sexta-feira, março 30, 2012

Iberia Express ou TAP'EX?

Foto do Dakota DC-4 CS-TDF da TAP, comandado pelo Comandante Manuel Maria Rocha e co-piloto Roger d'Avelar, na sua partida de Lisboa a 24 de Março de 1946 pelas 14 horas. O trajecto definido foi : Lisboa-Casablanca-Bolama-Lagos-Liberville-Luanda-Lusaka-Lourenço Marques. A bordo seguiram , além de outros, um telegrafista, mecânico de bordo, o navegador e o meteorologista. Após 11.405 Kms e 45 horas e 20 minutos de vôo com 6 escalas, chegou ao aeroporto de Mavalane em Lourenço Marques no dia 1 de Abril de 1946, pelas 13 horas e 50 minutos. Ou seja, uma semana. THE DELAGOA BAY BLOG

Iberia Express, já está! E agora TAP?

Há muito que a blogosfera informada sobre transporte aéreo recomenda um spin off da TAP antes da privatização, sob pena de esta vir a ser um não evento e uma monumental barraca político-partidária — pois nem os governos PS e PSD-CDS/PP, nem nenhum partido parlamentar, até hoje, encarou o problema TAP de frente :(

A TAP tem gente a mais quando olhamos para evolução recente deste serviço, e sobretudo deste negócio.

A TAP alberga no grupo negócios ruinosos (ex: TAP Maintenance & Engineering, ex-VEM) que não fazem parte do core business da empresa e que têm vindo a chupar literalmente os lucros das operações intercontinentais e em geral do chamado hub aeroportuário português (basicamente um mini hub sediado na Portela e no aeroporto Sá Carneiro, que gere um importante fluxo de passageiros entre o Brasil e a Europa).

A TAP há muito que também perde dinheiro nas ligações europeias ponto-a-ponto, tendo a administração de Fernando Pinto/Michael Connolly (administrador financeiro) apostado estupidamente na ocupação em pura perda de dezenas de slots com o único objetivo de atrasar o inevitável: a chegada em força das companhias de baixo custo a Portugal!

A TAP martela as suas contas sistematicamente. Fê-lo outra vez este ano ao apresentar lucros de um único segmento da TAP como se fosse todo o grupo, onde obviamente se registaram prejuízos! Como pode uma companhia dar lucro e ser interessante para eventuais privados (de momento só existem duas empresas públicas interessadas em comprar o filet mignon da TAP: Iberia-British Airways) quando tem uma dívida acumulada de mais de 2,4 mil milhões de euros — o suficiente para mandar construir duas pontes Vasco da Gama?!

Como a blogosfera tem proposto, primeiro é necessário encarregar uma consultora internacional credível para desenhar um spin off inteligente da TAP, e só depois iniciar um processo de privatização a sério, e não mais uma entrega ao desbarato de uma empresa estratégica a outro país (no caso, a dois: Inglaterra e Espanha!)

A blogosfera adiantou há mais de dois anos a ideia de libertar a TAP das suas gorduras desnecessárias e de, ao mesmo tempo, criar dentro do grupo duas (chegou a propor-se três) companhias: uma TAP LOW COST e uma TAP INTERCONTINENTAL, assegurando deste modo a permanência do seu mini hub atlântico em Portugal, e entrando no jogo altamente competitivo das companhias de baixo custo.

O aparecimento da Iberia Express mostra o que poderá acontecer à TAP se for o contabilista-mor do reino (Vítor Gaspar) a decidir: 4000 despedimentos e a entrega dos aviões da TAP (em leasing), e sobretudo os slots, à Iberia Express !!!

Para a IAG (Iberia + British Airways) a TAP só poderá interessar por um motivo, aliás importante: alargar a presença que já tem no Atlântico norte para o Atlântico sul.

O hub da TAP até poderia continuar em Lisboa, só que já não seria da TAP, mas da IAG. E quanto ao resto é simples: despedir, vender e enfiar o que sobrar na Iberia Express!

Mas também pode acontecer o pior: tudo para Madrid e Barcelona! Portela e Sá Carneiro passariam à categoria de aeroportos regionais de baixo custo — e nada mais :(

quarta-feira, março 28, 2012

Mais impostos, não!

Manif. "Geração à Rasca", 12 março 2011
Foto: ©OAM

Impostos menos pesados, mais transparentes e melhor aplicados, e menos burocracia, são vias mais decisivas para gerar novos empregos, do que despejar dinheiro sobre os problemas —por exemplo, disfarçando o desemprego com formações fictícias, ou atirando os jovens contra o emprego sénior.

por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

Precisamos de diminuir drasticamente a complexidade e os custos de contexto da atividade económica, começando por uma diminuição dos encargos, e pela simplificação de processos inerentes aos inícios de atividade profissional e empresarial dos jovens.

Num artigo recente de Tyler Durden (ZeroHedge) é colocada uma hipótese extraordinária sobre a provável causa de tanto desemprego, falta de emprego e perda de rendimentos médios entre os jovens americanos. Resumindo, a causa deste bloqueio seria o bem-estar acumulado e excessivamente protegido dos baby boomers, uma geração nascida sensivelmente entre 1946 e 1954-56, que protagonizou algumas das batalhas mais entusiásticas do século 20, contra a guerra, contra o colonialismo e o racismo, pelos direitos das minorias, e por uma redistribuição fiscal da riqueza por forma a promover e garantir a existência de uma sociedade de bem-estar mais justa e mais livre do que todas as que a antecederam.

O resultado de todo este entusiasmo e generosidade ideológica, que os filmes Easy Ryder, American Graffiti e The Big Chill tão bem retratam, foram sociedades de consumo cada vez mais egocêntricas e endividadas, de onde a juventude (sobre-explorada) tem vindo a ser paradoxalmente excluída.
Em 1984, na América, o rendimento líquido médio anual dos  jovens com trinta e cinco anos ou menos era de aproximadamente de 11.500 dólares. Já as pessoas com sessenta cinco anos ou mais recebiam anualmente e em média algo mais do que 120 mil dólares. Em 2009, porém, a situação encontrava-se completamente deteriorada: os jovens até trinta e cinco anos ganhavam anualmente e em média 3.662 dólares, enquanto as gerações com mais de sessenta e cinco anos recebiam anualmente e em média  mais de 170 mil dólares. Desconheço a situação na Europa e em Portugal, mas desconfio que não andará muito longe desta calamidade — atendendo à evolução no mesmo sentido do desemprego jovem.

Dollar figures adjusted for inflation, into 2010 dollars; Source: PEW RESEARCH CENTER

Keynesians may say that this reflects a government’s failure to create jobs for young people. They claim that the problem is that there is not enough money circulating in the economy, and that government can “raise demand” by pumping out more cash. But there is plenty of money in the economy; so much money that Apple have built up a $90 billion cash pile. So much that China has built up a $3 trillion cash pile. So much that banks are holding $1.6 trillion in excess reserves below fractional lending requirements.

More likely is the reality that overregulation and barriers to entry preventing the unemployed from picking up the slack in the jobs market. As John Stossel reveals in a recent documentary film,  in New York City it costs $1 million to get a licence to drive a taxi. Anyone who wishes to operate a food cart, or run a lemonade stand has to traverse reams of bureaucracy, acquire health and safety certificates, and often pay huge fees  to receive the “necessary” accreditation. While some barriers to entry are necessary (e.g. in medicine), in other fields it is just an unnecessary restraint on useful economic activity. In many American cities it is now illegal even to feed the homeless without government certification and approval. Citizens who defy these regulations face fines, arrest, and even imprisonment.
The Chart of The Decade, by Tyler Durden.

Não é deitando mais dinheiro virtual sobre a economia estagnada, nem aumentando as dívidas dos governos, das empresas e das pessoas, nem é sobretudo elegendo bodes expiatórios (neste caso, os baby boomers), que evitaremos o agravamento em curso da situação. Terá que haver outra maneira e outras soluções!

Ao longo dos últimos duzentos anos as populações fugiram dos campos para as fábricas e cidades. Depois procuraram ver-se livres das cadeias industriais, exportando-as para os países mais pobres e menos democráticos, dedicando-se a trabalhos mais leves e aumentando progressivamente o tempo disponível para o prazer e, do ponto de vista da economia, para a criação de serviços e o consumo.
O esquema começou a romper-se à medida que a divisão internacional do trabalho deu lugar a uma deterioração crescente das balanças comerciais das antigas potências coloniais, seja porque começaram a importar cada vez mais energia e bens transaccionáveis, seja porque foram exportando indústrias e cadeias de valor inteiras para outras partes do mundo, com as quais estabeleceram acordos de livre circulação de mercadorias e de investimentos. Esta situação acabaria por revelar-se insustentável, não tanto pelo lado dos investidores e especuladores, que continuaram a poder acumular legalmente mais-valias de todo o género, e ainda lucros excessivos, mas sobretudo pelo lado das pessoas e dos seus governos — que foram sendo paulatinamente expropriados!
A situação a que o mundo chegou não poderá continuar como está por muito mais tempo. Se nada for feito, de radical e criativo, o colapso das economias e das sociedades, com o consequente retrocesso civilizacional e cultural dos povos, será tão certo quanto trágico. Quanto tempo mais poderemos esperar antes de agirmos contra este desastre anunciado?

Atacar o gravíssimo problema do desemprego e da falta de emprego entre os jovens com menos de trinta e cinco anos é uma prioridade absoluta, que tem que ser levada a sério por todas as forças políticas e sociais, com o apoio da inteligência criativa das universidades, dos gabinetes técnicos governamentais e de novas instâncias de poder democrático deliberativo — que não existem e que devem ser criadas desde já. Para este lado da democracia deveria caminhar a reforma autárquica do país, o que não tem sido o caso, prisioneira que está da inércia burocrática e dos privilégios de quem domina institucionalmente boa parte do país.

É preciso criar um período e carência fiscal para todos os jovens que se iniciam nas suas profissões, ou que começam uma empresa. Estarão os partidos que temos, dispostos a discutir esta proposta?


NOTA: este texto foi originalmente publicado no blogue do Novo Partido Democrata (NPD)

quinta-feira, março 22, 2012

A corja do aeroporto

Enquanto os cachorros da SIC, de São Bento e de Belém ladram, a caravana passa...

O que a corja que já meteu este governo no bolso quer é trocar o combóio (coisa popular horrenda!) pelo embuste da Ota em Alcochete. Assim teriam mais betão pela frente, na Alta de Lisboa/Portela e em Alcochete. Imagino que terão o apoio do PCP!

Bruselas quiere que todas las infraestructuras incluidas en la red básica, incluidos el Corredor Mediterráneo y el Atlántico, estén completadas en 2030. Para ello, ha propuesto movilizar 32.000 millones de euros del presupuesto comunitario durante el periodo 2014-2020. Con estos fondos se costeará entre el 20% y el 40% de los proyectos, especialmente los tramos transfronterizos — in RTVE.es.

A Espanha é o maior credor de Portugal. Depois vêm a Alemanha e a França (ver gráfico do New York Times). Qualquer destes três grandes países aposta numa Rede Europeia de Transportes, com "TGV"!

Percebe-se, pois, que França e Espanha tenham respondido imediatamente ao caricato governo português, explicando-lhe diplomaticamente que uma rede ferroviária europeia não depende apenas dos apetites e humores de um qualquer mordomo lusitano, chame-se ele Passos de Coelho, Gaspacho ou Cavaco!

O governo português, se seguisse literalmente as palavras tontas do atual primeiro ministro, teria que indemnizar, não apenas o consórcio Elos, mas também todo o investimento espanhol já realizado na ligação AV Madrid-Lisboa!

Além do mais, Portugal perderia não só os fundos comunitários já atribuídos à ligação Poceirão-Caia, como perderia sobretudo toda e qualquer credibilidade em futuras candidaturas a programas de apoio comunitário. A rede Barroso é como se sabe temporária, e os povos têm memória!

Basta reparar como todos os cães de fila do embuste da Ota em Alcochete regurgitam esta noite baboseiras triunfais sobre o suposto nado-morto, para notarmos mais uma vez como este país continua no bolso dos ladrões e criminosos que o levaram à bancarrota!

Em conferência de imprensa no final de uma reunião dos ministros dos Transportes da União Europeia, dedicada precisamente à rede transeuropeia de transportes, a ministra espanhola Ana Pastor afirmou, ainda assim, estar "tranquilizada" com a garantia que recebeu hoje do ministro da Economia português, Álvaro Santos Pereira, de que Portugal vai adoptar a bitola europeia nas ligações ferroviárias alternativas ao projecto de alta velocidade, que decidiu na quarta-feira abandonar definitivamente.

No entanto, apontou, o governo espanhol, bem como as autoridades francesas, querem saber precisamente quais as intenções de Portugal, já que têm implicações no "corredor sul" da rede transeuropeia de transportes — in Jornal de Negócios/Lusa, 22 Março 2012 | 16:15

O Tribunal de Contas é um tribunal faz de conta, ou seja um embuste político-partidário execrável. Como tal deveria ser extinto. É mais uma das muitas excrescências burocráticas deste regime demo-populista e corrupto até à medula. Querem poupanças? Comecem por aqui!


POST SCRIPTUM

Deixo à consideração do leitor um comentário OTR, de uma toupeira amiga.... cuja qualidade das informações respeito.
“O contrato do Poceirão-Caia era ruinoso - com uma TIR sem risco de 12% - e foi bom o TC tê-lo chumbado. Para além disso, como sabes, estava atrelado a um projecto estúpido (sem ligação a Sines e com aquela terceira linha parva).

Sei, por experiência, que a "renegociação" / alteração do projecto e das cláusulas financeiras do contrato não podia dar bom resultado. Para além disso, era uma operação ilegal e violadora do direito de concorrência.

Lê, com atenção, o acórdão do TC: pagar 300 M à Elos é, apenas, fruto da ignorância dos jornalistas.

E lê, com atenção, o comunicado do ME: está lá a linha que sempre defendemos.

O paleio do comunicado contra a "alta velocidade" é política. O PPC, sem saber, atirou-se ao TGV e agora tem de lhe chamar outra coisa. Por mim, que se lixe.

Eu não faço futurologia, nem passo cheques em branco. Mas este passo era crítico e imprescindível.

Falta agora influenciar o novo projecto e cuidar que ele não se perca. Mas chorar por aquele contrato não me parece boa ideia.”
 Os argumentos aqui expostos são sólidos e merecem reflexão. Ficam, porém, duas perplexidades no ar:
  • A quem se deve o sincronismo da divulgação do relatório do TC com a ida do ASP a Bruxelas, precisamente para participar numa reunião decisiva sobre as redes ferroviárias de Alta Velocidade no âmbito do PET?
  • Havendo novo concurso para um novo caderno de encargos, expurgado das incongruências e despesismo tolo do anterior projeto cor-de-rosa (dupla estação em Évora —certamente desenhada por um Pritsker Prize!—, terceira via, etc.) compromete ou não o uso das verbas comunitárias já atribuídas?
Uma coisa é certa: o fim definitivo do "TGV" é o fim definitivo de uma enteléquia, ou seja, de algo que nunca existiu, nem está escrito em nenhum documento oficial: o "TGV"!


ÚLTIMA HORA!
Portugal da la patada definitiva a Florentino Pérez por el AVE a Lisboa

...lo peor para el país, quizás, será la pérdida de imagen de cara a la inversión extranjera. Será difícil justificar internacionalmente que la adjudicación del concurso del AVE a Elos sea declarada "ilegal" dos años después de la firma del contrato, cuando el consorcio llevaba ya invertidos casi 300 millones de euros.  CapitalMadrid.

Que as ratazanas da cloaca lusitana não descansem enquanto não puserem o país mais de rastos do que já está, em nome exclusivo das suas rendas e ganâncias, rasgando contratos e compromissos de estado reiteradamente subscritos com outros países e com a UE, percebe-se, dada a natureza das alimárias. O que não entendo é a sonolência bovina dos eleitores do meu país. Acordem!

"O Governo espanhol vai continuar a construir a sua linha de alta velocidade entre Madrid e a fronteira portuguesa com um traçado para velocidades de 350 km/hora, tal como estava programado e acordado com Portugal desde que foram assinados os primeiros acordos para este projecto em 2003." Público (edição impressa)

Só quem não conhece os organismos de planeamento do estado espanhol (Ministerio de Fomento, etc.), que felizmente não foram capturados pelas ratazanas locais, como aqui fez o Bloco Central, destruindo praticamente toda a competência técnica do estado português, é que poderia imaginar que o governo espanhol (independentemente de ser "socialista" ou "popular"), alterasse um milímetro do que foi planeado há mais de uma década — ainda que recebendo de Portugal, ao longo de todo este tempo, os sinais caricatos de uma nomenclatura corrupta que apenas se dedica aos assaltos de curto prazo à riqueza disponível.

Ou seja, hora para investir em Elvas e na futura eurocidade Elvas-Badajoz! Eu vou começar a procurar um apartamento na velha cidade-fortaleza ;)

Fundos comunitários do TGV vão ser reprogramados para outros projectos em Portugal

A Comissão Europeia (CE) e Portugal estão em convergência sobre o destino dos fundos disponibilizados para o projecto de alta velocidade TGV, abandonado na quarta-feira pelo Governo, disse hoje em Lisboa José Manuel Durão Barroso.

O presidente da CE afirmou ainda que Portugal vai permanecer em todos os programas de financiamento acordados originalmente e integrar as redes transeuropeias.

"Existe uma convergência entre a Comissão e as autoridades portuguesas nesse aspecto. Tanto quanto sei, Portugal ficou em todas as redes, mas, do ponto de vista português, houve a vontade de uma reprogramação, nomeadamente dos níveis da velocidade", referiu. Jornal de Negócios online.

O Passos de Coelho está a transformar-se num verdadeiro primeiro ministro à distância. Se não tem cuidado sucede-lhe o mesmo que ao Santana Lopes. O Portas é o mesmo!

Última atualização: 24 mar 2012 12:55

Novo Partido Democrata — 2


Sandro Botticelli — O Nascimento de Vénus (pormenor)

Sem classe média não há democracia!
 
Se isto é verdade, não pode deixar de ser uma grande preocupação assistirmos ao processo recentemente acelerado de destruição da classe média portuguesa, que a bancarrota do país e os grupos parasitários ameaçam transformar num processo dificilmente reversível no curto e médio prazo, sobretudo se a própria classe média não reparar na gravidade da situação e se deixar lentamente engolir pelo cano de esgoto da fiscalidade brutal e insaciável que tomou conta do nosso presente e ameaça destruir o nosso futuro.

Os ricos sempre souberem viver e os pobres sempre conseguiram sobreviver em regimes absolutistas e ditatoriais, mas os democratas e liberais, não. Se deixarmos o bloco central que há mais de trinta anos atrai as maiorias eleitorais render-se de vez aos processos de captura e manipulação da sociedade por parte dos ricos rendeiros do regime, com a consequente desintegração ideológica da democracia, haverá um momento, mais próximo do que poderemos imaginar, em que a diversidade democrática portuguesa será brutal e repentinamente reduzida à lógica maniqueísta e populista típica dos regimes pré-democráticos, dando assim lugar a uma espécie de pós-democracia miserável, tecnológica, burocrática, autoritária e policial.

O perigo de caminharmos rapidamente para uma ditadura cibernética de aparência democrática, com simulações eleitorais cada vez menos concorridas e mais manipuladas, não é uma fantasia, nem uma hipótese teórica de uma qualquer teoria da conspiração. A expropriação fiscal da classe média, que arrasta atrás de um indecente cortejo burocrático e policial o roubo ilegítimo mas aparentemente legal das poupanças e outros ativos desta classe criativa —como a família, o amor e as amizades—, está em curso e ameaça aniquilá-la em menos de uma geração. Para impedi-lo será preciso mudar o curso suicida das democracias europeias e americanas num novo tempo histórico, em que a abundância de recursos acabou e o predomínio colonial do Ocidente deixou felizmente de prevalecer na ordem mundial.

As democracias ocidentais estão no início de uma metamorfose cultural desordenada, largamente manipulada por minorias que já capturaram estados e governos por esse mundo fora, e se preparam agora para anestesiar e depois liquidar a base social das democracias modernas. Queremos que assim seja?

Suponho que não!

No primeiro texto que escrevi, em Janeiro deste ano, sobre a urgência de criar um Novo Partido Democrata, o NPD, pode ler-se:
Quando será que este governo cairá na lama? No fim da legislatura? Antes mesmo? Tudo irá depender do tempo que Álvaro Santos Pereira aguentar. A sua saída ditará simbolicamente o fim da própria presunção de inocência do senhor Passos de Coelho e do cada vez mais irritante Gasparinho. Depois deste cabo dobrado, a corrida eleitoral recomeçará! Porque pensam que anda Sócrates e a corja que deixou plantada no parlamento tão agitados?

O cada vez mais débil António José Seguro precisará em breve de recorrer a uma Unidade de Cuidados Intensivos (estratégica e táctica). Esperemos que saiba encontrar o conselheiro certo. Mas, como venho insistindo, já não chega. Aquela roseira velha não recupera sem uma grande poda!

E nós, ou seja, os que hesitam entre deixar de votar de vez, e a ténue esperança de uma renovação do jogo democrático, precisamos doutro partido para mudar este estafado rotativismo em que estamos metidos há mais de três décadas e cujo triste balanço é a bancarrota. Já não acontecia há 120 anos!
(Ler texto completo aqui)

Portugal caminha rapidamente para um segundo resgate. As palavras desencontradas do governo escondem o óbvio: o país está profundamente falido e insolvente, depende dos credores internacionais para comer e para pagar os seus funcionários públicos, as reformas e assistência médica e social ainda prestada, e para manter a aparência institucional dos cadáveres adiados da banca, que mais não fazem do que executar o pouco sangue que ainda respira na economia.

Desde a assinatura do memorando com a Troika de credores, Portugal é um protectorado, alías um protectorado formalmente independente, isto é, onde o poder político resultante de processos eleitorais cada vez mais inexpressivos pode, apesar de tudo, continuar a destruir o país, em nome do salve-se quem puder, em nome dos grandes rendeiros, em nome da continuidade patética da retórica partidária e parlamentar, em nome dos privilégios das corporações profissionais, sindicais e partidárias. Quanto maior for o buraco cavado pelas elites assassinas do país, mais doloroso e prolongado será o nosso cativeiro e mais arrasadora será a destruição da classe média.

O maior problema que temos pela frente é pois o de saber se quando acordarmos ainda iremos a tempo de nos levantarmos!

Aos que dizem que Portugal não precisa de mais partidos, repito: com os que temos não iremos a parte nenhuma. Do CDS ao dito Bloco de Esquerda, as soluções estão esgotadas, e sobretudo as dependências de cada um destes partidos do orçamento público é de tal ordem que já nada mais farão mais do que reproduzir até à exaustão as suas cada vez mais impotentes e caricatas ladainhas.

Precisamos, sim, de novos partidos e sobretudo de uma democracia menos partidária!

Parece um paradoxo, mas não é. Portugal precisa de um Estado eficiente, isto é, mais leve, mais transparente, mais profissional, mais responsável, menos partidário, mais digno, em suma. E precisa de uma ligação mais verificável e orgânica entre eleitores e eleitos. Precisa também de estender o tecido democrático para lá das paredes do parlamento e da governação central e municipal, ou seja, precisa de uma sociedade mais democrática, transparente, responsável e pragmática em todos os seus níveis de organização, cuja reflexão e apostas cheguem facilmente e influenciem os níveis superiores de decisão e governo. Precisamos, ao mesmo tempo, de libertar a sociedade, a economia, a política e a cultura das carraças, dos piolhos, das pulgas e da sarna que a atormenta e vem consumindo de forma deplorável.

Eu estou disposto a colaborar no renascimento da democracia portuguesa. E você, está?

quarta-feira, março 21, 2012

A sombra de Lutero

Alemanha preparada para abandonar o euro

Lucas Cranach, o Velho — retrato de Martinho Lutero e esposa (1529)

Uma pilha de papel em branco aguarda eventual regresso da Alemanha ao marco se entretanto a insolvência dos PIIGS se revelar irreversível e insuportável para os cofres do Bundesbank.

Quanto à viagem de António Mexia a Pequim imagino que o cabotino foi chamado a despacho pelo governo chinês, com o objectivo expresso de o mandarem calar e ser portador de um presente qualquer para Passos de Coelho. Já no que se refere à misteriosa viagem do nosso contabilista-mor a Washington, estranho sobretudo a falta de especulação da nossa imprensa. Então não acham extraordinário que o ministro das finanças de uma província minúscula do império se desloque assim de repente à América para falar com Geithner e Bernanke? Eu só vejo uma ou duas explicações para tão inusitado episódio da crise financeira em curso:

  • Os americanos querem, e têm argumentos suficientes para, moderar a aproximação sino-lusitana;
  • Portugal está em pânico com a possibilidade de Berlim exigir a devolução do que resta do ouro nazi que Portugal obteve em troca do volfrâmio exportado para o III Reich durante a Segunda Guerra Mundial, e que foram em larga medida alienadas durante os mais de trinta e sete anos de democracia populista que se sucederam à ditadura. Estas reservas de ouro, depositadas em Fort Knox (suponho), serviriam agora para cobrir parcialmente os colossais empréstimos em curso, contra os quais Portugal já não pode oferecer garantias sólidas, pois os Bilhetes do Tesouro vendidos pelo Estado português aos bancos, que por sua vez os depositam no BCE (como colateral) em troca de empréstimos a 1%, são demasiado fungíveis. Quando estes papeis tiverem que ser trocados por novos títulos de dívida, por ocasião do inevitável incumprimento e subsequente reestruturação da gigantesca dívida portuguesa, a economia portuguesa estará então provavelmente em pior estado do que está hoje — seja porque os políticos não fizeram as reformas prometidas à Troika e ao eleitorado que correu com Sócrates, seja porque a austeridade excessiva, continuada e mal distribuída acabará por destruir ao mesmo tempo a receita fiscal e a capacidade produtiva do país!

O bom humor de Vítor Gaspar contrasta escandalosamente com as últimas informações sobre a execução orçamental de 2012. Ou será que a saída da Alemanha do euro já está nos planos da Comissão Europeia, da América, do Reino Unido, da China e... de Portugal?!

Vivemos tempos de grande volatilidade, como bem demonstram os últimos despachos de John Ward/The Slog sobre o nervosismo, mas também sobre as precauções da Alemanha. Chamo, a propósito deste post montado pelas toupeiras do Slog, uma especial atenção para a crucial entrevista dada por Markus Kerber a James Turk em Setembro de 2011, e que Ward expressamente menciona.


Markus Kerber talks to James Turk

REVEALED: HOW BERLIN HAS BEEN PLANNING A EURO-EXIT SINCE 2009, The Slog.

… Berlin is sitting on a huge stock of unprinted banknote quality paper….and has reduced the amount of its existing euros in circulation. That second fact is particularly surprising given that, since the euro’s launch, Germany has led the circulation growth every year: it has one of the lowest credit/bank card usage rates in the EU, and easily the highest consumption of cash for transactions.

[…] One thing the euronote production market as a whole reveals is how little real control the ECB has on a day-to-day basis. It prints just under 8% of all the banknotes  in circulation: over four notes in five are produced by the EU member State’s own suppliers – and in most cases, they are nationalised. What ties all the ‘peripherals’ together is that none of them produce euros for anyone else – and each country’s output has a different serial prefix to identify it. So it is relatively easy for the ECB to spot when unauthorised printing is taking place. Ergo, Mario Draghi must know that the Bank of Greece has been printing without permission. But he has chosen to do nothing about it.

[…] As an EU citizen (thankfully uninvolved in the eurozone) I find all the things emerging from this very brief initial delve into euro production most disturbing. Last November the Max Keiser site focused on ECB reform as the thing most likely to evoke a German departure from the ezone. Since then, ECB boss Mario Draghi has manoeuvred Board membership at the bank skilfully to reduce German influence still further.

[…] In the same month, Chancellor  Merkel’s Christian Democratic Union party voted to allow euro states to quit the currency area, endorsing the prospect of a move not permitted under euro rules. That was a statement of intent, not the passing of a law – but it does show pretty clearly that the option is there should Berlin feel the need.

Now we learn that Berlin has a banknote paper stockpile, full control over a printer based in Berlin, is running down its euro supplies, and is ken to make euro-exit easier. As The Slog’s Bankfurt Maulwurf has always maintained, Germany has every angle covered. Yet again, digging into the facts behind the spin proves him right.
[…] Earlier in the week, The Slog led with the revelation that Germany’s banking community had told Angela Merkel, “Either Greece must be amputated, or we must leave the eurozone”. I am rapidly coming to the conclusion that both possibilities are still in play….and as always, the Fuhrerine in Berlin is waiting for events to present a clearer picture. As I noted in the earlier post this week, opinion is moving away from the German exit solution: but a post-election repudiation of the Brussels Accord in Greece, and a collapse in Spain and Portugal, would make it the hot favourite.

terça-feira, março 20, 2012

Depois do banquete

O tempo trágico por vir, chegou...

Marco Ferreri — La Grande Bouffe (1973) Na imagem: Michel Piccoli e ?

Em 1972 Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jørgen Randers publicaram The Limits to Growth. Um ano antes, a produção petrolífera americana atingira o seu pico e Nixon anunciara unilateralmente o fim do Acordo de Bretton Woods. Um ano depois dar-se-ia a primeira grande crise petrolífera e a Guerra de Yom Kippur. Neste mesmo ano a alegoria escatológica de Marco Ferreri, La Grande Bouffe, ganhou o prémio da crítica do Festival de Cinema de Cannes. Quase quarenta anos depois, a sociedade do consumo começa francamente a desfazer-se, sem descortinarmos que outra lhe poderá suceder.

A humanidade, tal com previra Donella Meadows, pode já ter passado para lá do limite de segurança da sua própria sustentabilidade, restando-lhe agora esperar pelas consequências de um desastre inevitável. Os limites de crescimento potencial do modelo económico e demográfico baseado no uso intensivo de formas de energia barata foi atingido. E nem mesmo a China parece em condições de resistir ao que aí vem, pois já deixou de poder exportar para as economias falidas do Ocidente o suficiente para continuar a recuperar a ritmo galopante o seu atraso económico, tecnológico, social e cultural face à Europa, Japão, Estados Unidos e Canadá. Uma coisa é vermos o PIB da China aproximar-se rapidamente do PIB americano, ou do da União Europeia, outra bem diferente é compararmos o PIB per capita chinês com os correspondentes níveis de produção per capita no Ocidente industrializado. A China não consegue, nem creio que conseguirá alguma vez, gerar internamente a escala e a qualidade de consumos que permitam seguir o conselho algo cínico dado por Christine Lagarde aos políticos e homens de negócios chineses: deixem de depender tão criticamente das exportações e do investimento!

O sonho americano e o sonho europeu, assentes na ilusão de uma sociedade de consumo, prazer e bem-estar social sem limites, alimentada por energias baratas, pela exploração colonial e finalmente pelo endividamento compulsivo, acabou em pesadelo. O pesadelo da destruição sistémica do emprego, o pesadelo da insolvência e da austeridade sem fim, e o pesadelo do colapso irreversível do estado social, inicialmente criado por Bismarck, no século 19, para travar a emigração germânica para a América, onde se pagavam, e pagaram até ao fim do século 20, melhores salários do que no resto do planeta. O reajustamento acabará por se dar, só não sabemos quanto vai custar e quantas vítimas irá causar.




Em Portugal os analistas despertaram tardiamente para a gravidade destes problemas. A busca desesperada de bodes expiatórios arrancou em força depois de se perceber duas coisas simples: que uma parte da sociedade tem sido sangrada e sugada paulatinamente desde os tempos de Manuela Ferreira Leite, e de forma brutal desde que assinámos o Memorando com a Troika, mas que uma outra, composta por uma difusa e algo tenebrosa elite e excepções indecorosas, tenta descaradamente escapar às suas responsabilidades. Os casos da TAP, da RTP, da Caixa Geral de Depósitos, ou do Banco de Portugal, já para não falar das mordomias parlamentares e partidárias, são um insulto intolerável à inteligência e ao que resta da democracia!

O governo já aumentou impostos e vai continuar a aumentá-los, já reduziu benefícios fiscais e despesa pública e vai ter que continuar a reduzi-los, continua, em suma, a leiloar Bilhetes do Tesouro. Só não imprimiu moeda, porque não pode!

Parte da liquidez que nos chega da Troika regressa à origem sob a forma de juros. Pelo caminho vão-se saldando parte das dívidas e impede-se o incumprimento (bancarrota), permitindo ao mesmo preparar devedores e credores para uma reestruturação mais ou menos próxima da dívida.

Os bancos não emprestam, e então o dinheiro foge dos bancos!

São as duas faces de uma mesma moeda: a moeda da deflação monetária. Mais cedo ou mais tarde terá que haver alguma reflação, sob pena de as economias europeias entrarem num ciclo depressivo semelhante ao do Japão: juros negativos, estagnação económica, regresso ao endividamento público para acudir à emergência social e para manter o sistema financeiro numa qualquer unidade de cuidados intensivos, desemprego endémico, crise política permanente...

A tosquia grega, ao contrário do que boa parte das Cassandras inglesas e de Wall Street previram aos quatro ventos, não fez ruir o dominó do euro. Temos, pois, um caso de estudo pela frente!

…as anticipated by LEAP/E2020, the handling of the “Greek crisis” (9) has quickly caused the disappearance of the so-called “Euro crisis” from the media headlines and market participants’ concerns. The mass hysteria maintained by the Anglo-Saxon media and the Eurosceptics during the second half of 2011 on this subject hasn’t lasted long: Euroland is increasingly asserting itself as a sustainable structure (10); once again the Euro is in vogue in the markets and for emerging countries’ central banks (11), the Eurogroup/ECB functioned effectively and private investors will have to accept a haircut of up to 70% on their Greek assets, thus confirming LEAP/E2020’s 2010 anticipation which then spoke of a 50% haircut when almost no-one imagined such a possibility without a “catastrophe” signalling the end of the Euro (12). Ultimately, markets always yield to the law of the strongest… and the fear of losing more, whatever the students of ultra-liberalism may say. GEAB Nº63.

Na realidade, nem todos os analistas anglo-saxónicos estão a soldo da propaganda de Wall Street e Washington. Continua a haver cabeças pensantes e que pensam bem e com honestidade sobre os problemas. Dois exemplos: a análise recente da Bridgewater sobre alguns casos históricos de reestruturação de economias excessivamente endividadas, e sobretudo o muito estudado relatório publicado em 2011 pelo The Boston Consulting Group:

Collateral Damage
Back to Mesopotamia?
The Looming Threat of Debt Restructuring

David Rhodes and Daniel Stelter
September 2011 (PDF)

Primeiro, vamos ao resumo do ZeroHedge sobre a investigação da Bridgewater, da autoria de Ray Dalio —An In-Depth Look At Deleveragings (PDF):

Last month, the world's biggest hedge fund, Bridgewater, issued a fascinating analysis of deleveraging case studies through the history of the world, grouped by final outcome (good, bad and ugly). As Dalio's analysts note: "the differences between deleveragings depend on the amounts and paces of 1) debt reduction, 2) austerity, 3) transferring wealth from the haves to the have-nots, and 4) debt  monetization. Each one of these four paths reduces debt/income ratios, but they have different effects on inflation and growth. Debt reduction (i.e., defaults and restructurings) and austerity are both deflationary and depressing while debt monetization is inflationary and stimulative. Ugly deleveragings get these out of balance while beautiful ones properly balance them. In other words, the key is in getting the mix right." Of these the most interesting one always has been that of the Weimar republic, as it certainly got the mix wrong.

[…]  as BCG showed last year [2011], the global debt overhang (on a net blended basis) to reduce global Debt to GDP to a "sustainable" 180%, would require the elimination of $21 trillion in debt, one way or another, with the excess debt concentrated primarily in the US ($8.2 trillion) and the Eurozone ($6.1 trillion).

in ZeroHedge, Presenting Bridgewater's Weimar Hyperinflationary Case Study (LINK)
E agora vamos ao resumo do ZeroHedge sobre o já famoso Back to Mesopotamia:
Boston Consulting Group confirms, the "muddle through" is dead. And now it is time to face the facts. What facts? The facts which state that between household, corporate and government debt, the developed world has $20 trillion in debt over and above the  sustainable threshold by the definition of "stable" debt to GDP of 180%. The facts according to which all attempts to eliminate the excess debt have failed, and for now even the Fed's relentless pursuit of inflating our way out this insurmountable debt load have been for nothing. The facts which state that the only way to resolve the massive debt load is through a global coordinated debt restructuring (which would, among other things, push all global banks into bankruptcy) which, when all is said and done, will have to be funded by the world's financial asset holders: the middle-and upper-class, which, if BCS is right, have a ~30% one-time tax on all their assets to look forward to as the great mean reversion finally arrives and the world is set back on a viable path.

in ZeroHedge, The "Muddle Through" Has Failed: BCG Says "There May Be Only Painful Ways Out Of The Crisis" (LINK)

Clicar para ampliar o gráfico

Se repararmos no caso portugês, ficamos a conhecer algumas cifras aterradoras:
  • Em 2009 a nossa dívida total (pública, empresarial e doméstica) já rondava os 312% do PIB
  • Ou seja, para regressar aos limites de sustentabilidade teórica (180% do PIB) seria preciso, considerando os números de 2009, uma redução do nosso endividamento na ordem dos 221 mil milhões de dólares!
Em 2009 o endividamento das empresas não financeiras (139%) estava bem acima das dívidas pública (76%) e doméstica (97%). A avaliação confere, aliás, com o que vamos sabendo das escandalosas dívidas acumuladas pelas empresas do setor empresarial do Estado que se colocaram artificialmente fora do perímetro orçamental público, das PPPs e do setor imobiliário.

Sabe-se, entretanto, que medidas de austeridade que impliquem cortes orçamentais anuais acima dos 3% do PIB redundam rapidamente em agitação social. Ou seja, e no caso português, o limite da austeridade poderá andar pelos cinco mil milhões de euros anuais, ou seja, para regressar aos 180% de endividamento global teríamos que aguentar mais de quatro décadas de empobrecimento contínuo!

Como está bem de ver, é impossível, e portanto o discurso otimista de Vitor Gaspar aposta numa má notícia externa (a da própria insustentabilidade do sobre endividamento europeu e americano) para desdizer o que vem afirmando à boca cheia neste últimos dias. Portugal não poderá evitar a reestruturação, isto é o repúdio de uma parte da sua colossal dívida. Tal como na Grécia, quem tiver Bilhetes do Tesouro de Portugal será forçado, mais cedo ou mais tarde, a trocá-los por outros, valendo substancialmente menos.

Hu Jieming, Raft of the Medusa, 2002, Photo

Em 2002 o artista chinês Hu Jieming, de Xangai, que eu convidara a expor em Portugal, no já longínquo ano de 1999, realizou uma foto-montagem digital quase tão profética quanto o filme de Marco Ferreri. Parodiando a famosa pintura histórica de Théodore Géricault, Le Radeau de la Méduse, Jieming anuncia o impossível sonho da sociedade de consumo chinesa. Xangai crescia então exponencialmente. Desde 2008, porém, que a China tem alimentado uma bolha imobiliária gigantesca, na expectativa de conter o alastramento dramático do seu contingente de mais de quarenta milhões de desempregados. Quando rebentar, e já começou a rebentar, o sonho americano da China esfumar-se-à, deixando atrás de si cidades abandonadas e muitos náufragos :(

quinta-feira, março 15, 2012

Lóbi do novo aeroporto não desiste!

O Gaspar no bolso do BPN (perdão SLN), é isso? Se é, corram com o homem. Contabilistas é o que há mais por aí!

Um comboio bala na China viaja 664 milhas, de uma cidade costeira do sul até ao interior do país. O plano americano é ligar Tampa a Orlando. E em Portugal deveria ser ligar Lisboa a Paris, Lyon, Barcelona e Milão, passando por Madrid, e ainda Aveiro-Porto a Salamanca-Irún-França e à Galiza, até 2020.
(Foto: Shpherd Zhou/European Pressphoto Agency, in
"China Sees Growth Engine in a Web of Fast Trains"

Além do mais não se esqueçam deste pormenor importante: a Espanha é o nosso maior credor. Ou seja: poderá retaliar de duas maneiras: 
  1. exigindo mais ativos pela insolvência próxima do país; e 
  2. fechando a passagem ferroviária de Portugal para a Europa transpirenaica durante os próximos 50 anos, argumentando calmamente que a decisão de transformar Portugal num prolongamento das Berlengas, foi exclusivamente lusitana. 
Nessa altura, se o desastre vier a ocorrer, talvez, sob influência chinesa e de alguma ditadura militar entretanto instalada no terreno, já tenhamos adotado o mesmo código de tratamento punitivo que a China hoje aplica aos corruptos comprovados. É que a defesa dos interesses estratégicos de um país extravasam em muito o pormenor do perfil cultural dos regimes!

Para quem não entende todo este imbróglio, basta fixar o seguinte: se a prevista ligação ferroviária Poceirão-Caia for concretizada (como espero!) o embuste do Novo Aeroporto da Ota em Alcochete (eNAO-A) cairá por terra sem apelo nem agravo. O que é, sublinhe-se, o mais desejável, se nomeadamente pensarmos a gestão do sistema integrado de transportes, nesta fase de declínio das reservas petrolíferas, de uma forma racional e estratégica. O petróleo atingiu ontem um máximo histórico em euros!

Levar as companhias de baixo custo (Low Cost) para o Terminal 2 da Portela, situação que ocorrerá já no próximo dia 20 de Março, deixar as magníficas e novíssimas mangas do Terminal 1 para o famoso hub da TAP e outras companhias de bandeira, manter em stand-by o aérodromo militar do Montijo para expandir a Portela, nomeadamente nos segmentos Low Cost e Carga, e inaugurar enfim a mais do que pronta nova estação de Metro do Aeroporto, é o que se espera de um governo de crise e que afirma aos quatro ventos (falta demonstrar!) que não está no bolso dos execráveis rendeiros deste país (SLN, BES, Mellos, Mota-Engil, etc.) 

Quanto aos terrenos do aeroporto, prometidos ao senhor Stanley Ho, proponho uma alternativa: façam de Beja um grande centro internacional de lazer — Las Bejas! Seria, aliás, a única forma de recuperar os 38 milhões de euros lá enterrados pelos adiantados mentais do anterior governo.
Gaspar trava pressão de Bruxelas para avançar com TGV ‘low cost’ — Económico

A Comissão Europeia está a pressionar o Governo, mas receia que Vítor Gaspar enterre o projecto, mesmo na sua forma reduzida


 A Comissão Europeia está a pressionar o Governo português para apresentar rapidamente um plano de construção da linha de alta prestação de mercadorias e passageiros, que ligue os portos de Portugal a Espanha, aproveitando as verbas que o Fundo de Coesão tem disponíveis para este projecto, uma versão reduzida do antigo TGV.

A pressão está a ser exercida pela Direcção Geral de Política Regional e Transporte, onde um responsável ouvido pelo Diário Económico sublinha o facto de o País ter ainda "733 milhões de euros por atribuir a este corredor Sul-Oeste". Lisboa também tem sido pressionada por Madrid que, de acordo com a mesma fonte, "vai perder 133 milhões de euros" das redes transeuropeias (RTE) se Portugal não avançar com o projecto. As reuniões entre os responsáveis ibéricos têm sido inconclusivas, mas em Bruxelas espera-se um sinal na reunião europeia dos ministros dos Transportes, a 22 deste mês.

Em Bruxelas, este responsável justifica as reticências do Governo com o "problema político" do TGV ter sido uma "ideia forte do anterior Executivo" e com o facto de, neste momento, ser "politicamente difícil explicar aos cidadãos a aposta numa obra desta envergadura".  Económico, 15 mar 2012.

Se as manobras do lóbi criminoso do eNAO-A triunfassem isso significaria automaticamente o seguinte:
  1. A perda de mais de 800 milhões de euros de fundos comunitários não transferíveis e indemnizações, nomeadamente ao consórcio ELOS, de quase duzentos milhões euros, ou seja, e tudo somado, mais de mil milhões de euros perdidos, por um governo que se revelaria então, escandalosamente, como mais um boy dos rendeiros corruptos que levaram este país à bancarrota;
  2. A criação de zero novos postos de trabalho;
  3. A criação de zero novas empresas que poderiam, em Portugal, complementar e reforçar o já importantíssimo cluster ibérico associado ao transporte ferroviário;
  4. O encarecimento estrutural do nosso sistema de mobilidade e transportes, de pessoas e mercadorias, nomeadamente nos decisivos setores das exportações e da mobilidade de recursos humanos tecnologicamente avançada;
  5. A destruição do enorme potencial dos portos atlânticos portugueses, cuja dedicação ao transhipment seria virtualmente anulada pela barreira ferroviária que em breve a Espanha será para Portugal se não tornarmos a nossa rede ferroviária compatível com a rede ferroviária europeia em desenvolvimento (e que obviamente não usa a bitola ibérica);
  6. E finalmente, a perda completa de credibilidade de um país que rejeita utilizar recursos financeiros escassos —postos à sua disposição em nome de um projeto europeu integrado—, ainda por cima com graves prejuízos para o país vizinho, o qual, por via da irresponsabilidade extrema de uma corja de governantes corruptos portugueses, perderia também vultuosos fundos comunitários não transferíveis.
A lunática e mendicante imprensa portuguesa vai acordando lentamente para os problemas. Mas, enfim, mais vale tarde do que nunca.
Madrid e Bruxelas pressionam Lisboa a avançar com versão “Light” do TGVRTP
 
Outro responsável na Comissão Europeia pela área dos transportes reconhece que a escolha de avançar ou não com a versão reduzida do antigo TGV “ é uma decisão soberana do país” , mas adverte que “seria uma oportunidade falhada determinar o fim abrupto da linha de alta-velocidade”.

Segundo explicou ao Económico este responsável, “há uma boa razão económica “ para avançar com este projeto agora. Se os 733 milhões que estão ainda por atribuir ao corredor Sul-Oeste forem gastos até 2013 terão co-financiamento de 95 por cento e se o forem entre 2013 e 2015, a taxa de financiamento cai para 85 por cento.

A mesma fonte explica que a parcela nacional “pode ser facilmente compensada pela receita adicional que resultará de impostos e descontos para a segurança social dos trabalhadores das empresas de construção”.
O tempo está a esgotar-se
O tempo urge porque é preciso pelo menos um ano para o projeto passar por concursos públicos até avançar no terreno.

De acordo com este responsável, outro argumento a favor do projeto está no facto de, se Portugal não avançar com o projeto neste quadro financeiro (2007/2014) “terá mais dificuldade em obter fundos no próximo quadro de 2014/2020”. RTP, 15 Mar 2015.
 Última atualização: 15 mar 2012 11:57

quarta-feira, março 14, 2012

300 Pontes Vasco da Gama

Em 2009 Portugal já tinha acumulado uma dívida superior a 300 mil milhões de dólares. Quem paga?

O custo exagerado da Ponte Vasco da Gama (cerca de mil milhões de euros) tornou-se na medida-base do nosso escandaloso endividamento

Custos da Ponte Vasco da Gama (1998/ valores em euros)

Fundo de Coesão da U.E.: 319.000.000,00 (35,6%)
BEI: 299.000.000,00 (33,3%)
Portagens da Ponte 25 Abril: 50.000.000,00 (5,6%)
Acionistas, etc.: 229.000.000,00 (25,5%)

Custo Total da Ponte Vasco da Gama: 897.000.000, 00   

O memorando assinado pelos representantes de Portugal e pelo BCE, União Europeia e FMI, apontou um caminho: consolidação fiscal, abertura dos mercados protegidos à concorrência, e melhor redistribuição da riqueza, nomeadamente através dos mecanismos de transparência, supervisão e aplicação da equidade próprias dos regimes democráticos.

O governo foi rápido a esfolar a maioria dos contribuintes, conseguindo até a proeza de aumentar rapidamente a taxa de mortalidade do país! Já no que se refere à segunda metade do acordo que os portugueses sufragaram em mais umas eleições, realizadas em circunstâncias de crise agravada das contas públicas e privadas do país, o governo do Jota Passos de Coelho nada fez. Promete, vagueia, ausenta-se, mas a verdade é que os acontecimentos têm vindo a mostrar que o mesmo poder (isto é, o Bloco Central da Corrupção) que nos conduziu até à desgraça, escancarada desde 2008, persiste na mesma via, só que agora agravada pela falta que em breve será evidente de qualquer colete de salvação — seja o do crédito internacional privado, seja o dos resgates financeiros promovidos pela União Europeia em claro desespero de causa. Portugal não conseguirá atingir a meta do défice, nem mesmo roubando todo o QREN para martelar uma vez mais os balanços.

Os ingleses, que anunciaram um empréstimo público obrigacionista a 100 anos de vista (coisa igual só ocorreu naquele país para pagar a Primeira Guerra Mundial), decidiram também e ao mesmo tempo rever as suas PPPs. Não consta que algum político de pacotilha tenha ido ao parlamento assustar os deputados de sua majestade com o poder dos escritórios de advogados!

Os piratas da EDP, da Mota-Engil, do BES e do Grupo Mello, entre outros, cujas rendas escandalosas deveriam já ter sido drasticamente revistas e reduzidas, são a pedra de toque da sobrevivência do atual governo (ver quadro completo das PPP: Q1, Q2, e ler o Relatório). Se o que já transparece for o que parece, não dou mais de um ano de vida a esta coligação de fracos.

O contrato da Ponte Vasco da Gama, assinado em 1995 (governo de Aníbal Cavaco Silva, com Joaquim Ferreira do Amaral no cargo de ministro das obras públicas), tendo o seu custo atingido um total de 897 milhões de Euro — é disto mesmo um verdadeiro paradigma.

Os fundos comunitários representaram cerca de 35% do seu custo, e os comentários do Tribunal de Contas sobre o financiamento desta ponte foram deste quilate:

“Só pelo facto do Estado ter prolongado a concessão 7 anos as perdas foram superiores a 1047 milhões de euros”.

Fazendo contas chegar-se-à à conclusão de que esta infra-estrutura irá custar, no total, quase o triplo do preço original. Teria sido assim muito mais proveitoso para o Estado pagar a totalidade da obra, recorrendo a um empréstimo a 30 anos, deixando a amortização por conta das receitas de portagem portagem.

O TC é lapidar:
"Na verdade, afinal, o Estado concedente tornou-se no mais importante e decisivo financiador da concessão, sem a explorar" (Relatório completo/ PDF)
Mas o mais importante, que não está a ser discutido agora, a propósito da escandalosa tentativa governamental de entregar à Lusoponte receitas indevidas, por conta das portagens do passado mês de Agosto, que foram cobradas, ao contrário da "borla" habitual (paga por quem passa e por quem não passa na ponte), é outro assunto muito mais sério!

O Estado Português concedeu à Lusoponte, até às 24 horas do dia 24 de Março de 2030, o direito de opção na construção das novas travessias rodoviárias entre Vila Franca de Xira e Algés-Trafaria. Ou seja, o Estado não só financiou uma empresa privada, como lhe atribuiu o privilégio de rendeira monopolista de todas as pontes rodoviárias desde Vila Franca até ao mar!

Joaquim Ferreira do Amaral é desde 2008 um dos administradores não-executivos da Lusoponte, a qual foi entretanto adquirida pela Mota-Engil, presidida pelo "socialista" Jorge Coelho. Palavras para quê? São artistas portugueses e usam e abusam da ingenuidade dos indígenas que exploram e gozam alegremente.

segunda-feira, março 12, 2012

Pastel de Nata

Os pasteis do Álvaro? Um déjà vu!

Um verdadeiro pastel de nata, fabrico do bb Gourmet, Porto


‎Eu comprei um pastel de nata (juro!) em plena Xangai, numa rua pedonal, onde os chineses viam futebol numa pantalha gigante, tudo isto há mais de uma década — no ano 2000!

Há muito tempo, aliás, que sugiro aos portugueses que criem um McDonalds do bacalhau, isto é, um McCod! Basta substituir a carne picada pelo bacalhau picado, obviamente criado no mar alto como o salmão — hélas, la technologie ça se voie, non

E aos meus amigos espanhóis, que são muitos, venho recomendando, desde bem antes desta malfadada crise (1), a criação de uma cadeia mundial de pequenos hotéis dedicados à sesta, essa instituição de cultura, certamente inventada pelos árabes, mas ainda hoje religiosamente praticada por galegos, bascos, castelhanos, andaluzes e valencianos, e ainda pelos alentejanos que se prezam. Até lhes ofereci o nome para esta minha ideia luminosa: Siesta House!

Finalmente, uma outra ideia minha, não menos genial, passa por aproveitar o aeromoscas de Beja, um investimento de 38 milhões de euros, deserto de clientes, no vai-e-vem da futura Las Bejas — The Great Stanley Ho Adventure in Euroland. Não é preciso explicar mais nada, creio!

O tempo da chuva de euros terminou. Agora, ou temos ideias, ou empobrecemos. É esta a história dos pasteis de nata contada pelo nosso super ministro da economia, da indústria e do emprego. Só os burocratas, a corja partidária e os rendeiros do meu país não perceberam, ou não gostaram da moral que ela obviamente contém.


ACTUALIZAÇÃO (5 jun 2012) 


O Álvaro bem tentou avisar a malta, mas a malta anda a passo de caracol e olhar bovino... atrás da bola... e então, já está: 1300 milhões de comedores de pasteis de nata potenciais já têm fornecedor: a Julia e a cadeia Lillian Cakes de Xangai, que foi quem confecionou e serviu 1700 pasteis de nata num só dia no Pavilhão de Portugal da Expo de Xangai. Continuem à espera de São Bento e depois não se queixem!


NOTAS
  1. "Economists say euro crisis may not be over" (EurActiv)

sexta-feira, março 09, 2012

Chapéus há muitos!

A Gasparinho o que é de Gasparinho, e a Álvaro o que é de Álvaro!

É mais fácil ver o Gasparinho a claudicar do que o Álvaro
(Imagem de WHKITG)

O emigrante Álvaro resistiu como desde o início anunciei em contra-mão de toda imprensa de ouvido, da méRdia indigente e ainda da que está a soldo das ratazanas da energia, dos aeroportos que cantam, e das altas de Lisboa!
"O ministro Álvaro Santos Pereira está a fazer um bom trabalho à frente do ministério da Economia e não tenciono prescindir dele" — disse hoje o primeiro-ministro — Jornal de Negócios, 9 março 2012.
Imagine-se, por um momento, que Álvaro Santos Pereira saía. Como ficaria o governo de Passos Coelho depois de perder um ministro com tantas pastas (apesar de não ter dinheiro)? Quem iria para o seu lugar, sabendo que iria ocupar um ministério aparentemente indomável, sem dinheiro, com novos secretários impostos pelo primeiro-ministro, e subordinado aos humores gagos do agora recandidato a António de Oliveira Gaspar? Como seria a coisa vista de Bruxelas? Ou de Frankfurt? Ou de Berlim?! Em que situação ficariam Passos Coelho e Vítor Gaspar depois de atirarem ao chão, por medo, ou por fraqueza diante dos lóbis que se agitam como crocodilos num charco sem água, o membro mais importante do governo, depois deles próprios? Quem seria mais tarde responsabilizado pela recessão e pela falta de novas estratégias de desenvolvimento? Quem lidaria com as empresas? Quem aturaria os sindicatos? Eu sei que o PSD está cheio de trogloditas a salivar por um tacho onde só tenham que obedecer ao chefe, que é a situação mais confortável para ir roubando ou ajudando a roubar umas coisas! Mas não saberá já Passos Coelho aonde uma tal estupidez de condução política o conduziria em menos de seis meses? Esta tarde revelou, que sim!

Eu percebo, e já escrevi, que o ministro das finanças queira, e o país precise, de maior controlo no gasto dos dinheiros públicos, sobretudo quando há eleições autárquicas pela frente e a maioria dos municípios está tão ou mais insolvente que o resto do país. E que seja bom implementar uma vigilância financeira preventiva à aplicação dos fundos comunitários do QREN, e até uma reordenação das prioridades do esforço orçamental. Mas não é para estas coisas que servem os conselhos de ministros, o tribunal de contas, a unidade técnica de apoio orçamental, o conselho de finanças públicas recentemente criado e os tribunais convencionais? Aliás, se estes últimos funcionassem nestas coisas, como deveriam imperativamente funcionar, alguém crê que teríamos casos judiciais encalhados como o Freeport, ou outros que nem chegaram ainda a ser casos de polícia, mas que têm todo o aspecto de serem, como, por exemplo, o escândalo da requalificação dos edifícios escolares?

Para se salvar do desaire total Pedro Passos Coelho lá teve que inventar um "chapéu" para supervisionar a revisão e a aplicação do QREN. É caso para dizer: chapéus há muitos!

O pior da situação económica, social e financeira não passou. Encontra-se ainda à nossa frente, como evidencia a evolução do caso grego. Para todos os efeitos, a Grécia entrou em bancarrota parcial, e muitos investidores e sobretudo especuladores ficarão a arder, incluindo os bancos portugueses que andaram a jogar com a dívida grega soberana! Quem perdeu, e cria que iria ganhar o braço de ferro com a senhora Merkel, já começou a olhar para Portugal, Espanha e Itália, e a coçar a cabeça, a pensar nos descontos!

O nosso país dificilmente escapará de uma reestruturação da dívida pública, isto é, de uma bancarrota parcial, com incumprimento de obrigações nacionais e internacionais, e a troca de uma parte da sua dívida velha, insolvente, por novas promessas de pagamento.

Até que este pesadíssimo episódio ocorra, em 2013..., 2014..., 2016? (1) a nossa situação colectiva irá piorar e muito. Talvez por saber isto mesmo, o traste presidencial que elegemos tenha já começado a revelar o que até há pouco era matéria reservada das reuniões entre ele e o primeiro-ministro. Um verdadeiro sinal de desorientação e cobardia política inimagináveis. Está na altura de começarmos a pensar colectivamente na hipótese de impugnar este presidente, se o mesmo, entretanto, não tomar a boa iniciativa de renunciar ao cargo.

Vai ser necessário derrubar alguns Távoras, sob pena de cairmos no caos. Mas para isto o governo de Passos Coelho terá que evidenciar uma liderança independente e forte, mostrando claramente o que pode dar a cada um de nós, mas também o que ainda terá que cortar, para salvar o país de uma completa perda de independência. Tem que ser claro, e deixar-se de jogos políticos que só irritam mais uma população já muito irritada!

A força de que naturalmente precisa, naturalmente virá, se não brincar com os portugueses.

NOTAS
  1. Para o diário alemão Die Welt, segundo reportou a Lusa às 17:38 (ver notícia SIC-N das 21:01), a nova seringa do resgate português pode vir a ser necessária já no próximo Outono :(

Última atualização: 10 Mar 2012 21:53

terça-feira, março 06, 2012

António de Oliveira Gaspar (II)

O Gasparinho atacou de flanco e recuou. Espera agora nova oportunidade para roubar mais um pedaço do orçamento... ou demitir-se, em vez do Álvaro!

Wolfgang Schäuble, 2010 (Getty Images)

O fogo das ratazanas, apesar de suportado pela gigantesca operação de contra-informação montada com o apoio canino da indigente méRdia que temos, para já, falhou o Álvaro. Tiveram todos que comprar umas perdizes na mercearia para chegarem a casa com alguma história que contar. Sabemos, porém, que as perdizes de aviário não prestam.

A tentativa de colocar o ministro das finanças na posição de chefe de governo, congeminada pelas ratazanas que de renda em renda, e de roubo em roubo, arruinaram Portugal por mais de uma década, servida de mansinho pelo Paulinho das Feiras, envergando o disfarce empoado de primeiro ministro, esmurrou o nariz na parede do emigrante que nunca precisou de rendas para coisa nenhuma, que vai continuar a não precisar, e que portanto não treme como vara verde a cada telefonema do Espírito Santo.

O moço das finanças que adormece a pensar no mestre Salazar e acorda disposto a trair todos os colegas de governo em nome da sua irrisória ambição, não desmentiu o essencial, isto é, que não quer ver todo o governo a despacho no seu gabinete. Por sua vez, o jota que faz de primeiro ministro vai flutuando no mar encapelado da crise e vozeia vacuidade para encher diariamente o chouriço da comunicação social, com a única preocupação de não salpicar a ponta do sapato.

Diz o pasquim "i", seguro das suas minhocas geralmente bem informadas, que na conversa a dois entre Passos de Coelho e o ministro Álvaro Santos Pereira, este se despediu, e que o PM, ao fim de duas horas, lá convenceu o Álvaro, não só a não bater com a porta, porque tal decisão intempestiva iria levar água benta ao seminarista do PS (coitado deste), mas a esperar que, em tempo oportuno, fosse o próprio primeiro ministro a despedi-lo! Álvaro Santos Pereira teria ficado tão desorientado com as artes de sedução do jota Coelho que acabaria por abandonar a reunião de emergência, em contramão e sem prestar declarações à imprensa paga para o destruir.

Se bem me lembro, isto é o contrário do que todas as minhocas geralmente bem informadas disseram no dia anterior sobre o despedimento com justa causa do Álvaro!

O homem não tinha sido "demitido em directo" pelo jota Passos "quando o primeiro-ministro anunciou que a 'palavra' de Gaspar é que é a 'decisiva'?

Como bem lembrou um que foi ministro de Sócrates, o devaneio do jota primeiro-ministro é a própria negação do cargo que ocupa. Se um ministro das finanças, para além de fazer o que lhe compete (e não faz!), ou seja, aplicar o Memorando da Troika, não apenas no assalto aos rendimentos do trabalho, mas também à redução acordada das rendas criminosas das ratazanas que dominam económica e financeiramente este país, pretende ainda ditar o que cada colega de governo pode ou não pode fazer com a fatia orçamental que lhe foi atribuída em sede de Orçamento de Estado, depois de árduas discussões estratégicas e sindicais, o resultado de tamanho atrevimento é, tão simplesmente, a destruição do próprio Conselho de Ministros, isto é, do Governo, perante a indecisão inadmissível do primeiro-ministro face à sua óbvia desautorização institucional.

Já todos percebemos que o Gasparinho está enrascado ao défice. Mas se assim é, e é, que tal acabar com as rendas da EDP, Endesa e Ibertrola? Que tal parar a criminosa barragem do Tua? Que tal rever as rendas leoninas das PPPs? Que tal investigar o que andou a TAP manutenção a fazer estes anos todos no Brasil, para se ter tornado na principal ferida de onde escorre a hemorragia do grupo? Que tal reverter a venda inexplicável da PGA (do omnipresente BES) à TAP? Que tal levar a tribunal os geniais zarolhos que congeminaram aeroportos (Beja) e europarques (Vila da Feira) para moscas, a peso de ouro, cobrando fundos comunitários ao mesmo tempo que deixaram o vazio de iniciativas idiotas à nascença e as subsequentes dívidas para nós pagarmos agora, com reformas e salários abocanhados pelos usurários? Que tal recuperar a massa roubada do BPN? Que tal acabar com as fundações e institutos por quem aparentemente até o prosador Vasco Pulido Valente descobriu afinal morrer de amores? Que tal perguntar ao extraordinário Centro de Investigação da Fundação Champalimaud, construído graciosamente em terrenos de luxo municipais, o que fez até agora pelos doentes portugueses? Tanta coisa para investigar, suspender, poupar, e o rapaz que não convenceu (nem de perto, nem de longe!) Wolfgang Schäuble, só pensa raptar os fundos do QREN para martelar as contas do nosso trágico endividamento público!

Será que os grifos de Frankfurt irão lamber mais esta farsa grega, para melhor nos comer depois?

Se é o caso, é melhor que fique desde já claro o registo de que nem todos os portugueses querem isto. Eu não quero! Prefiro desde já que o putativo António Oliveira Gaspar se demita no fim do ano, quando ficar claro para o ministro alemão e para todos nós que não cumprimos, e que não cumprimos, em primeiro lugar, porque não cumprimos a palavra do Memorando em tudo o que pudesse incomodar as ratazanas desta cloaca à beira-mar exposta.

Dizem as pegas da comunicação social que o Gasparinho
  1. teme que o QREN vá pela sanita das autarquias abaixo, ingloriamente; 
  2. ou, numa versão igualmente de fantasia, mas diametralmente oposta, que os cinco mil milhões, metade dos quais já consignados, mas não executados, e a restante metade ainda por distribuir, não sejam bem aplicados e depressa, por forma a induzir o célebre crescimento de que as Finanças precisam para poderem ver aumentada a base tributária dos orçamentos do Estado, de 2012 e 2013;
  3. ou ainda que desejaria apenas criar mecanismos suplementares de supervisão financeira da aplicação dos fundos comunitários, de modo a travar excessos e cunhas, o que seria razoável imaginar como próprio dum ministro das finanças.
No entanto, a verdade parece esconder-se noutro lugar:

— o que este ministro das finanças dum país insolvente quer é esconder simultaneamente o défice, o desemprego e a recessão. Como? Pois fazendo o mesmo que o seu antecessor fez:
  • colocar parte dos desempregados a estudar, retirando-os das estatísticas do colapso do emprego,
  • colocar parte dos desempregados em empresas sem acesso ao crédito, retirando mais alguns milhares de desempregados das estatísticas negras, ao mesmo tempo que mitiga os colapsos gémeos do consumo e do PIB,
  • e finalmente satisfazer o Bloco Central do Betão, dando largas aos seus desvarios aeroportuários e rodoviários, trocando o necessário mas sistematicamente amaldiçoado "TGV" pelo embuste da Ota em Alcochete, mais a célebre cidade aeroportuária da Palhota, e a nova ponte entre o Barreiro e o Montijo, e as novas barragens do Tua, do Sabor, do Tâmega, e por aí adiante, e os prémios Pritzker alinhados em bicha indiana atrás do Souto Moura, e a Alta de Lisboa finalmente entregue ao Stanley Ho, e a a plataforma logística do Poceirão entregue à Mota-Engil, que também é dona da Lusoponte, a cobrar direitos de passagem entre bitolas ferroviárias, e os nuclearistas, já agora, porque não, a plantar centrais nucleares na porra de Trás-os-Montes, pois do que aquela malta gosta é de expropriações e de dirigir agências de desenvolvimento a soldo da EDP e de todos os cabotinos que os levem a viajar e comer umas lagostas, e já agora umas gajas, por aí!
Eu admiro a pachorra do Álvaro!

Bem sei que no Canadá, embora com outro estilo, as coisas também não são melhores. Mas enfim, quem teve fibra para emigrar também tem fibra para lutar. E neste caso, a luta é a de sempre: entre a honestidade intelectual e a razão estratégica, de um lado, e as ratazanas do outro. Para já, Álvaro resiste à caricatura de Salazar que se senta à mesma mesa de governo. Não se demite. O jota Coelho que o faça, e justifique depois porque deu tanto que fazer ao ministro da economia para demiti-lo à primeira contrariedade manifestada pelas ratazanas do regime!

Ou então, porque não explicar ao Gasparinho, que ele, afinal, não passa dum contabilista?


POST SCRIPTUM
Merkel preocupada com dívida portuguesa

De acordo com a Reuters, que citou participantes no encontro entre Merkel e deputados do seu partido, a CDU, a chanceler alemã deu conta de algum alívio quanto à evolução do mercado da dívida pública espanhola e italiana, apesar das preocupações com a evolução das taxas de rendibilidade ('yields') da dívida portuguesa.

"Os prémios de risco de Portugal são uma preocupação" terá dito Merkel, de acordo com os participantes na reunião, citados pela Reuters. (Negócios online, 7 mar 2012.)

Tradução dirigida ao senhor Passos de Coelho e ao senhor António de Oliveira Gaspar:

Os ativos ainda disponíveis na Lusitânia terão que ir direitinhos para a Alemanha e para a Espanha, principais credores de Portugal, como garantia do resgate em curso. Nada de mais chinesices, nem carnavais tardios, nem moambas! Ou então...

Quer dizer, ou o Álvaro consegue dar cabo do ascendente que a matilha de rendeiros que arruinou o país exerce sobre o primeiro ministro e o seu contabilista-mor, ou Portugal não se livra de uma sauna grega!

As novas redes ferroviárias têm que avançar e já, e a TAP tem que fazer parte de uma solução europeia inteligente, sem mais concessões a esquemas de drenagem financeira da poupança europeia, canalizada, por exemplo, para os prejuízo brasileiros da TAP através da indecorosa Parpública, que por sua vez chupa impostos não apenas dos indígenas lusitanos, mas também de toda a Eurolândia, a começar nos bolsos alemães! Aquele olhar infinito de Wolfgang Schauble é um manancial de significados por descobrir!

Última atualização: 7 mar 2012 16:14

segunda-feira, março 05, 2012

António de Oliveira Gaspar

E Passos de Coelho, quando é que vai a despacho com o Gasparinho?

Maquiavel, uma leitura recomendada a Álvaro Santos Pereira

O Gasparinho continua borrado de medo desde a última conversa com o todo poderoso ministro alemão das finanças. O olhar azul de Wolfgang Schäuble, buscando um inatingível kantiano qualquer, depois do Gasparinho insistir que estava a fazer os trabalhos de casa (roubando os fundos de pensões da falida banca, claro está!), não o deixa dormir. Deste pesadelo que não desaparece, até tentar a solução de Salazar, isto é, colocar todos os ministros de joelhos e a despacho seu, foi um passo.

Esqueceu-se, no entanto, dum pormenor: o primeiro ministro não é ele, ainda que o que é não passe dum jota que nunca trabalhou na vida e que dificilmente chegará ao fim do mandato. Estará o alucinado Gasparinho a preparar-se para o substituir? Mas isso só com um golpe de estado —e militar— homem!

Depois da reunião entre Ana Pastor (Espanha) e Álvaro Santos Pereira (Portugal) as ratazanas do esgoto lusitano agitaram-se como nunca e, pela mente sempre conspirativa do Paulinho das Feiras (ele lá sabe o que o seu PP deve ao BES) temos o governo do jota Passos de Coelho em pleno Carnaval fora de horas (TSF1 e TSF 2), com os bombos da méRdia indigente que temos a rufar pandeiretas de esquizofrenia xenófoba até à náusea. Uma tal Ana Sá Lopes, do pasquim "i", que confunde a encomenda com a "opinião pública", é particularmente ressabiada, para a idade que aparenta, na sua sanha contra o emigrante Álvaro, como se parte do que almoça não fosse fruto do trabalho de gente como o emigrante Álvaro.

O dilema com que o país se depara é este: não temos nenhuma possibilidade de pagar o que devemos, nem que os crápulas do actual governo matem os velhos todos, arrasem por completo a classe média, e em cima disto expulsem do país todos os Álvaros que gostam, sabem e querem trabalhar.

O contabilista Gaspar descobriu uma nova receita extraordinária (chama-se QREN) para disfarçar o que não tem disfarce possível, isto é, que sem um novo resgate europeu a insolvência declarada de Portugal ocorrerá já em 2012, ou o mais tardar, em 2013. Desta vez, nem a China, e muito menos Angola, ou o Brasil, nos salvarão de uma perigosa e catastrófica aproximação do calvário da Grécia.

É aliás neste cenário que Cavaco aposta e para o qual se vem preparando através de sucessivos avisos ao governo e do namoro descarado com o PS. No fundo, o traste de Belém pensa assim: para salvar a sua pele, e evitar um golpe de estado militar, ou uma revolução social fora dos partidos, terá que se antecipar e preparar um governo de emergência nacional, com um primeiro ministro de sua confiança e muito obediente, até que a tempestade passe. E se a tempestade não passar, ou se agravar durante o seu mandato presidencial, um tal governo resultante do colapso do vigente daria enfim substância à suspensão da democracia de que um dia falou Manuela Ferreira Leite — para escândalo de tantos...

O "povo" pedirá então o fim da pouca-vergonha e o fim do império das ratazanas (dos que drenam a poupança nacional, seja através de empresas de manutenção aeronáutica que ninguém investiga, seja através de rendas criminosas, na energia, nas autoestradas, nas pontes, nas barragens e nos hospitais público-empresariais). Cavaco, que bem sabe o que sucedeu há 120 anos atrás, quando o país entrou em bancarrota e foi humilhado até aos ossos pelos credores, tentará evitar o pior, antecipando-se. O contabilista Gasparinho tem pois um sério rival pela frente!

O cavaquismo tardio planeou a nossa euforia económica e felicidade cultural apostando num cenário macro-económico assente em futuros barris de petróleo a custarem, em 2015, 28 dólares!

Tudo assentou em Portugal no automóvel individual e na rodovia. Desta desgraça não nos livraremos enquanto não houver uma revolução de racionalidade, nem que tenha que ser autoritária.

Autoestradas, pontes e aeroportos, barragens inúteis e assassinas, estádios impagáveis e rotundas estúpidas, seriam o mato ideal para engordar as ratazanas e os populistas de serviço. Acontece que o dito ouro negro ultrapassou as 100 notas verdes e tudo indica que não só não voltará a ser barato, como será cada vez mais caro. Portugal, dada a ignara irresponsabilidade de economistas, engenheiros e políticos (e a sempre avidez das ratazanas), precisa de 120 milhões de barris de petróleo por ano para manter o seu imprevidente e inviável estilo de vida. Na previsão irrealista do último governo de Cavaco Silva e dos que lhe seguiram as pisadas, o país deveria estar a gastar em 2015 qualquer coisa como 3.360.000.000 de dólares em importações de petróleo. No entanto, a verdade dos factos em 2012 andará certamente acima dos $12.000.000.000!

Os preços, especulativos ou não, dos recursos energéticos, minerais e alimentares acompanham o Pico do Petróleo. Gráfico do BoJ - Recent Surge in Global Commodity Prices, 2011.

O impacto desta inflação imparável sobre as restantes matérias primas, energéticas, minerais e alimentares, de que dependemos, é óbvio. Café, trigo, milho, soja, alumínio, níquel, chumbo, zinco e cobre viram os seus preços subir de 34% a 564%, entre 2003 e 2008. A partir do momento em que endividamento a custo zero, obtido através do esmagamento do valor do dinheiro e das poupanças (redução sucessiva das taxas de juro) e ainda por intermédio de processos de especulação com as dívidas privadas e soberanas, chegou ao fim, o colapso das economias, mais do que do sistema financeiro (pois este não passa de uma engenharia de sonhos e pesadelos, como a gestão do Gasparinho vem evidenciando à saciedade), tornou-se inevitável. Sem refundar as economias em novos pressupostos energéticos, o que é muito diferente do que gritar pelo "crescimento", como faz o seminarista inSeguro do PS, não iremos a parte alguma.

Não é só o transporte rodoviário, dominante em Portugal, que é caro, mas também o que lá vai dentro, quase tudo importado!

Se queremos recuperar a dignidade e a independência, uma vez mais perdidas, teremos que voltar a andar a pé, de bicicleta e em transportes coletivos movidos a eletricidade: elétricos, trolleys e comboios —internacionais, interurbanos, suburbanos e urbanos. Teremos que baixar drasticamente a intensidade energética da nossa economia, que é uma das mais elevadas, se não a mais elevada da União Europeia. Teremos que voltar costas ao subúrbio erguido com base no petróleo barato, para engorda e gáudio das ratazanas. Teremos que reforçar a auto-organização democrática como nunca o fizemos, dispensando em muitos casos, sobretudo localmente, nos negócios e no trabalho do dia a dia, a presença ruinosa e corrupta dos governos e dos partidos. Temos que rejeitar em uníssono o terrorismo fiscal!

Ao contrário do que agora possamos crer, só nos livraremos da escravatura e do assassínio económico de dezenas de milhar de portugueses, se substituirmos a insolvente, desmiolada e corrupta democracia que deixámos medrar nos últimos trinta anos, por uma democracia literal, transparente, responsável e unida em volta de uma visão estratégica para Portugal.

O populismo democrático que permitiu a criação duma vasta casta de burocratas de estado e de partido, cujos direitos estão sempre em primeiro lugar, levou-nos à insolvência e à humilhação de vermos Portugal transformado num protetorado de Bruxelas e Frankfurt, mendicante e sem futuro.

Acabará o país? Não creio. A crise mundial dará algum espaço à nossa independência.

Mas como perdemos boa parte dos nossos graus de liberdade ao longo dos últimos vinte anos, é preciso voltar a conquistá-los um a um! Desde logo, e em primeiro lugar, levando por diante uma verdadeira revolução no interior do nosso regime democrático. Algo que nenhuma revisão constitucional poderá conseguir, por estar à nascença marcada pela endogamia e por uma lógica de sobrevivência do excesso de burocracia que é urgente eliminar.

Precisamos de uma democracia com menos Estado e com menos poder partidário. Outras instâncias mais democráticas terão que nascer da ruína já evidente do atual regime. Eu, se fosse o Álvaro, aproveitava para ler O Príncipe, até quinta-feira que vem, e tomaria uma posição filosófica sobre a matilha que ladra em seu redor. Demitir-se não é opção. O jota disfarçado de primeiro-ministro que assuma a liderança do governo, se quiser, ou que a entregue ao Gasparinho, se não tiver coragem para enfrentar os dias difíceis que aí vêm!


POST SCRIPTUM: a rápida sucessão de acontecimentos que congregaram uma autêntica frente golpista contra o ministro da economia ocorreu logo depois da reunião entre este e a ministra espanhola Ana Pastor, onde foi reiterada, pela terceira ou quarta vez, a decisão de construir a linha ferroviária de alta velocidade entre Lisboa e Madrid, e em geral dar seguimento à ligação estratégica de Portugal à nova rede ferroviária europeia de Alta Velocidade, para passageiros, e completa interoperabilidade no transporte de mercadorias — em linha com o PET e com a própria decisão chinesa de fazer chegar os seus comboios AV até Londres! Como há muito aqui se escreveu, esta ligação ferroviária absolutamente necessária, como as que terão que ligar o centro (Aveiro-Coimbra) e o norte (AMP) do país à Galiza, ao resto da Espanha e à Europa atlântica e mediterrânica, mata o embuste do NAL da Ota em Alcochete — uma enormidade do quilate daquele que apressou o olímpico colapso da Grécia! Ora é precisamente por conhecerem este dado incontroverso, que os lobistas do novo aeroporto e da nova cidade aeroportuária da Ota em Alcochete (SLN/Fantasia, BES, Stanley Ho, Roquete, e a rapaziada ávida de almoços -- do genial descobridor do aeromoscas de Beja, ao não menos genial bastonário dos engenheiros do betão, passando por invertebrados de menor porte) fará tudo por tudo para destruir o Álvaro. Se o conseguirem, o país apodrecerá ainda mais depressa, e o coice que daí vier será então muito mais violento. A ideia de que o Português Suave é mesmo um morcão sem emenda (estou no Porto ;) pode revelar-se uma grande mentira histórica, como tantas outras.

Última atualização: 5 mar 201222:53