abram os seus arquivos sobre a Holodomor de 1932-1933 na Ucrânia a fim de possibilitar uma análise exaustiva dos mesmos que permita a revelação e a investigação integral das suas causas e consequências; (LINK)

2003
Estados Unidos, Rússia, Ucrânia, União Europeia e mais 27 países assinaram esta declaração conjunta: 
In the former Soviet Union millions of men, women and children fell victims to the cruel actions and policies of the totalitarian regime. The Great Famine of 1932–1933 in Ukraine (Holodomor), took from 7 million to 10 million innocent lives and became a national tragedy for the Ukrainian people. In this regard we note activities in observance of the seventieth anniversary of this Famine, in particular organized by the Government of Ukraine. 
Honouring the seventieth anniversary of the Ukrainian tragedy, we also commemorate the memory of millions of Russians, Kazakhs and representatives of other nationalities who died of starvation in the Volga River region, Northern Caucasus, Kazakhstan and in other parts of the former Soviet Union, as a result of civil war and forced collectivisation, leaving deep scars in the consciousness of future generations. (LINK)



REFERÊNCIAS

  • Holodomor (Wikipedia)
  • Soviet famine of 1932–33 (Wikipedia)
  • Partido Socialista/ Voto de Homenagem Nº 235/XIII (IMG

PROPAGANDA E FOTOGRAFIAS SOBRE A MORTE PELA FOME (HOLODOMOR)

Capa da revista soviética Kolhospnytsia Ukrayiny ("Mulher Kolkhoziana da Ucrânia") de Dezembro de 1932. (in Wikipédia)

Fotos da Fome de 1933, Cracóvia, Ucrânia. Do livro de 1935, Muss Russland Hungren? (Têm os Russos que morrer à fome?), do Dr. Ewald Ammende.
"Die Anteilnahme schwindet." (“A compaixão desaparece”)
Foto: atribuída a Alexander Wienerberger, 1933 (LINK)
Fotos da Fome de 1933, Cracóvia, Ucrânia. Do livro de 1935, Muss Russland Hungren? (Têm os Russos que morrer à fome?), do Dr. Ewald Ammende.
“Auch diese Leiche erregt noch Aufsehen.” (“Também este cadáver desperta ainda as atenções”)
Foto: atribuída a Alexander Wienerberger, 1933 (LINK)

domingo, março 05, 2017

O Assalto ao Banco de Portugal (novos episódios)

Sede do Banco de Portugal
Foto ©desconhecido

Saberá Carlos Costa demasiado para continuar onde está?


A reportagem da SIC é uma espécie de embuste mediático destinado a facilitar o assalto da Geringonça ao Banco de Portugal. Oculta, por um lado, o histórico do BES desde 2006, e por outro também oculta o simples facto de os principais bancos portugueses estarem sob supervisão direta do Banco Central Europeu, e não de Carlos Costa, desde 4 de novembro de 2014. Por fim, o que é evidente foi ter existido um triângulo político-financeiro inexpugnável montado por José Sócrates, Ricardo Salgado e os capturados BES (imparidades de, pelo menos, 6 mil milhões de euros), BCP (imparidades de, pelo menos, 7 mil milhões de euros) e Caixa Geral de Depósitos (imparidades de, pelo menos, 5 mil milhões de euros).
Fuentes próximas a la investigación han explicado que la investigación, que se inició hace dos años, se dirige hacia un entramado de empresas tipo trust que tiene su origen en una filial del banco portugués Espírito Santo en Madeira y que habría utilizado a Cahispa para efectuar inversiones sin pagar al fisco. 
— in Bloqueados más 1.500 millones de euros de cuentas de los bancos Espírito Santo y BNP, El País, 2/11/2006.
Nessa palestra sobre a estratégia de Pequim em África, citada numa publicação ligada ao Departamento de Estado dos EUA, o analista sul-africano apenas aflorou as "ligações estratégicas" entre Pequim e companhias e bancos portugueses com influência em países como Angola. 
Ontem por telefone, Davies-Webb salientou ao PÚBLICO o caso da Eskom (1), empresa do Grupo Espírito Santo, com um papel preponderante de ligação entre Pequim e o poder em Luanda, junto do qual a instituição portuguesa tem influência. 
(1) Davies-Webb referia-se certamente à ESCOM. 
— in Portugal "ajudou a aproximar" China e Palop, Público, 12/12/2006.

Carlos Costa talvez tivesse tido razões ponderosas para não provocar uma corrida ao BES e ao resto dos bancos instalados no nosso país. Há muito, pelo menos desde quando Vitor Constâncio pontificava no Banco de Portugal, e José Sócrates no país, que o Grupo BES deveria ter merecido outra atenção dos reguladores e do poder político. São por isso muitos os co-responsáveis pelos danos causados ao país pelo colapso do BES. Encurralar agora Carlos Costa como um bode expiatório do desgraçado estado financeiro em que Portugal se encontra, quando nem José Sócrates, nem Ricardo Salgado, nem vários outros arguidos foram ainda acusados pelo que supostamente fizeram, diz bem da degradação a que chegámos.

Desde novembro e dezembro de 2006 (buscas nas sucursais do BES em Espanha e alerta sobre papel do BES em Angola), tal como desde maio de 2013 (relatório do BPI sobre o BES), e sobretudo depois de 22 de maio de 2014 (notícia da Reuters sobre investigações no Luxemburgo sobre o GES), ou ainda desde a revelação da SIC, feita por José Gomes Ferreira a 20 de junho de 2014, sobre o pedido de ajuda de Ricardo Salgado a Pedro Passos Coelho (recusado), que as campainhas de alarme sobre o Grupo Espírito Santo soavam sem cessar.

Durante todos este tempo, e sobretudo depois do alerta do BPI de janeiro-maio de 2013, dado a conhecer ao Banco de Portugal em agosto do mesmo ano, e até 21 de julho de 2014, não apenas os socialistas, mas também Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes e a imprensa económica em geral asseguravam publicamente a saúde do BES.

A resolução do BES foi anunciada por Carlos Silva no domingo, dia 3 de agosto, às 23:15 minutos. 

Ou seja, segunda-feira, 00:15 da madrugada do dia 4 de agosto em Bruxelas e Frankfurt. 

Por incrível que pareça, até hoje nenhum órgão de comunicação, jornalista, ou analista se deteve sobre este pormenor. Porquê este dia e esta hora? Completava-se a 4 de agosto de 2014 os vinte dias mínimos necessários à entrada em vigor do mecanismo de resolução bancária aprovado pelo Parlamento Europeu no dia 15 de julho de 2014. Antes desta data teria sido impossível, ou ilegal, resolver o BES, cuja sangria era já imparável.

Até à data e hora em que ocorreu a resolução do BES o governador do Banco de Portugal não tinha nenhum instrumento que impedisse a falência descontrolada do BES em caso de uma denúncia explícita da situação real do universo Espírito Santo. Ações de persuasão sobre Ricardo Salgado não tiveram qualquer efeito. Mas acima de tudo, não podia decidir nada de essencial sem a aprovação do BCE.

Carlos Costa não teve outra alternativa que não fosse esperar pelo mecanismo de resolução bancária e pelo BCE. Ou seja, foi o BCE quem determinou o curso dos acontecimentos, em linha, aliás, com o futuro mecanismo único de supervisão bancária que entraria em vigor a 4 de novembro de 2014.

Em junho de 2014 Pedro Passos Coelho disse não a Ricardo Salgado, em primeiro lugar porque os bancos portugueses já se encontravam sob controlo do BCE, e depois porque sabia que um empréstimo de 2500 milhões de euros ao GES através de um sindicato bancário patrocinado pela Caixa Geral de Depósitos seria transformar o suicídio do BES/GES num genocídio bancário.

As medidas determinantes desenhadas para impedir que o colapso do GES-BES se transformasse numa derrocada completa do sistema financeiro português foram desenhadas e lançadas pelo Banco Central Europeu. Não pelo Banco de Portugal. Logo...

A caravana do populismo prefere agora, porém, usar a confusão para eleger um bode expiatório e, assim, tentar tomar de assalto o Banco de Portugal, peça essencial para proteger a Caixa Geral de Depósitos recauchutada das suas próximas avarias.

PS1: Cheguei a pedir no Facebok e no Twitter a demissão de Carlos Costa logo após a reportagem da SIC, mas bastaram 48 horas para rever os meus próprios posts neste blogue e perceber que estava errado. Carlos Costa pode muito menos do que a sua circunstância. E o Governo de Portugal, em matéria de bancos, já não manda nada, ou muito pouco. Por um lado, porque mais de 60% dos bancos portugueses foram desbaratados por um regime corrupto e incompetente (BPN, BCP, BPI, Banif), e por outro, porque quem manda no Banco de Portugal é o BCE.

PS2: Se alguém puxar por um fio da meada Caixa Geral de Depósitos, chamado ARTLAND, saberemos a razão de tanto nervosismo no seio da Geringonça a propósito do Banco de Portugal e da Caixa. Mas para que tal aconteça é preciso que uma fonte mistério se sente ao colo de um jornalista, não é?


A DECISÃO DO BCE E OS ÚLTIMOS DIAS DO BES

2014

30 junho
Termina Programa Assistência Económica e Financeira (PAEF), acordado em maio de 2011 entre as autoridades portuguesas, a União Europeia e o FMI. Segue-se uma fase de monitorização pós-programa – Post-Programme Surveillance, no âmbito da supervisão das instituições europeias; Post-Program Monitoring, no âmbito da supervisão do Fundo Monetário Internacional (FMI). Estima-se que este programa de vigilância/monitorização se manterá até 2035, com visitas semestrais ao país.

15 julho
—Parlamento Europeu aprova regulamento do resolução bancária (entra oficialmente em vigor passados 20 dias da data da sua publicação no Jornal Oficial da União Europeia).
—Goldman Sachs: compra 2,27% do BES.

21 julho
—Cavaco Silva afirmou que os portugueses podiam confiar no BES de acordo com informações que recebia do Banco de Portugal.

22 julho
—BES revela à CMVM que a Goldman Sachs comprou 127,6 milhões de ações a que então correspondia 2,27% do capital.

23 julho
—Imprensa portuguesa entusiasma-se com o apetite da Goldman pelo BES
—Citi recomenda a compra de ações do BES...
—Muitos idiotas dão ordem de compra, e muitos ingénuos adiam a sua saída do buraco chamado BES...
—Goldman vende neste mesmo dia 4,4 milhões de acções, ficando fora da participação qualificada.

29 julho
— A-G do BES é adiada sine die a pedido da ESFG depois de ver aceite por parte das autoridades luxemburguesas o seu pedido de protecção contra credores.

30 julho
—Publicação no Jornal Oficial da União Europeia do regulamento da resolução bancária (entra em vigor 20 dias após esta data: 19/8/2014.

01 de agosto, sexta-feira
—BCE retirou o estatuto de contraparte ao BES, suspendendo assim o acesso do banco às operações de política monetária.
—BCE exige ao BES a devolução, até dia 4 de agosto, dos 10 mil milhões de euros emprestados.
—A imprensa anuncia, oito dias depois do sucedido, que a Goldman Sachs deixou de ter uma participação qualificada no capital do BES após vender mais de 4,4 milhões de ações, ficando com menos de 2% da instituição. Esta alienação da posição ocorreu, recorde-se, no dia 23 de julho!
Ou seja, a Goldman vendeu, não dia 30 de julho, o que comprara no dia 15. No dia em que os brokers e a imprensa económica recomendaram a compra de mais lixo ao BES, a Goldman Sachs vendeu o dito lixo!

03 de agosto, domingo, 23:15/ ; 04 de agosto, segunda-feira, 00:15, em Bruxelas e Frankfurt
-Resolução do BES

04 de novembro
—Os principais bancos portugueses—BCP, Novo Banco, BPI, CGD— passam a estar sob controlo direto do BCE.

2016

03 de agosto
O Banco Central Europeu revogou a autorização do Banco Espírito Santo para o exercício da atividade de instituição de crédito. A decisão de revogação da autorização do BES implicou a dissolução e a entrada em liquidação do banco.



DESENVOLVIMENTO DO TEMA NOS MÉDIA

Assalto ao Castelo, que caíu no colo do jornalista Pedro Coelho, é apenas mais uma árvore da floresta que ninguém quer mostrar, nem ver. Desde logo, e a começar, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa.
Expresso, 06.03.2017 às 11h06 WET 
Carlos Costa enviou esta segunda-feira uma carta à presidente da Comissão parlamentar de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa (COFAP), Teresa Leal Coelho, pedindo para ser ouvido para prestar esclarecimentos sobre o seu papel e o do Banco de Portugal no caso BES, depois de na reportagem da SIC, "Assalto ao Castelo", ter-se admitido que o governador ignorou informações que lhe teriam permitido afastar mais cedo Ricardo Salgado da liderança do banco da família Espírito Santo.

Publicado: 05/03/2017, 02:46 WET
Atualização: 06/03/2017, 12:47 WET

quarta-feira, março 01, 2017

Offshores—num copo d'água


Nem ilegalidade, nem falta de prudência. Fuga de capitais diminuiu durante o governo PSD-CDS (afirma Paulo Núncio).


Paulo Núncio avisou António Costa (traduzo o que disse subtilmente): ou o PM e SG do PS deixa que a Geringonça transforme o país numa Venezuela (sem petróleo, direi eu), ou pauta-se pelas regras europeias, deixando-se de populismos de circunstância.

Sempre quero ver, daqui a uns meses, no que esta excitação populista das esquerdas dará.

Talvez agora, com o Professor Louçã no Banco de Portugal, PCP e Bloco comecem finalmente a deixar para trás a adolescência doutrinária e aprendam, pelo menos, com a China! Também ela só desistu da verborreia comunista depois de deixar de depender do petróleo da União Soviética, o que só ocorreria no rescaldo da Grande Revolução Cultural Proletária (1966-1978), muitos milhões de mortos depois.

A Rússia, a China e Cuba já não são o que eram. Para modelos, restam tão só a Coreia do Norte e a Venezuela. É tempo de ganharem juízo, não acham?

Entretanto, à medida que esta cornucópia se desenrola, atualizo este post com algumas citações e comentários no fim da página.

Tudo visto e somado, até ao momento, é bem possível conjeturar que ande em mais este episódio sórdido da nossa triste história financeira recente a maozinha de Paulo Portas. Só Paulo Núncio, porém, poderá aclarar as dúvidas. Convém, todavia, não descurar o contexto. Pois não foi Marcelo Rebelo de Sousa que semanalmente defendeu durante meses a fio a excelência da banca portuguesa e em particular do senhor Ricado Salgado? Seria bom que esta zanga de comadres desse algum resultado, i.e. expusesse a mão invisível disto tudo. O Presidente da República e o Primeiro Ministro querem transparência. Façam o favor de servi-la!


Paulo Núncio. "Excesso de informação pública pode ser contraproducente" 
Na intervenção inicial, Paulo Núncio quis "desmistificar" cinco questões: as transferências para paraísos fiscais só são comunicadas ao fisco à posteriori; são operações que, à partida, não estão sujeitas a tributação em Portugal; o anterior governo "contribuiu decisivamente para a redução destas transferências para paraísos fiscais" e a falta de publicidade "não corresponde" a uma falha de controlo. 
DN, 01/3/2017, 10:35 

Offshores. Esquerda liga estatísticas à descoberta dos 10 mil milhões que fisco não controlou - como aconteceu 
Paulo Núncio responde à terceira ronda de perguntas e começa por Eurico Brilhante Dias. “Não ficaria bem ao PS reconhecer que houve uma redução de transferências de Portugal para paraísos fiscais no Governo anterior? Como estariam os deputados da maioria se as transferências tivessem aumentado 50%? Seria a prova de que as medidas adotadas pelo anterior Governo não tinham tido resultados. 
O antigo secretário de Estado esclareceu ainda Mariana Mortagua de que o Bloco votou contra o agravamento da taxa de IMI para casas detidas por offshores. “Será que o Bloco acha boa ideia as casa detidas por offshores? Mariana Mortágua vai respondendo que o voto contra do seu partido foi sobre o Orçamento de Estado (2012) que incluia estas medidas. 
Observador, 01/3/2017

POPULISTAS

Populista #1: Catarina Martins, Líder do Bloco de Esquerda
“O Governo anterior deixou sair pela porta do cavalo 10 mil milhões de euros, é um número que não é nada pequeno (…) é bem mais do tudo o que gastamos com o Serviço Nacional de Saúde.”

Populista #2: António Costa, Primeiro Ministro
“É absolutamente escandaloso que um Governo que não hesitou em acabar com a penhora da casa de morada de família por qualquer dívida tenha tido a incapacidade de verificar o que aconteceu com 10 mil milhões de euros que fugiram do país“.

Populista #3: Miguel Tiago, Deputado do PCP
Houve “6% do PIB português que escapou do país”.

Populista #4 ( mais palavroso): Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República
”nos pratos da balança é mais importante a transparência e o escrutínio público do que o risco de porventura com isso dar elementos àqueles que possam ficar a saber de mais e poder utilizar esse conhecimento”. 
“Embora se saiba que isso pode fornecer aos próprios e a outros o conhecimento de como age o fisco, tem também uma vantagem de transparência, que é: o português que paga impostos e o português que tem a sua atividade financeira sobretudo concentrada em Portugal saber quem, nos termos legais, para pagar fornecimentos ou para fazer transferências de capital, acaba por transferir dinheiro para as ‘offshore’”,  

CONTINUAÇÃO...

Vai tudo parar ao DDT, e a quem o ajudou, por interesse, ou medo.

Presidente do STI diz que transferências ocultas para offshores tiveram mão humana
Negócios, 3/3/2017 
Para já sabe-se que 20 declarações das instituições financeiras escaparam ao controlo do Fisco. A elas correspondia, mais de 14 mil operações e um valor de 9,8 mil milhões de euros. Em 2014, 97% das operações que ficaram ocultas correspondiam a transferências para o Panamá e esta sexta-feira o Jornal Económico revela que mais de metade tiveram origem no BES, que enfrentou em 2014 um processo de resolução.

Mas...

Se os valores deixados passar em claro pelo diretor nomeado por José Sócrates—José Azevedo Pereira (que transitou depois para a vice-presidência do ISEG)—eram irrelevantes, mas reais (!), porque montou este senhor um show no Negócios da Semana sobre o tema, acusando Paulo Núncio de não ter dado despacho favorável à informação que ele, José Azevedo Pereira, o então diretor-geral da AT, lhe submetera com vista à publicitação das estatísticas das transferências bancárias para paraísos fiscais? Se Paulo Núncio tivesse dado o OK teria colaborado, pelo menos, numa negligência, certo? Falta mesmo esta trampa!

Em anos anteriores, no mandato do anterior director-geral, José Azevedo Pereira, houve também valores que escaparam ao controle inspectivo, mas, diz o presidente do STI, correspondem a quantias relativamente pequenas. "Entre os dados brutos da declaração modelo 38 [enviada pelos bancos com as transferências para offshores] e os dados enviados para tratamento há omissões de transferências de valores relativamente reduzidos, o que pode ser compreensível para que não se perca tempo com operações pouco significativas".

E...
BES concentra mais de metade dos dez mil milhões para offshores
Económico, 3/3/201
Mais de metade dos 10 mil milhões de euros de transferências para paraísos fiscais que não apareciam nas estatísticas entre 2011 e 2014 foram declarados pelo Banco Espírito Santo (BES). Em causa estão montantes que clientes do banco, na esmagadora maioria empresas, enviaram para offshores nos dois anos antes da resolução do banco. 
As transferências de 2014 deram origem a duas declarações, nomeadamente uma do BES (antes da resolução a 3 de agosto) e outra do Novo Banco com as transferências após essa data. Os valores ascendem a mais de cinco mil milhões de euros e estão relacionados com três das 20 declarações apresentadas pelas instituições financeiras que não foram objecto de qualquer tratamento pela Autoridade Tributária (AT).

Ou seja, se Paulo Núncio tivesse caído na esparrela que lhe foi servida pelo DG da AT nomeado por J Sócrates, e tivesse mandado publicar as estatísticas, estaria agora a ser acusado de ter participado numa manobra de ocultação de uma monumental fuga de capitais promovida pelo DDT. Lindo!

POST SCRIPTUM

É bem provável que Paulo Núncio tenha sido uma peça de Paulo Portas nas Finanças, para proteger interesses específicos. E que tenha ficado na direção do CDS dirigido por Assunção Cristas, como um ouvido do agora empregado do engenheiro Mota. Mas se estas suposições fizerem sentido, então Assunção Cristas aproveitou a investida de António Costa para continuar a arrumar a casa democrática-cristã.


Publicado: 01/03/2017 , 16:58 WET
Atualização: 05/03/2017, 23:24 WET