sábado, fevereiro 26, 2011

O lóbi desesperado da EDP

Camilo Lourenço: “Portugal precisa, rapidamente, de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.” Negócios online, 25-02-2011.


Inocentemente ou não, Camilo Lourenço está a fazer um frete mediático a António Mexia, por duas razões principais:
  1. porque a nossa principal dependência energética não é suprível pela energia eléctrica (as barragens assassinas de Sócrates-Mexia não substituem nem nunca substituirão de forma significativa o petróleo, nem o gás natural — mas aumentarão a eutrofização das albufeiras, afastarão os turistas dos vales do Douro, Tua, Sabor, e Côa, ameaçarão a segurança da cidade de Amarante e, antes de mais, custarão uma pipa de massa aos consumidores indefesos, precisamente, em barris de petróleo!)
  2. porque aquilo que o cabotino Mexia quer é aumentar, ainda que seja para accionista burro e investidor incauto verem, os activos de uma empresa sobre endividada, da qual faz parte uma famosa EDP Renováveis, em queda catastrófica, que acaba de anunciar que já não distribui os dividendos de 2010, e cujas acções caminham a todo o gás para o preço da bica (1).
Tudo isto é grave, sobretudo se tivermos presente que o objectivo dissimulado do cabotino Mexia já só pode ser um: evitar o desaparecimento da empresa antes de a mesma poder ser tomada de assalto por uma grande energética espanhola, francesa, alemã, brasileira, angolana ou chinesa. É a síndroma TAP que move o cabotino Mexia, e as suas antenas mediáticas!


REFERÊNCIA

Para ajudar a compreender este problema, sobre o qual temos escrito frequentemente, transcrevo este elucidativo texto de João Joanaz de Melo.

Há século e meio que em Portugal as políticas de obras públicas megalómanas têm sido entendidas como paradigma de desenvolvimento.
Por João Joanaz de Melo, Professor de Engenharia do Ambiente na Universidade Nova de Lisboa.

No sector energético, apesar das belas intenções pela eficiência energética, o esforço é dirigido para os empreendimentos caros e de eficácia duvidosa: barragens, carro elétrico, micro-geração, TGV, com investimentos previstos na próxima década orçando em dezenas de milhar de milhões de euros – o investimento do Estado em eficiência energética mal chegará a 150 M€ no mesmo horizonte.

Os defensores do Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH) tentam adquirir uma patina de respeitabilidade invocando motivações ambientais. Alegadamente, estes empreendimentos agressivamente promovidos pelo Governo e pelas grandes empresas eléctricas (EDP, Iberdrola e, em menor escala, Endesa) destinam-se a reduzir a dependência energética, diminuir a emissão de gases de efeito de estufa e permitir armazenagem de energia eólica recorrendo à bombagem. Objectivos meritórios, mas infelizmente falsos.

As motivações ambientais seriam para rir se não fossem para chorar. As 9 grandes barragens recentemente aprovadas (7 do PNBEPH, mais Baixo Sabor e Ribeiradio) são verdadeiros crimes ambientais, preparando-se para destruir as paisagens maravilhosas e habitats raros dos últimos grandes rios selvagens de Portugal. Será também destruída a identidade, a cultura e os meios de desenvolvimento local, de que a condenada linha do Tua é um exemplo desolador. O emprego gerado nas grandes barragens é na ordem de 2 a 10 vezes inferior, por euro investido, a alternativas como o turismo rural, a requalificação urbana ou a eficiência energética.

Em termos energéticos, estas 9 barragens representarão apenas 1% do consumo de energia do País, gerando 2 TWh/ano de electricidade. O investimento requerido será oficialmente de 3 600 M€. Somando a isto os lucros das grandes eléctricas e os encargos financeiros, os cidadãos portugueses irão pagar pelo menos o dobro, durante décadas, na tarifa ou nos impostos – uma dívida brutal sobre os nossos filhos e netos (as concessões vão até 75 anos).

A mesma quantidade de energia poderia ser poupada com investimentos na ordem de 360 M€ (10 vezes menores), em medidas de eficiência energética com retorno até 3 anos, com enorme potencial de receitas para as famílias e para as pequenas empresas de gestão da energia e de requalificação urbana; e com muito mais eficácia na redução da dependência externa e de emissões de GEE.

Quanto à bombagem hidroeléctrica, o PNBEPH diz que precisamos idealmente de 2000 MW. Ora, entre os sistemas já funcionais e os projectos em curso, só em barragens já existentes, teremos a curto prazo 2507 MW instalados.

Não se vislumbram objectivos ambientais ou sociais para a febre das barragens: apenas o favorecimento das grandes empresas eléctricas e construtoras, e a captação de receitas extraordinárias para o Orçamento de Estado, atirando com os custos para as gerações futuras. Já passámos a fase de vender os anéis – agora querem mesmo cortar-nos os dedos.

NOTAS
  1. Foi seguramente este o primeiro blogue a chamar a atenção para o endividamento estúpido da EDP, e para as fragilidades e manobras de propaganda barata do seu cabotino líder.

    O “BPI: ‘EDP pode ser uma armadilha de valor’” — Negócios Online, 04 Março 2011) vem finalmente alertar os especuladores, o estado português e os partidos, para a bomba-relógio que o endividamento aventureiro da principal energética nacional representa para a sua autonomia e para a eficiência, sustentabilidade e preço da energia de que precisamos como de pão para a boca.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Portugal estatístico

Oito curvas fatais

Recebi dum amigo o link para este post de Alvaro Santos Pereira, professor em Vancouver, e autor do blogue Desmitos. São sete, aliás oito gráficos fatais, que curiosamente não encontramos em nenhum documento oficial. Nem na Pordata parece haver a noção prática de que todos precisamos de conhecer os números básicos da nossa economia sem precisar de uma hora para os encontrar. Tentem, por exemplo, ler o Relatório do Orçamento de Estado, e digam-me em que página aparece escrito o valor em euros do PIB português em 2008, 2009 e 2010. Ofereço uma assinatura grátis deste blogue a quem mo disser!

Em síntese, os dados são estes (ver mapas nesta página e nesta — cortesia de Alvaro Santos Pereira):
  1. A média do crescimento económico é a pior dos últimos 90 anos
  2. A dívida pública é a maior dos últimos 160 anos
  3. A dívida externa é, no mínimo, a maior dos últimos 120 anos (desde que o país declarou uma bancarrota parcial em 1892)
  4. O desemprego é, no mínimo, o maior dos últimos 80 anos. Temos 610 mil desempregados, dos quais 300 mil são de longa duração
  5. Voltámos à divergência económica com a Europa, após décadas de convergência
  6. Vivemos actualmente a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos
  7. Temos a taxa de poupança mais baixa dos últimos 50 anos
  8. A dívida externa líquida tem vindo praticamente a duplicar de valor de ano para ano desde 1996 (de 10% do PIB em 1996, para um pico de 112% do PIB em 2010)

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Eficiência energética

Como escrevemos e estava escrito nos astros...
Os Trolleybus e os Eléctricos não precisam de toneladas de pilhas para andar 100Km!

EDP Renováveis - Pode a casa-mãe tirar a Renováveis da bolsa?

Jorge González Sodornil, analista do Sabadell, diz: "não podemos descartar um potencial 'buyout' da EDP Renováveis [por parte da EDP]". A empresa portuguesa "está a negociar bem abaixo do valor dos seus activos, o que supõe que a EDP pode comprá-la abaixo do custo de investimento", refere ao Negócios.

Com a explosão da bolha das dívidas soberanas, a reconversão energética alimentada por impostos está condenada. O caminho já não é produzir mais, ainda que diferente, mas produzir menos, desperdiçar menos, e consumir racionalmente. É inevitável uma concentração europeia das empresas estratégicas, sob forte supervisão de Bruxelas. A EDP, tal como muitas outras empresas que viveram à sombra do endividamento bolsista especulativo e de subsídios governamentais oportunistas, está condenada. A propaganda e os road shows de António Mexia parecem-se cada vez mais com as deambulações frenéticas do peripatético Sócrates. Dois em um para despachar quanto antes!

E já agora sobre o carro eléctrico: já imaginaram uma bicha de carros junto dum desses carregadores de baterias com que o governo mitómano de Sócrates salpicou o país, para telejornal obediente ver?

Autocarro a baterias?! Esta gente desmiolada não sabe o que é um Trolleybus? Não se lembram deles no Porto e em Coimbra? E que tal por ou repor as linhas de Eléctrico e de Trolley nas principais urbes do país: Grande Lisboa, Grande Porto, Coimbra, Setúbal e Braga? E que tal criar corredores para bicicletas em todas estas cidades? E que tal criar uma linha de crédito para compra de bicicletas urbanas? As nossas universidades deixaram de pensar livremente, e pensam, pelos vistos, o que lhe pagam para "estudar" e "pensar"!

ÚLTIMA HORA

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Sade revisitado



Portugal está cada vez mais perto do Egipto, de Marrocos, e da Líbia. Já ultrapassámos a Grécia na trapaça estatística sistemática. Temos, inesperada e inexplicavelmente, um ministro da diplomacia com receio de condenar os ditadores cleptocratas e sanguinários do norte de África. E temos agora, incrédulos e de olhos esbugalhados, a evidência do submundo prisional a cargo dum pedreiro-livre imbecil, assessorado por um intelectual orgânico que, como é timbre dos estalinistas renegados, por baixo do verniz conserva um anti-humanismo intelectual que, à menor oportunidade prática, revela toda a sua miséria mental e falta de princípios.

Espero que o imprestável Cavaco perceba de uma vez por todas que a sua posse como presidente da república repetente não vai ser nem um mar de rosas, nem o povo lhe tolerará a indiferença ou o calculismo hipócrita.

E espero que o próximo dia 12 de Março seja o início do fim de um regime que já nada mais pode provar em defesa da sua extraordinária irresponsabilidade, corrupção e autoritarismo dissimulado.

Precisamos mesmo doutra República, e doutra Democracia!

NOTÍCIA ACTUALIZADA pelo Público (24-02-211).
COMENTÁRIO: Será legal? Não é humano, com certeza. E pelo aspecto premeditado e experimental da acção, mais parece um aviso à sociedade... O ministro e os demais responsáveis deverão responder por este acto de intimidação colectiva!

terça-feira, fevereiro 22, 2011

TAP no fim da pista

Previsível e doloroso
os responsáveis devem ser responsabilizados!


Companhia reduz salários já este mês e corta mais de 15% na despesa global.
O Governo autorizou a TAP a fazer incidir os cortes salariais maioritariamente nos subsídios de férias e de Natal e ainda nas componentes variáveis da remuneração, soube o DN. DN online.

A TAP tornou-se uma companhia sem futuro. Tudo o resto é doloroso e triste. Só tem uma saída digna: reestruturar-se, i.e. despedir, indemnizando uns milhares de funcionários, e depois integrar-se na Lufhtansa — e não na IAG — International Consolidated Airlines, a companhia resultante da fusão entre a Ibéria e a British Airways, a caminho de nova fusão, desta vez com a American Airlines (ver notícia em Jornal de Negócios).

Os dados estão lançados, e dizem respeito a todo o sector de transportes, que Mário Lino e Ana Paula Vitorino, sob a batuta do intratável Sócrates, espécie de Roberto sempre-em-pé da tríade de Macau, conduziram a uma evitável ruína. A saber:

  • A TAP vem perdendo, dia-a-dia, posição nos quatro principais aeroportos nacionais (Portela, Sá Carneiro, Faro e Funchal) para a Ryanair, easyJet e demais companhias de voo de baixo custo (Low Cost).
  • O abuso de posição dominante que a TAP tem nas ligações entre a Europa e o Brasil já foi contestada pela União Europeia e tem os dias contados (a nova companhia aérea resultante da fusão entre a Ibéria e a British Airways, IAG, começou já a atacar este monopólio irregular).
  • A rota mais lucrativa da TAP —Lisboa-Luanda— não chega, obviamente, para justificar, e muito menos tirar do vermelho, uma companhia aérea que é uma das muitas empresas públicas que tem alimentado a nomenclatura demo-populista e corrupta do regime.
  • Pretender meter a TAP num saco de privatizações três-em-um, fazendo desta companhia falida e da lucrativa ANA um presente para quem ganhasse o futuro contrato de construção/exploração do improvável Novo Aeroporto da Ota em Alcochete, além de ser uma conspiração criminosa do Bloco Central, dificilmente convencerá qualquer investidor com juízo. O Grupo Mello já começou a posicionar-se para sacar o que lhe parece ser mais um negócio chulo, muito característico das economias que levaram os PIGS à situação dramática em que se encontram. Mas eu dou-lhe um conselho à borla: não se meta nisso, e invista na ferrovia!
  • Privatizar um monopólio de Estado como a ANA, que garante a prestação de serviço público a todo o país, substituindo-o por um monopólio privado, além de imbecil e criminoso, teria como consequência inevitável prejudicar seriamente o serviço público nos aeroportos deficitários — a maioria dos que estão ao serviço!
  • A prioridade absoluta em matéria de transportes é a diminuição da factura energética dos mesmos, e isto só se consegue de duas maneiras: 1) pondo de pé um Plano de Mobilidade e Transporte de Baixa Intensidade Energética, Ecológico e Sustentável Para Pessoas e Mercadorias; e 2) dando máxima prioridade ao transporte colectivo. A destruição em curso da rede ferroviária portuguesa é, portanto, um crime. Até a Linha do Norte corre risco de colapso e de descarrilamentos, em particular nos troços Ovar-Gaia e Coimbra-Alfarelos!
  • O CDS e o PSD berram todos os dias contra o TGV, mas nada dizem dos 50-60 mil milhões que querem sacar dos nossos impostos, sob a forma de maior endividamento (claro!), para o Novo Aeroporto da Ota em Alcochete, para as ruinosas PPPs das autoestradas e hospitais, para as inúteis e assassinas barragens que apenas servem para aumentar artificialmente os activos da sobre endividada EDP, para a alfândega das bitolas que a Mota-Engil vai herdar de Sócrates no Poceirão, para o obscuro mundo das águas municipais, e para a enviesada requalificação do Parque Escolar.
  • Com a escalada inflacionista do petróleo tudo começará a ficar mais caro: o pão, o café, o algodão. Mas o que verdadeiramente poderá apressar o colapso das economias mais fracas e dependentes, como a nossa, são três eventos ao virar da esquina: a subida vertiginosa dos preços dos combustíveis; a subida das taxas de juro do BCE; e o encerramento do mercado da dívida soberana para países financeiramente destruídos, como Portugal.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

FMI

Geração à Rasca têm melhores antecedentes do que Vicente Jorge Silva pensa...



Vale a pena ouvir este extraordinário libelo de um artista contra a miséria democrática e o pântano cultural a que uma certa corja financeira e partidária conduziu o país. José Mário Branco está muito mais próximo das gerações “rasca” (X) e “à rasca” (Y) do que muita gente do tempo de Vicente Jorge Silva e da minha (um pouco mais nova) geração — cujo conforto herdado sem esforço de uma ditadura podre, mas poupada e com poupanças, se vê agora exposto como um acto de dilapidação histórica de recursos e oportunidades. Andámos distraídos. Confiámos demasiado em economistas de bolso e penduras de toda a espécie. O resultado está à vista. Muitos de nós fizemos asneira sem intenção dolosa, e até sem proveito próprio, mas a verdade é que deixámos o país caminhar para a ruína. Mais vale acordar agora deste pesadelo, e fazer o que tem que ser feito, do que permanecermos na cobardia porreira, irresponsável e oportunista.

A entrada do Fundo Europeu de Estabilização Financeira, do BCE e do FMI em Portugal é não só inevitável, como necessária, pois doutro modo, o saque actualmente em curso por parte das ratazanas que correm pelos corredores, prateleiras e fundos ainda fornecidos deste moribundo regime demo-burocrático, será mais catastrófico para todos nós e para os nossos filhos, netos e bisnetos. Teremos pela frente, no mínimo, cem anos de vergonha e solidão.

Ainda hoje li no Expresso um alarve da EDP ameaçar o país a propósito dos devaneios eólicos da empresa que o cabotino Mexia conduziu ao sobre endividamento (um passivo de mais de 29 mil milhões de euros).

A EDP, apesar deste descomunal endividamento, ainda vale alguma coisa, ao contrário da TAP, e é por isso que cairá um dia destes no papo de uma grande energética espanhola, alemã ou chinesa. É o preço de ter embarcado num processo de expansão encostado à especulação bolsista e a uma das várias tetas, hoje secas, do orçamento do Estado português. É o preço de se ter atravessado numa tecnologia que vive à conta dos impostos de dois países igualmente falidos: Portugal e os Estados Unidos. É o preço de não ter percebido a tempo que o mercado de emissões de CO2 equivalente não passou afinal de uma tentativa falhada de criar uma nova bolha especulativa que sucedesse à bolha imobiliária mundial e de alguma forma atenuasse o efeito devastador, e de duração desconhecida, do buraco negro dos derivados financeiros (cujo valor nocional supera em mais de dez vezes o PIB mundial).

Pois bem, a EDP, tal como a Mota-Engil, o BES e o Grupo Mello, entre outros, continuam a berrar pelas tetas orçamentais, mais do que todos os sindicatos juntos. Querem dinheiro! E os sindicatos? E nós? Vamos deixar que o capitalismo imbecil e clientelar, que não há meio de aprender que o colonialismo e a chulice autoritária acabaram, prossiga a sua tarefa assassina e suicida de liquidar Portugal?!

domingo, fevereiro 20, 2011

This is America

Bem prega frei Tomás...

Ex-analista da CIA, Ray McGovern, preso e espancado quando protestava em silêncio contra o belicismo americano, no preciso momento em que Hillary Clinton saudava a rebelião democrática egípcia. Os dirigentes americanos deverão temer pelo dia em que o povo americano perder também a sua paciência!



Hypocrisy has reached a new level as Secretary of State Hillary Clinton talked at George Washington University on Wednesday, disapproving governments that arrest protesters, not allowing freedom of speech. Former C.I.A. analyst Ray McGovern was taken from the audience by two security guards, beaten and left bleeding in jail. His crime? Standing silently with his back turned to Clinton, wearing a t-shirt that said “Veterans for Peace”. Officially it was “Disorderly conduct”. US News Source, 18-02-2011.

sábado, fevereiro 19, 2011

Outra classe política

Adeus betão

Paulo Portas: dois pesos e duas medidas

Portas acusa Governo e PSD de "fingirem" avaliação do TGV

Paulo Portas acusa o Governo e o PSD de só reavaliarem o TGV no papel, já que na prática o projecto continua a andar. "Há um fingimento. Oficialmente, o Governo diz que o TGV está para reavaliação, mas na prática, nos contratos e nas portarias, está a avançar com toda a velocidade", disse — Público, 19-02-2011.

Ajustes directos custaram 3,8 mil milhões de euros em 201

(…) em 2010 foram entregues quase 1,5 mil milhões de euros em obras sem concurso - este valor chegava para pagar a construção e manutenção do troço do TGV entre Poceirão e Caia ao longo de toda a concessão — Público 28-01-2011.

O velho clientelismo ruinoso do Bloco Central do Betão —bem expresso nas novas barragens (1) inúteis e assassinas (custo anunciado: 7 mM€), nas novas auto-estradas e SCUTs (custo estimado: 2 mM€), no novo aeroporto e TTT (custo por baixo: 10 mM€), nos dez novos hospitais PPP (custo estimado: 7mM€), e na chamada recuperação do Parque Escolar (custo anunciado: 2,5 mM€)— permanece intocado, a par da defesa canina dos privilégios dos gestores públicos —topo da carreira partidária de centenas ou milhares de boys&girls da nomenclatura que arruinou Portugal.

O modelo preguiçoso, oportunista e corrupto da economia portuguesa assentou nos últimos 30 anos em três pilares estruturais: financiamento comunitário, endividamento galopante, e betão. Interrompendo-se o fluxo dos dois primeiros, o terceiro pilar ruirá inexoravelmente.

A oposição tenaz do Bloco Central do Betão e de alguns banqueiros à correcção atempada deste paradigma deu no desastre à vista: a bancarrota de Portugal. Mas sem a ajuda subserviente dos partidos políticos, com especial destaque para o PS, PSD e CDS, os primeiros não teriam chegado onde chegaram, nem teriam causado tanto dano ao país. 

Não há nem nunca houve uma grande burguesia portuguesa independente. A burguesia palaciana e burocrática que sempre tivemos viveu e continua a viver nos corredores do poder e nutre-se directamente da teta orçamental, quer dizer, de alguma forma de espoliação e saque fiscal. O analfabetismo generalizado foi a condição cultural deste verdadeiro entorse civilizacional ao longo da nossa história. 

Os portugueses melhoraram os seus níveis de educação, sobretudo a partir do início da guerra colonial em África, e do contacto cosmopolita com outros povos e sistemas de governo induzido pela emigração, primeiro, em direcção a França e Alemanha, e mais recentemente, para o Reino Unido, Suíça, Luxemburgo, Canadá e Estados Unidos. Também por isto o actual regime tem os dias contados.

NOTAS
  1. No caso das barragens, Paulo Portas e o PSD não tugem nem mugem, porque o assunto está entregue aos manos Moreira da Silva (Miguel e Jorge), pupilos indirectos do senhor Pimenta verde, cujos interesses (não meramente teóricos, entenda-se) no desastre eólico são conhecidos de longa data.

Idos de Março

Sócrates, demite-te!

Durão diz que UE está pronta para ajudar Portugal
Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, revelou em entrevista concedida à BBC que a União Europeia está preparada para ajudar financeiramente Portugal. O governante disse que para isso acontecer basta o Governo pedir auxílio. — DN (19-02-2011).
Portugal one step closer to requesting EU bailout
A senior eurozone source alleges that the situation signals a Portugese bailout by April at the latest.
“Portugal is drowning. It’s not going to be able to hold on beyond the end of March,” the eurozone source said. “That’s already understood to be the case in financial markets, but now it’s also understood among [EU] finance ministers.” — Euractiv, 18-02-2011.

Posso estar totalmente enganado sobre a sobrevivência do governo socialista. Previsões políticas são sempre uma lotaria. A colocação de dívida pública portuguesa em 2011 é da ordem dos 20 mil milhões de euros (mais de 10% do PIB). Trata-se, porém, de um peditório financeiro essencial e indispensável para o financiamento do orçamento de estado deste ano e para acudir ao serviço da dívida pública que vence também ao longo deste ano: Março, Julho, Agosto, Outubro e Novembro.

Mesmo que parte do orçamento deste ano não seja executado, e que se atrasem pagamentos devidos a fornecedores, o endividamento acumulado e o défice orçamental são de tal grandeza que, sem compras maciças do BCE, a bancarrota já teria sido declarada. Os próximos dias e semanas dependem, portanto, do novo governo económico que sair da cimeira europeia de 11 de Março. Este conclave dos países do euro liderado pelo eixo franco-alemão marcará, segundo alguns observadores (LEAP), o início de uma descolagem europeia da trapalhada americana. O novo banco do mundo chama-se China, e este país anda a comprar dívida soberana de países da União Europeia ao BCE, em nome da estabilidade do euro. O colapso em curso da economia americana levará inevitavelmente a uma progressiva descaracterização do dólar como moeda de reserva mundial. A China e o Japão têm vindo a comprar grande quantidade de euros, mas também, nos últimos meses, importantes stocks de dívida soberana de alguns dos países mais aflitos da Eurolândia.

Para Durão Barroso e para o BCE uma crise política que implique a queda de Sócrates e eleições antecipadas é sobretudo preocupante no curto prazo pelas implicações que poderá ter nos juros da dívida pública portuguesa, e por contágio no resto da Zona Euro. A chantagem de Sócrates deriva aliás disto mesmo: se me deitam abaixo, serão responsáveis pela subida do preço do dinheiro que tem vindo a garantir a nossa sobrevivência! Mas o problema é que os juros têm vindo a subir continuamente, apesar da estabilidade governativa. E com o petróleo de Brent acima dos 100 dólares a coisa vai mesmo agravar-se. A mudança poderá mesmo ser encarada por todos (mercados incluídos) como a única hipótese para travar a escalada da crise financeira portuguesa, e impedir o contágio à Espanha.

Resumindo e concluindo: posso estar muito enganado, mas prevejo que este governo caia antes do Verão (já em Março, ou Abril...), ou com o chumbo do próximo OE...

A Oposição, toda a Oposição, será responsabilizada por viabilizar o descalabro da governação mitómana de José Sócrates, se não derrubar rapidamente este governo à deriva e em estado de negação catatónica.

Passos Coelho está sob enorme pressão, e corre sérios riscos de perder capacidade de manobra num futuro governo por si dirigido se deixar apodrecer mais a actual situação. Um governo Sócrates sem orçamento aprovado, gerido com duodécimos é teoricamente possível, e Sócrates estaria todo contente em seguir num tal cenário fantasista. Mas estaria Teixeira dos Santos? Estaria a Oposição? Estaria Cavaco Silva? Estaria Durão Barroso? Estaria o BCE? Estaria Angela Merkel? Estariam a China e o Japão? É o que falta saber, mas creio que já ninguém está de facto interessado em identificar-se com tamanha farsa e descaramento pseudo-socialista. Em política não há, como se sabe, almoços grátis!

Mesmo que Sócrates aguente mais seis meses, ou mais um ano, é urgente preparar desde já uma alternativa a Sócrates no próprio PS — e não apenas a esperada alternância via PSD.

António José Seguro, Francisco Assis e Sérgio Sousa Pinto devem concentrar-se imediatamente nesta tarefa, em vez de legitimarem uma farsa congressista de tipo coreano. Na minha opinião, Manuel Maria Carrilho é uma alternativa credível a Sócrates —por formação, por experiência governativa, pela reflexão programática evidenciada, e pela coragem que se lhe reconhece. Mas será que os jovens turcos do PS estarão em condições de avaliar objectivamente a situação?

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Mexia e Sócrates assassinam rios

EDP convence governo PS a destruir rios, bacias hidrográficas, paisagens protegidas e turismo

“São os projetos mais difíceis em que nos devemos empenhar, porque são eles que podem mudar as coisas” (Expresso) — José Sócrates.

O objectivo da endividada EDP, no que se refere ao subserviente Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico, é aumentar o peso dos activos e receitas garantidas pelo Estado português através dos compromissos assumidos por este, a mais de trinta anos, com a construção de onze novas barragens virtualmente inúteis e altamente prejudiciais à sustentabilidade eco-turística e ambiental de toda uma região demograficamente deprimida, envelhecida e indefesa. O jornalismo distraído que temos acompanha, sem verdadeiro contraditório, o embuste.

Para produzir mais 3% da energia eléctrica que consumimos não é preciso destruir rios (Sabor e Tua), ameaçar cidades de inundação catastrófica (Amarante), comprometer o futuro ecológico e turístico de regiões inteiras (por exemplo, o Douro Vinhateiro, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade), como estão a fazer os piratas que levaram Portugal à falência. Bastaria, para alcançar este objectivo de duvidosa necessidade, aumentar a potência das barragens existentes e lançar um verdadeiro plano nacional de eficiência energética naquele que é o país da União Europeia onde mais energia se desperdiça sem qualquer proveito económico.

Sim, a tríade de Macau, de braço dado com o BES, a Brisa, a Mota-Engil, o Grupo Lena, a Teixeira Duarte, e muitos outros, decidiram sobreviver à custa da poupança e bem-estar dos portugueses, bem como da pilhagem de um património acumulados ao longo de dezenas, ou mesmo centenas de anos. Rasgaram o país com autoestradas vazias, queriam fazer aeroportos faraónicos em leitos de cheia, e pressionam agora tudo e todos para que os deixem levar por diante, com voz piedosa e muita propaganda e patrocínios culturais hipócritas e populistas, os poucos rios intactos do país, ou boicotar a ligação do nosso periférico país às novas redes ferroviárias de bitola europeia construídas e em construção por essa Europa fora, para desta forma criminosa garantir negócios privados inconcebíveis (neste caso concreto, "oferecendo" à Mota-Engil a faculdade de criar uma alfândega privada entre bitola ibérica e bitola europeia, na chamada Plataforma Logística do Poceirão!)

O caso das barragens do Tua, do Sabor e do Fridão —verdadeiros ecocídios injustificáveis—, tal como a oposição à nova ligação ferroviária rápida, para pessoas e mercadorias, entre Lisboa, a segunda maior rede ferroviária de Alta Velocidade do planeta (precisamente, a espanhola, que conta já com 2600 Km), e o resto da Europa, que se prepara para construir ligações ferroviárias de Alta Velocidade até Moscovo, Pequim e Xangai, ou ainda a insistência em querer fechar o Aeroporto da Portela, um dos mais pontuais do mundo e longe, muito longe mesmo de estar esgotado, revelam, todos eles, a persistência de um modelo parasitário, irresponsável, corrupto e descarado de usurpação privada do bem público em nome da preguiça, incompetência e inércia histórica de uma burguesia burocrática inculta, imprestável e condenada ao desaparecimento. Se não a pararmos já, porém, queimarão o que resta do país intocado.

A EDP é uma empresa muito endividada. Comprou empresas de energia na América cuja rentabilidade está por demonstrar. Apostou no mercado especulativo dos créditos de CO2 equivalente, abortado pela China e pelo Brasil na Cimeira de Copenhaga de 2009. Nem o anúncio de hoje, pré-anunciado ontem, sobre o início das obras da barragem assassina do Tua impediu a EDP de sair do vermelho da bolsa (Jornal de Negócios, gráficos). A sua capitalização bolsista em 2010 (10.498M€) e o seu volume de negócios (10.238, 6M€) são ambos inferiores à sua dívida financeira líquida (16.246,40 M€). O total do passivo da empresa subiu 876.471.000€, de 2009 (28.268.725.000€) para 2010 (29.145.196.000€). Em suma, os ratings da EDP produzidos pelas principais agência de notação financeira poderão em breve ser afectados pelos impactos muito sérios dos endividamentos astronómicos das economias portuguesa, espanhola e norte-americana, bem como pelo colapso financeiro de centenas de cidades americanas. O outloook negativo da Standard & Poors emitido em Outurbo do ano passado foi um aviso:
  • Standard & Poors: A-/Negative/A2 (29/10/2010)
  • Moody's: A3/Stable/P2 (13/07/2010)
  • Fitch: A-/Stable/F2 (17/06/2010)
O discurso de José Sócrates, na sua mitómana irresponsabilidade e permanente conluio com o que de mais cabotino existe na economia portuguesa é bem o espelho de um país em declínio, que urge sustar.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Geração à Rasca

O António Maria apoia esta manif!

Manifesto

Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.

Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país. Estamos aqui, hoje, porque não podemos continuar a aceitar a situação precária para a qual fomos arrastados. Estamos aqui, hoje, porque nos esforçamos diariamente para merecer um futuro digno, com estabilidade e segurança em todas as áreas da nossa vida.

Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.

Caso contrário:

a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.

b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.

c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.

Somos a geração com o maior nível de formação na história do país. Por isso, não nos deixamos abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas. Acreditamos que temos os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal.

Não protestamos contra as outras gerações. Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.

Geração à Rasca


  • Deolinda

    Que Parva que eu sou


    Sou da geração sem remuneração
    e não me incomoda esta condição.
    Que parva que eu sou!
    Porque isto está mal e vai continuar,
    já é uma sorte eu poder estagiar.
    Que parva que eu sou!
    E fico a pensar,
    que mundo tão parvo
    onde para ser escravo é preciso estudar.

    Sou da geração 'casinha dos pais',
    se já tenho tudo, para quê querer mais?
    Que parva que eu sou
    Filhos, maridos, estou sempre a adiar
    e ainda me falta o carro pagar
    Que parva que eu sou!
    E fico a pensar,
    que mundo tão parvo
    onde para ser escravo é preciso estudar.

    Sou da geração 'vou queixar-me para quê?'
    Há alguém bem pior do que eu na TV.
    Que parva que eu sou!
    Sou da geração 'eu já não posso mais!'
    que esta situação dura há tempo demais
    E parva não sou!
    E fico a pensar,
    que mundo tão parvo
    onde para ser escravo é preciso estudar.

domingo, fevereiro 13, 2011

2030: end-of-the game

Onde não há petróleo...

Telegramas diplomáticos confidenciais divulgados pelo WikiLeaks revelam a incapacidade da Arábia Saudita de impedir a subida dos preços do petróleo, e o declínio a curto prazo da sua produção.
WikiLeaks cables: Saudi Arabia cannot pump enough oil to keep a lid on prices
US diplomat convinced by Saudi expert that reserves of world's biggest oil exporter have been overstated by nearly 40%

(…) According to the cables, which date between 2007-09, Husseini said Saudi Arabia might reach an output of 12m barrels a day in 10 years but before then – possibly as early as 2012 – global oil production would have hit its highest point. This crunch point is known as "peak oil".

Husseini said that at that point Aramco would not be able to stop the rise of global oil prices because the Saudi energy industry had overstated its recoverable reserves to spur foreign investment. He argued that Aramco had badly underestimated the time needed to bring new oil on tap.

"(…) Aramco's reserves are overstated by as much as 300bn barrels. In his view once 50% of original proven reserves has been reached … a steady output in decline will ensue and no amount of effort will be able to stop it. He believes that what will result is a plateau in total output that will last approximately 15 years followed by decreasing output" — Guardian, Tueaday 8 Feburary 2011.

Uma das consequências da revolução democrática que varre a margem sul do Mediterrâneo, com fortes possibilidades de se estender à Arábia Saudita, Iémen e vários outros países africanos populosos e jovens, será um maior consumo mundial de petróleo e gás natural. António Costa Silva adianta em artigo publicado no Expresso desta semana que este acréscimo será da ordem dos 30% nas próximas três décadas — se houver disponibilidade de produto, e quem possa pagar por ele, claro (acrescento eu). Ou seja, à pressão exercida pelo crescimento dos chamados países emergentes, entre os quais se incluem o Brasil, a Índia, a China e a Rússia, mas também a Turquia, o Vietname, a Tailândia e a Argentina, que crescem três a quatro vezes mais depressa do que os Estados Unidos e a União Europeia (ver quadro), virão somar-se ao longo desta e da próxima década uma série de vizinhos de longa data da Europa, onde o passado de colónias submissas poderá ter sido definitivamente enterrado no dia em que Hosni Mubarak foi apeado do poder.

Esta tendência para o equilíbrio mundial irá, no entanto, provocar uma tensão enorme nos mercados de matérias primas, dos alimentos básicos, e da energia. Pão, arroz, mas também todos os produtos industriais e serviços serão apanhados por uma onda prolongada e crescente de inflação, cuja origem primordial é, precisamente, a escassez progressiva do petróleo e a correspondente e imparável subida de preço. Nada do que se conhece tem o poder e a dimensão suficientes para substituir o petróleo e o gás natural na alimentação do estilo de vida e bem-estar criados pelo homem nos últimos duzentos anos.

As consequências deste facto, que um número crescente de indícios diplomáticos, relatórios oficiais e estatísticas comprovam, são praticamente inimagináveis. Desde 1972 que o relatório The Limits to Growth, encomendado aos cientistas Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jørgen Randers e William W. Behrens III, pelo Clube de Roma, previu o iminente colapso da civilização humana moderna em resultado de uma confluência galopante entre crescimento demográfico e exaustão das reservas potenciais de matérias-primas e alimentos. No vários cenários de The Limits to Growth, tal como no estudo pioneiro de 1956, desenvolvido por Hubbert M. King, "Nuclear Energy and the Fossil Fuels 'Drilling and Production Practice'" (PDF), o período compreendido entre 2030 e 2050 é apresentado como a barreira inultrapassável do actual paradigma energético do nosso crescimento como espécie. Sabe-se hoje que a energia nuclear não pode ser a salvação. E sabe-se que a única grande reserva energética disponível cuja capacidade de resposta se aproxima do petróleo e do gás natural é o carvão — depois de liquefeito. Acontece, porém, que esta operação é muito cara. Conclusão: o actual paradigma de desenvolvimento da espécie humana está irremediavelmente condenado — e a curto prazo! Se soubermos decrescer com graça, talvez nos safemos. Se não... a extinção parcial da espécie será a funesta herança que deixaremos aos nossos netos.

Enquanto o ruído surdo do fim dos tempos parece aproximar-se da nossa espécie, mas nos dá ainda algum tempo de análise e acção, a prioridade das prioridades chama-se eficiência energética — um bem que escasseia flagrantemente no nosso país. Se não pusermos rapidamente na ordem os piratas que nos levaram à falência, seremos dos primeiros povos a sucumbir!

Parva que sou



Foi assim que nos idos anos 60 teve início a revolução que acabaria com uma ditadura de 48 anos. Agora, voltamos a precisar de democracia, e de uma nova república. O senhor Mubarak Sócrates tem que partir e os partidos têm que mudar!

É certo que o Hip-hop português tem vindo a tocar estes temas, mas numa perspectiva mais moralista do que social. Por outro lado, o que os Deolinda conseguiram foi tocar o nervo sensível de toda uma geração a quem os pais (da minha idade) ensinaram as vantagens da educação (1), do conhecimento e da cultura na busca de uma vida com sentido e relativamente afluente. Hoje, infelizmente, limitamo-nos cada vez mais a ajudá-los a emigrar!

Por uma vez, transcrevo um artigo de Vasco Pulido Valente, que dá bem a medida da tragédia política em curso. A grande dúvida é a de saber se temos juventude suficiente para impedir a transformação da já degenerada democracia a que chegámos numa cleptocracia autoritária e policial, cujos indícios são cada vez mais visíveis no comportamento dos piratas que tomaram de assalto o PS e o Estado.

Mudar de regime

Vasco Pulido Valente - 15-01-2011

Dez milhões de portugueses foram vítimas de uma fraude, que os fará passar anos de miséria. Toda a gente acusa deste crime, único na nossa história recente, entidades sem rosto como os "mercados", a "especulação" ou meia dúzia de agências de rating, que por motivos misteriosos resolveram embirrar com um pequeno país bem comportado e completamente inócuo. Mas ninguém acusa os verdadeiros responsáveis, que continuam por aí a perorar como se não tivessem nada a ver com o caso e até se juntam, quando calha, ao coro de lamúrias. Parece que não há um político nesta terra responsável pelo défice, pela dívida e pela geral megalomania dos nossos compromissos. O Estado foi sempre administrado com senso e parcimónia. Tudo nos caiu do céu.

Certos pensadores profissionais acham mesmo que o próprio regime que engendrou a presente tragédia é praticamente perfeito e que não se deve mexer na Constituição em que ele assenta. Isto espanta, porque a reacção tradicional costumava ser a de corrigir as regras a que o desastre era atribuível. Basta conhecer a história de França, de Espanha ou mesmo de Portugal para verificar que várias Monarquias, como várias Repúblicas, desapareceram exactamente pela espécie de irresponsabilidade (e prodigalidade) que o Estado do "25 de Abril" demonstrou com abundância e zelo desde, pelo menos, 1990. A oligarquia partidária e a oligarquia de "negócios" que geriram, em comum, a administração central e as centenas de sobas sem cabeça ou vergonha da administração local não nasceram por acaso.

Nasceram da fraqueza do poder e da ausência de uma entidade fiscalizadora. Por outras palavras, nasceram de um Presidente quase irrelevante; de uma Assembleia em que os deputados não decidem ou votam livremente; de Governos que no fundo nem o Presidente, nem a Assembleia controlam; de câmaras que funcionam como verdadeiros feudos; de uma lei eleitoral que dissolve a identidade e a independência dos candidatos. Vivendo a nossa vida pública como a vivemos, quem não perceberá a caracterizada loucura das despesas (que manifestamente excede o tolerável), a corrupção (que se tornou universal), os funcionários sem utilidade, o puro desperdício e, no fim, como de costume, a crise financeira? A moral da coisa é muito simples: só se resolve a crise mudando de regime.

NOTA
  1. Sobre o drama da falta de emprego na juventude em todo o mundo, ver o gráfico deste artigo do Economist — Young and jobless - The Economist

O fim do Bloco

O BE é uma aberração partidária desde início, com prazo de validade à vista!

Se a direita a chumbar, termina a guerra de alecrim e manjerona entre PSD e PS: quem viabilizou o PECs e o orçamento, mantém o apoio ao governo, configura a sua maioria parlamentar e deve responder por isso.

Se a direita votar a moção, vamos a eleições. E então que paguem o PS e o PSD pelas políticas nocivas que são de ambos. Que as submetam à democracia do voto, coisa que não fizeram nas eleições de 2009. E que se levante uma nova maioria social e política, à esquerda, capaz de governar para um rumo novo no país, capaz de romper com Merkel e de enfrentar a crise partindo das necessidades populares. É para essa mudança que o Bloco existe — in Porquê agora? Jorge Costa, Esquerda Net.
A jogada desesperada de Francisco Louçã pode muito bem ter sido o canto do cisne do líder vazio dum saco de gatos insuflado por uma base eleitoral maioritariamente assente em funcionários públicos (sobretudo professores) e um programa político fatalmente contaminado por uma sangria de ideologias mortas e enterradas.

A sofisticação ideológica do Bloco de Esquerda é nula, e a sua verborreia lembra um repertório de filmes antigos que fazem sorrir de nostalgia os mais velhos. Pais dogmáticos e filhos sem imaginação da UDP, do MRPP e do PSR, os dirigentes eternos deste albergue partidário vivem literalmente na primeira metade do século passado, continuam a odiar-se como dantes, e posam para o presente sob o disfarce de uma "mesa" que controlam sofregamente como se do pão para a vida se tratasse. Que tal introduzirem o saudável princípio da limitação de mandatos? Sempre arejavam a coisa, e permitiam alguma esperança de vida à "mesa"! Assim, como estão, nem crescem, nem melhoram. E a propensão para asneira tende a aumentar exponencialmente.

Francisco Louçã, o homem com menos imaginação que conheci em toda a minha vida, resolveu apresentar uma moção de censura ao governo de José Sócrates uns dias depois de ter desvalorizado a intenção do PCP, pela voz de Jerónimo de Sousa, de fazer o mesmo. Aos olhos da opinião pública, este simples volte-face revelou em toda a sua desgraça a natureza instável do personagem e o oportunismo intolerável do pequeno político que nunca deixou de ser.

Mas para piorar o episódio, este acto aparentemente irreflectido e repentista mergulhou o albergue bloquista numa indescritível balbúrdia. Fazenda explicou que não queria o voto do PSD, e outra voz ainda acrescentou que a moção também era contra o PSD, como que implorando a Passos de Coelho uma reacção rápida rejeitando liminarmente a iniciativa que também o visava. Rapidez foi coisa que não houve da parte do actual líder laranja, como seria previsível. Ou seja, Louçã conseguiu instalar a confusão na nomenclatura partidária, deixando a porta aberta a José Sócrates para este se recompor do susto e contra-atacar.

E no entanto, objectivamente, a Caixa de Pandora que levará a tríade de Macau e o Mubarak das Beiras ao tapete foi mesmo aberta.

Uma moção de censura não é um jogo floral, nem uma admoestação moral, nem uma agenda de retórica parlamentar, mas um instrumento regimental criado para derrubar governos. Ou seja, quando se propõe à Assembleia da República uma moção de censura a um determinado governo, o objectivo é mesmo derrubar esse governo — para recomeçar em melhores condições o jogo democrático. Como tal, a redacção e fundamentação da moção devem garantir pela sua forma e conteúdo a eficácia da acção parlamentar assim desencadeada.

O objectivo legítimo e democraticamente regulador da moção de censura é permitir a emergência de um novo governo, por efeito de um novo acordo entre partidos, ou da dissolução da assembleia legislativa e a convocação de novas eleições. Não é provar a temperatura das alianças tácitas existentes, nem muito menos diminuir a eficácia constitutiva do acto com manobras de demagogia barata.

Uma moção de censura é pois um acto grave em democracia, que só deve ser desencadeado em consequência de uma crise governativa, ou no caso de um patente impasse parlamentar — por exemplo, na falta sistemática de maioria para aprovação de leis. Promover a sua apresentação com meros objectivos tácticos de guerrilha partidária é um acto não só censurável, como condenável. Uma moção de censura deve, pois, ser negociada previamente entre os partidos da Oposição!

Será com base neste tipo de argumentos que, certamente, o PSD se recusará a votar favoravelmente a moção do BE. Uma eventual moção do PCP terá seguramente o mesmo destino. E no entanto, Passos de Coelho, ao recusar alinhar com os comunistas e os esquerdistas do Bloco no derrube do governo Sócrates, irá ficar de mãos mais atadas do que já estão, ao mesmo tempo que deixará o terreno praticamente livre a Cavaco Silva.

Passos de Coelho não poderá aprovar o orçamento de Estado de 2011, sob pena de se suicidar como alternativa de governo, e como direcção partidária. Mas a tríade de Macau está disposta a tudo, e governar sem orçamento não é algo que a assuste. Logo, tudo ficará nas mãos de Cavaco Silva a partir do momento em que Passos de Coelho rejeite a desajeitada iniciativa do trotskista Louçã.

Mas será que a tomada de consciência destes factos poderá ainda levar Passos de Coelho a dizer ao grupo parlamentar do PSD para votar favoravelmente a moção de censura do Bloco, ou do PCP, ao lado do CDS-PP, do PCP e do BE? Eu não sei.

sábado, fevereiro 12, 2011

Mudar de democracia

Ouvi o Manuel Maria Carrilho na TVI. 

Li e ouvi o Henrique Neto, no Expresso e no "Plano Inclinado" da SIC — observando pela décima vez gráficos eloquentes do Henrique Medina Carreira. 

Vi ainda, com a irritação e nojo habituais, o Mubarak das Beiras arengar triunfalmente sobre as glórias do seu governo zombie em mais um combate ganho contra os moinhos da esquerda e da direita que por breves momentos ameaçaram a sua corrupta ditadura democrática. 

Concluo: é preciso refundar este regime, começando por refundar o sistema partidário. E para isto talvez seja inevitável organizar uma manifestação de sapatos junto à Assembleia da República, para denunciar aquela corporação de araras inúteis, e exigir outra democracia.

Passos de coelho

Direcção do PSD tem trinta dias para mostrar o que vale

Se Passos Coelho deixar passar esta oportunidade de avançar para eleições antecipadas, perderá credibilidade e será visto como um líder medroso e oportunista, deixando o campo totalmente livre a Cavaco Silva.

Cavaco odeia Passos Coelho, e portanto aproveitará a sua hesitação e medo para o pendurar numa corda de seca até que caia de podre num próximo congresso extraordinário — quando o governo, seja ele qual for, caminhar para uma diminuição do número de freguesias urbanas e de municípios, e proceder à venda de algumas empresas públicas falidas, após liquidar os respectivos passivos (suponho).

Se a actual direcção do PSD hesitar, como parece que vai suceder, e ficar encalhada no apoio a José Sócrates, como se a responsabilidade democrática não estivesse, precisamente, na urgência da remoção deste desastroso governo e do mitómano que o conduz, teremos crise laranja até ao fim deste ano.

O senhor que se segue, Paulo Rangel, poderá então ser chamado a Lisboa, por aliados vários, entre eles o senhor Cavaco Silva e a sua interminável comissão de honra presidencial. Depois, é só esperar pelo adensar da balbúrdia "socialista", com a nova banda trotskista acoplada, para que Cavaco Silva tenha a esperada e inequívoca oportunidade de despedir o Mubarak das Beiras, convocar eleições gerais antecipadas, e colocar um PSD amigo no Executivo.

Um presidente, uma maioria e um governo estarão enfim no poder, com duas legislaturas limpas pela frente, e sem grande resistência.

O IVA manter-se-à alto (podendo até subir para 24 ou mesmo 25%); o IRC e o IRS baixarão. O princípio do utilizador-pagador será estendido, da energia, autoestradas e transportes públicos, aos cuidados de saúde e à educação, ou seja, todos pagarão um pouco menos, e os beneficiários dos serviços pagarão um pouco mais — lógico e sustentável!

A administração pública verá desaparecer algumas centenas de direcções-gerais, institutos e fundações, e uma parte do ensino superior público será entregue, de facto, às iniciativas privada e cooperativa, com a passagem instantânea de 10-15% dos funcionários públicos efectivos para um novo quadro de excedentes, onde os vencimentos sofrerão uma erosão paulatina ao longo dos anos... Algumas dezenas de milhar de contratações eventuais e precárias caducarão com a extinção dos organismos.

Por fim, espera-se que o futuro governo, que terá que ser uma coligação com o CDS, a fim de poder contar uma ampla maioria absoluta parlamentar, leve finalmente a cabo uma racionalização competente do aparelho de Estado e uma libertação efectiva da sociedade civil da canga paternalista que há séculos rege as relações entre o poder e a sociedade cortesã, analfabeta e corrupta, que desde a conquista de Ceuta se habituou a viver de expedientes palacianos, da exploração colonial fácil e da emigração.

Se depois do saque realizado pela tríade de Macau e pelos piratas da SLN/BPN, e se depois da fuga em frente da governação socratina, o que vier depois (e não creio que possa vir nada de bom do inseguro e medroso Passos de Coelho, nem muito menos da cabotina e irritante criatura que dá pelo nome de Miguel Relvas) não cumprir o que o país espera do poder —transparência, pragmatismo, eficácia, lucidez, ponderação, estratégia, liberdade de acção, e justiça— então o regime cairá mesmo numa espiral convulsa de desfecho incerto.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Censura e populismo parlamentar

Mostrem os sapatos a Sócrates — o Mubarak das Beiras!

Sócrates furioso com anúncio de moção censura do Bloco de Esquerda

É do interesse vital do PSD provocar a queda do governo da tríade de Macau ainda este ano e ganhar as subsequentes eleições legislativas antecipadas. De contrário, alguns dossiers, como o do aeroporto da Ota em Alcochete, onde o lóbi cavaquista da ex-SLN meteu o pescoço, cairão irremediavelmente. Mas poderá fazê-lo, pergunto, depois de ter viabilizado até agora a agonia de Sócrates em nome do "interesse nacional"?

O grande dilema de Passos de Coelho é, pois, este: ou segurar Sócrates até ver consumado o colapso financeiro do país, provavelmente antes do verão, e quando este ocorrer (sob a forma de um pedido de ajuda desesperado ao BCE), exigir a demissão do governo, anunciando que votará contra o próximo orçamento de Estado seja ele qual for; ou precipitar a sua queda imediatamente após a tomada de posse de Cavaco Silva, votando nas moções de censura do Bloco e do PCP, ou anunciando mesmo, em alternativa, uma moção de censura de iniciativa laranja. A perspectiva de três moções de censura consecutivas ao governo moribundo em funções —depois das quais, independentemente de virem a ser aprovadas ou não, este ficaria ferido de morte— chegaria previsivelmente para que Sócrates se demitisse, em vez de desafiar uma demissão humilhante pelo presidente da república. Esperar pela palavra de Cavaco é, no entanto, um grande risco para o actual líder do PSD!

No primeiro cenário —o cenário da hiena que espera pelo animal ferido de morte— o PSD corre o risco de receber um país em cacos, pois até ao outono haverá tempo suficiente para que uma fuga de capitais, de empresas e de massa cinzenta, sem precedentes, tenha lugar, ao mesmo tempo que a instabilidade e mesmo a revolta social poderão tonar-se explosivas de um momento para o outro, ao menor e mais inesperado incidente com estudantes e pais desesperados, doentes e reformados, ou camionistas (outra vez!) Foi isto que o PCP, primeiro, e o quadrado Louçã, depois, perceberam finalmente. Estão aliás ambos aterrados com a perspectiva de serem confundidos e engolidos com o PS pela ira que cresce entre os portugueses. Jerónimo de Sousa tem razão: para o povo (leia-se, para o eleitorado que vota à esquerda) já nada pode piorar a governação dos piratas que tomaram de assalto o PS e o país. Sócrates tornou-se uma espécie de Mubarak das Beiras. Só sairá de empurrão!

A alternativa a este cenário é Passos de Coelho aproveitar a boleia das moções de censura do Bloco e do PCP, votando-as favoravelmente, em nome, não das respectivas ideologias e verborreia populista, mas da necessidade inadiável de acorrer ao país verificada a incapacidade irreversível de o actual governo lidar com a situação económica, financeira, social e política que se degrada dia a dia. A aventura criminosa da tríade de Macau, servida pelo mitómano José Sócrates, levou o país à mais completa ruína, desde a bancarrota de 1892. É preciso correr com esta gente do Governo e do PS. E é preciso sentar alguns dos seus principais protagonistas no banco dos réus!

Mas Passos de Coelho tem ainda outra alternativa para encurtar a agonia de Sócrates: anunciar uma moção de censura do próprio PSD, ideologicamente neutra e pragmática, se verificar que as fundamentações das moções do Bloco e do PCP são, como se prevê, uma espécie de insecticida doutrinário destinado a matar no ovo a eficácia das próprias moções. Ou seja, se as moções de censura da "esquerda" não passarem de uma farsa para povo distraído ver, o PSD inviabilizará de vez o governo com a sua própria moção de censura, na medida em que, a partir da sua apresentação, o PS deixará de contar com qualquer apoio parlamentar do PSD e do CDS, ficando a sua sobrevivência ao colo do senhor Louçã, já que a posição lúcida de Jerónimo de Sousa acabará por ganhar apoio pleno no interior do PCP.

Este é o momento ideal para uma mudança radical no seio do PS. Se tal não ocorrer, podemos dizer adeus ao Partido Socialista, e pedir outro. Está na altura de António José Seguro, Francisco Assis e Sérgio Sousa Pinto perceberem que o melhor que têm a fazer é unir-se, e unirem-se a Manuel Maria Carrilho para salvar o PS e a alternância de esquerda em Portugal. Esta terá que ser repensada de uma ponta à outra, naturalmente. Por uma nova República? Por um novo PS? Não vejo como possa ser doutro modo!

Portugal não tem nenhuma possibilidade de pagar um QREN por ano pelo serviço da sua dívida pública. É este o estado de falência do regime a que chegámos. Para sairmos de tamanho buraco negro é preciso, de facto, uma nova República!

REFERÊNCIAS
  • Dívida pública portuguesa (2010): 83,2% do PIB (CIA)
    Dívida externa bruta portuguesa (2010): 201,5% do PIB
  • Os aforradores e os especuladores de dívida pública portuguesa
    (...) O Estado português, em 2011, pretende pedir emprestado 46 mil milhões de euros, cerca de 32% do total da dívida e 28% do PIB português. Quase 25% da dívida total, 35 mil milhões, para renovar dívida vencida e 11 mil milhões para colmatar o diferencial negativo entre as receitas e as despesas do Estado. A grande fatia das emissões, cerca de 25 mil milhões, está prevista até finais de Abril.
    (…) Caso se assista a uma escalada das taxas para perto dos 10% nas OT a 10 anos no mercado secundário, e das taxas de prazo mais curto – no início da curva de rendimentos, como já estamos a assistir nas de 2 a 6 anos – poderemos ter uma taxa média 6 pontos percentuais acima do normal e um acréscimo dos juros em mais 1500 milhões de euros (quase 1% do PIB) passando o serviço da dívida dos actuais 8% do total da despesa pública para quase 11% — in Paulo Rosa, Os aforradores e os especuladores de dívida pública portuguesa, Público, 16.11.2010 - 14:50.
  • Portugal de novo ameaçado pela dívida, diz Guardian
    O The Guardian salienta que, pela primeira vez em três semanas, o BCE foi obrigado a intervir no mercado e a comprar títulos da dívida soberana portugueses, pois os juros exigidos chegaram aos 7,63%, níveis que a Grécia e a Irlanda não conseguiram suportar. Portugal terá de se refinanciar em 10 mil milhões já nesta primavera e os investidores estão preocupados depois da pouca confiança demonstrada pela emissão de dívida sindicada de 3,5 mil milhões de euros, realizada esta semana, e cujas taxas elevadas (6,24%) vão obrigar o país a pagar 226 milhões de euros de juros por ano — DN.
  • Taxa a dez anos iguala pior sequência de Portugal desde a entrada na zona euro
    Até ao dia 14 de Janeiro, nunca a sequência de dias a fechar acima dos sete por cento havia sido superior a dois dias consecutivos, mas a partir de 14 de Janeiro a taxa genérica da Bloomberg ficou acima dessa barreira durante quatro dias consecutivos. Hoje, esta taxa continua acima dos 7 por cento, pelo quinto dia consecutivo, igualando nesta altura a pior sequência de dias registada desde a entrada no euro, registada na última semana de Janeiro, sendo que esta semana os juros têm sido mais altos que em Janeiro  — DN Economia.
  • Para una análise comparativa internacional: “The Future of Public Debt: Prospects and Implications,” by Stephen G. Cecchetti, M. S. Mohanty, and Fabrizio Zampolli, published by the Bank of International Settlements (BIS). PDF.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

ANA imobiliária

O Bloco Central do Betão não desiste...
Em vez de melhorar a operacionalidade e segurança da Portela e do Aeroporto Sá Carneiro, a ANA especula, a mando da tríade de Macau, suponho.
ANA aprova construção de três hotéis junto aos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro

O licenciamento das três unidades foi obtido em 2010 e as obras ficarão concluídas dentro de 12 meses, no caso do hotel junto ao aeroporto Francisco Sá Carneiro (Porto), e de 18 meses, em Lisboa e em Faro.

O investimento, num total de 27 milhões de euros, será realizado através de “parcerias para a construção e exploração” e totalmente suportado na totalidade pelas empresas privadas Hotti Hotéis e Tryp Média (Lisboa), Coperfiel Real Estate Group e Park Hotel (Porto) e FTP Hotels (Faro) — Público.

Até parece que os três aeroportos estão a 45Km dos centros urbanos!

Todos críamos que a ANA era uma empresa pública de gestão de aeroportos. Pelos vistos também se dedica à especulação imobiliária! A bênção parlamentar será total, creio, agora que o senhor Louçã declarou o seu eterno amor a José Sócrates!

O que a ANA deveria fazer —prolongar/corrigir os taxiway da Portela e do aeroporto Sá Carneiro, para permitir um uso mais racional, produtivo e seguro das pistas, ou colocar o ILS no aeroporto da Maia, para maior produtividade e segurança das aproximações à pista e aterragens— não faz, porque não há nenhum gabinete de consultores, nem tubarão a pressionar, e os administradores da ANA são boys&girls, como é sabido.

Os políticos, e os opinocratas da corda continuam a ignorar os detalhes essenciais dos temas pesados da nossa economia e estratégia de desenvolvimento, em nome do nevoeiro populista. É por estas e por outras que os portugueses anseiam pelo dia em que o nosso país seja mesmo um protectorado de Bruxelas e Frankfurt, e uma delegação comercial e diplomática de Madrid.

sábado, fevereiro 05, 2011

O lóbi cavaquista de Alcochete

Ferreira Leite e Marcelo no road show do NAL. Na sua santa ignorância atacam o "TGV"



Estou cada vez mais convencido que o acordo entre o PS e o PSD sobre a viabilização do orçamento de estado de 2011 teve uma cláusula secreta sobre dois assuntos muito especiais: o chamado "TGV", e o NAL — novo aeroporto de Lisboa. Publicamente, havia que reanalisar tudo. Mas no recato das negociações deixaram-se portas entreabertas para o retomar destes dois dossiers à medida que a crise financeira amainasse.

O NAL esteve para nascer na Ota, mas a blogosfera derrotou tamanha idiotia e prova de corrupção. Agora, o poderoso lóbi partidário e financeiro do betão (que engloba figurões do PSD e do PS, construtoras e banqueiros agarrados à seca glândula orçamental do regime) teima na construção do desnecessário aeroporto de Alcochete, na forma de um três-em-um: quem ficar com a construção/exploração do novo aeroporto ganha as privatizações da ANA e da TAP para ajudar às despesas e assim erguer um monopólio! O negócio secreto pode pois resumir-se assim: o PSD deixaria passar o "TGV" agora, e o PS deixaria seguir, mais tarde, o novo aeroporto com tudo o que implica — por exemplo, a construção de uma segunda travessia ferroviária no estuário do Tejo, sem a qual o NAL se revelaria um descalabro financeiro imediato. O PSD manteve, porém, a sua linha de pressão e propaganda: atacar diariamente o "TGV". Esta espécie de insistência subliminar sobre a outra parte do possível acordo secreto negociado entre Eduardo Catroga e Teixeira dos Santos ganhou esta semana um pico de propaganda, na qual foram incluídas as vozes partidárias e mediáticas de Luís Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa e Manuela Ferreira Leite. Todos repetiram uma lição ensaiada!

Enquanto a ligação ferroviária em bitola europeia entre o Poceirão e Caia é assunto de estado reiteradamente decidido em duas cimeiras ibéricas, e já com cabimento financeiro comunitário assegurado, nada foi até agora decidido, antes pelo contrário, a propósito do novo aeroporto de Lisboa e das privatizações da TAP e da ANA. Por outro lado, o fiasco do concurso público internacional para a construção da TTT acabou no adiamento oficial da iniciativa. No entanto, a reeleição presidencial de Cavaco Silva, apesar de medíocre, parece ter lançado fogo no rabo laranja do NAL (claro que Jorge Coelho e a Mota-Engil também torcem pelo festim). Marcelo defendeu a meio da semana a lição decorada sobre a interessante ideia de dar a TAP e a ANA a quem construir o futuro aeroporto —imaginem que eram os espanhóis, ou os beduínos do Qatar! No Expresso desta semana Ferreira Leite atacou uma vez mais o "TGV", exibindo completa ignorância sobre o tema, como aliás é timbre da maioria dos agentes partidários, economistas e jornalistas.

Todos, sem excepção, ignoram que a principal vantagem competitiva da nova linha em bitola europeia entre o Poceirão e o Caia não é, nem a alta velocidade, nem o transporte de passageiros (e por isso a alcunha "TGV" é mal aplicada e enganosa), mas sim o transporte de mercadorias entre os portos atlânticos portugueses de águas profundas —Lisboa, Setúbal e Sines— e toda a Europa, a começar por Espanha. Estes portos estão actualmente ligados a Espanha por vias férreas em bitola ibérica, o que está bem para ligar a rede ferroviária portuguesa à rede ferroviária espanhola, mas dificulta o transporte de mercadorias para França e resto da Europa, onde os comboios circulam, precisamente, sobre carris afastados entre si segundo uma bitola mais estreita (bitola europeia, bitola internacional ou bitola UIC).

Se no caso do transporte de passageiros esta dificuldade pode ser superada sem grande perda de tempo, recorrendo a rodados com eixos telescópicos, já no caso dos comboios de mercadorias tal expediente é impossível. Por exemplo: um comboio com 750 metros de comprimento, carregado com os novos automóveis da Volkswagen, não pode sair da Autoeuropa e chegar a Milão, Paris, Londres, Berlim ou Moscovo. E vice-versa, sem uma linha ferroviária de bitola europeia até ao Poceirão, mas também até aos portos de Setúbal e de Sines, será sempre impossível aos fabricantes alemães, italianos, franceses ou mesmo ingleses optarem pelos nossos portos atlânticos para despacharem alguns dos seus modelos automóveis para África, América do Sul ou Ásia (neste caso, através do Canal do Panamá, cujo alargamento estará pronto em 2014).

Mas mais: o próprio transporte de mercadorias em contentor, a forma dominante de transporte de objectos de um país para outro, e de uma região ou cidade para outra, sairá seriamente prejudicado se for necessário mudar os ditos contentores de comboios de bitola ibérica para comboios de bitola europeia e vice-versa (o grande negócio alfandegário que Jorge Coelho e a Mota-Engil querem montar no Poceirão), na medida em que tais manobras tomam tempo e trabalho, gerando sobre-custos na ordem dos 30%, além de uma diminuição drástica nos fluxos de mobilidade, e por conseguinte quebras brutais nos volumes totais de mercadorias transportadas.

Resumindo: se Portugal ficar desligado da rede europeia de transporte ferroviário de mercadorias, toda a vantagem económica da nossa frente atlântica sairá criminosamente diminuída. Num tal cenário os europeus desviarão o tráfego marítimo mais importante para Algeciras e Huelva, subalternizando os nossos portos de Sines, Setúbal e Lisboa.

No momento em que a costa portuguesa e a nossa Zona Económica Exclusiva se encontram numa posição praticamente equidistante dos principais eixos do crescimento mundial (Alemanha, Brasil, China-Ásia e África ocidental), rasgar os acordos oficialmente celebrados com Espanha, que são do evidente interesse de ambos os países, em nome da obscura e néscia cobiça de uma corja de empresários e financeiros corruptos assistidos por intelectuais orgânicos, no mínimo tontos, seria provavelmente o acto mais cretino da política económica portuguesa desde a queda da ditadura.

Mas o que verdadeiramente me espanta é a gente que durante toda esta semana montou mais esta operação de propaganda agressiva contra o "TGV" ser a mesma gente serviçal, atenta e obrigada do senhor que anda há mais de um ano a defender a importância do mar para o futuro de Portugal. Mas qual é afinal a importância do mar para o presidente e fraco caudilho Aníbal Cavaco Silva? Em que pensa este senhor quando pensa no mar? Nos nossos portos, no controlo aéreo e marítimo da ZEE? Na oceanografia? Ou nos problemas do senhor Fernando Fantasia e nos quatro mil hectares que este comprou em Alcochete por 250 milhões de euros para especular com um aeroporto que não será tão cedo, se que é que algum dia será?

Por fim, o vídeo que acompanha este texto mostra como comboios de mercadorias e transporte rodoviário se articulam de modo expedito. Com o aumento imparável do preço do petróleo, e por conseguinte de todos os combustíveis líquidos, esta articulação será cada vez mais crítica para a viabilidade das economias. Ferrovia e construção naval regressarão muito em breve ao centro das prioridades estratégicas das economias. Se o senhor Aníbal, o senhor Marcelo e a senhora Manuela sabem algo que nem eu nem o resto dos portugueses sabem a este respeito, façam o favor de nos explicar.

A chave comunista da crise

Governo PS tem mesmo os dias contados!
Se me chamasse Manuel Maria Carrilho, avançaria sem hesitação contra Sócrates no próximo congresso fantasma do PS — em nome do Socialismo, claro.

Jerónimo de Sousa avança que o PCP viabilizaria uma moção de censura apresentada pela direita.
Dependendo do conteúdo apresentado, Jerónimo de Sousa assume que o PCP viabilizaria uma moção de censura apresentada pela direita. O secretário-geral do PCP, em entrevista à jornalista Maria Flor Pedroso, justifica que não concorda com a política seguida pelo atual governo — TV2, 2011-02-04 16:49:40.

A pergunta da política portuguesa que vale mil milhões de euros é esta: qual a geometria parlamentar necessária para aprovar uma moção de censura ao desgoverno do Pinóquio? Durante vários meses apostei na continuidade da actual legislatura, ao presumir que comunistas, ex-maoistas, ex-comunistas e ex-trotskistas (ou entristas), em suma o PCP e o BE, jamais votariam favoravelmente uma moção de censura promovida pelo PSD. Esta suposição foi e tem sido também, suponho, a convicção do estado-maior da tríade de piratas que capturou o PS e o país há já quase uma década. Mas Jerónimo de Sousa acaba esta noite de surpreender o país e de me dar uma lição de estratégia. Touché!

Eu presumia que nem o PCP nem o Bloco se atreveriam, nas actuais circunstâncias, a propor uma moção de censura ao governo, apesar de todas as patifarias que este continua a fazer, tal o receio de a mesma ser aprovada pelo PSD e pelo CDS! Escapou-me, porém, um facto importante: a aliança de Louçã com Alegre foi fatal ao Bloco, pelo que uma queda do actual governo e eleições antecipadas poderão fazer evaporar o albergue mao-trotskista, reforçando, por outro lado, a votação no PCP de Jerónimo de Sousa, uma personalidade inegavelmente simpática. E, como diz o líder dos comunistas, no que diz respeito ao poder, pior do que Sócrates, não há! Aliás, muito do que Paulo Portas e Passos de Coelho têm vindo a sugerir como rumo para o país nesta crise catastrófica fica bem aquém da fúria anti-social e neoliberal do actual governo. A direita tem, pelo menos, vergonha patriótica. Coisa que o parvenu Sócrates nem sonha o que seja.

Debater para agir

Insinuar agora que o que eu penso e digo se deve a qualquer ressentimento ou episódio recente, como há dias fizeram Almeida Santos e o "comité" de recandidatura de José Sócrates à chefia do PS, é, na verdade, indigno. E só refiro esse episódio porque é curioso recordar que, se o meu afastamento da UNESCO teve por motivo próximo a publicação do meu livro E agora? e a entrevista que então dei ao Expresso, o motivo de fundo foi o de eu ter argumentado até ao limite, nas eleições para a liderança daquela organização, contra o apoio do nosso país à candidatura de uma figura de proa da ditadura egípcia, cujos méritos, então muito elogiados por José Sócrates, todos temos nestes últimos dias observado em directo...

(…) A crise que o País vive deve-se em boa parte às opções do Governo nos últimos dois anos e meio. Reconhecê-lo é, por mais desconfortável que seja, um acto de responsabilidade política elementar. Essas opções não foram nunca realmente discutidas no âmbito do Partido Socialista, que tem sido dirigido numa lógica de facto consumado, por um pequeno grupo de profissionais do poder, cuja eficácia - ainda que "danosa" - não se deve desvalorizar, a julgar não só pelo modo como subjugaram o partido mas também pela maneira como fizeram do País seu refém.

(…) Sem ideias e sem debate iremos sentir até ao fim os efeitos desastrosos desse cocktail fatal de que já falava Maquiavel - a mistura da obsessão do poder com os efeitos da ignorância. E depois de um tal fim, a ressaca será à sua medida. Os militantes livres do Partido Socialista deviam começar a pensar nisto — Manuel Maria Carrilho in DN online, 2011-2-3.

Pelo que já escreveu e disse, Manuel Maria Carrilho pode muito bem vir a ser a única alternativa imediata ao fim político de José Sócrates e da sua camarilha, que se aproxima agora a passos largos. Eu se fosse pedreiro-livre começaria a pensar seriamente neste candidato. E se fosse a alma danada de Jorge Coelho, não o deixava dormir, atordoando-o todas as noites com o sussurro: "o mundo mudou! acorda!"

Vitalino Canas, curiosamente um dos figurões da tríade de Macau, desafiou Manuel Maria Carrilho a candidatar-se contra Sócrates: "Carrilho podia personificar alguma divergência interna do PS" (Público, 2011-02-2).

Podemos interpretar a iniciativa como uma provocação destinada a legitimar a farsa eleitoral do próximo congresso "socialista", numa altura em que estas farsas estão a meter água em toda a parte. Mais: a provocação pode até visar um efeito duplo: impedir que Sócrates seja visto como uma espécie de caricatura local de Mubarak, ao mesmo tempo que a prole partidária de Sócrates se encarregaria de cortar a cabeça de Carrilho durante o conclave, adiando para as calendas gregas a sucessão de Pinóquio à frente do esquizofrénico PS. Mas também é razoável pensar, em sentido contrário, que o instinto de sobrevivência tenha começado finalmente a agitar os neurónios dos mais aptos, e que neste caso, a hipótese Carrilho comece a surgir, no mínimo, como uma reserva não negligenciável do Partido Socialista. Até porque ninguém pode garantir que um próximo governo liderado por Passos de Coelho dure mais de dois anos!

Os actuais candidatos internos à sucessão de Sócrates, António José Seguro e Francisco Assis, são manifestamente imberbes e temerosos para desafiar o sem vergonha que neles manda. Outra limitação destes simpáticos turcos, é serem praticamente desconhecidos dos portugueses. Na verdade, o melhor que têm a fazer é colaborar com Manuel Maria Carrilho na busca de uma plataforma robusta para substituir rapidamente José Sócrates e a sua máquina pretoriana. O próprio Sérgio Sousa Pinto deveria fazer um risco no chão e estudar este cenário.

Quando Manuel Maria Carrilho afirma ao Público: "Precisamos de uma nova República, e se calhar de um novo PS", não poderia ser mais claro e programático.

Quer no livro há meses publicado (E Agora? Por Uma Nova República), quer no mais recente artigo publicado pelo Diário de Notícias, este antigo ministro da cultura (que muitos recordam com saudade), demonstra possuir alguns atributos essenciais a um político com ambições primo-ministeriais: experiência governativa, ideias claras, determinação, cultura e coragem. Falta-lhe o aparelho do PS? Faltam aliados entre as sensibilidades da rosa? Pois é bom que estes comecem a mexer-se e a olhar seriamente para as alternativas disponíveis no curto e médio prazo. A ausência de uma resposta ao indigente José Sócrates significará provavelmente o colapso do próprio PS. Se julgam que a história parou, olhem para o Egipto!

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

O lobista Marcelo

Lóbi SLN-NAL de Alcochete volta ao ataque
Marcelo Rebelo de Sousa: de comentador a lobista



Marcelo: "A venda da TAP deveria ser feita com o novo aeroporto"

A privatização da companhia aérea de bandeira deveria ser concretizada em simultâneo com a privatização da ANA e com o novo aeroporto, defendeu hoje Marcelo Rebelo de Sousa, à margem do o 4º Salão de Viagens e Negócios.

O professor, depois de ter discursado para uma plateia ligada ao turismo e às viagens, alertou para a importância de vender a TAP em “pacote” com o novo aeroporto. No entanto, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu ter duvidas se este é o momento certo para o fazer. “. O que eu não gostaria é que negociássemos encostados à parede”, acrescentou — Jornal de Negócios.

Uma companhia de aviação falida não se salva metendo-a num pacote dois-em-um (1), como o lóbi cavaquista da SLN quer impor, ajudado agora pelo Professor Pardal do PSD —um personagem que em qualquer democracia decente há muito teria sido obrigado a optar na sua carreira, entre putativa gelatina política, professor, consultor, jornalista, coscuvilheiro, ou pequeno golpista de televisão, a sua inclinação mais recente...

O que os lobistas capitaneados pelo amigo de infância de Cavaco Silva, Fernando Fantasia (2), querem é muito simples: imputar os custos da falência técnica da TAP ao felizardo que ficar com a construção do novo, desnecessário, e fruto de crime económico descarado, aeroporto de Alcochete.

Mas perguntar-se-à: e haverá quem esteja interessado? Sim, se, como está previsto no estratagema dos piratas e banksters que estão por trás deste crime estratégico, económico e ambiental, conseguirem empolar o custo total do futuro aeroporto, o que já fizeram! Aumenta-se artificialmente o custo do aeroporto, e com a marosca compra-se a TAP!

Portanto: o que o senhor Marcelo Rebelo de Sousa acaba de fazer ao dizer o que disse, onde disse, e como disse, faz dele um lóbista do NAL em Alcochete, com tudo o que isso implica de apoio a um projecto não apenas desnecessário, mas sobretudo ruinoso e ferido de potenciais crimes económicos, financeiros e ambientais.

É evidente que o lóbi cavaquista da ex-SLN iniciou uma manobra desesperada para "salvar" o dinheiro (sabe-se lá vindo de onde) que enterrou nos terrenos de Alcochete. Temem duas coisas que vão ocorrer inevitavelmente:
  1. a entrada da Alemanha, Reino Unido e Espanha nas rotas Europa-Brasil, pondo em cheque a actual posição dominante ilegal que a TAP ocupa neste tráfego (o gaúcho Fernando Pinto já deve estar muito activo no mercado de transferências!);
  2. e a demonstração plena de que a Portela não está saturada em nenhum dos pontos de bloqueio que poderiam contribuir para tal:
    • há e haverá cada vez mais slots disponíveis no aeroporto (3); 
    • o fecho da CRIL, em abril deste ano, retirará dezenas de milhar de automóveis da 2ª Circular, colocando a Portela ainda mais perto de qualquer ponto da cidade; 
    • a inauguração da estação de metro do aeroporto (sobre cujo atraso de mais de seis meses a administração do Metro deve explicações ao país!) fará da Portela um aeroporto ainda mais competitivo e pontual, muito à frente da maioria dos aeroportos europeus!
Novo aeroporto não estará pronto a tempo de evitar perdas (Económico)

    O aeroporto da Portela está a apenas quatro anos de atingir o ponto de saturação, apontado para os 17 milhões de passageiros por ano. A manter o ritmo de crescimento registado em 2010, o aeroporto da capital irá, assim, começar a perder eficiência e qualidade de serviço antes de estar pronto o novo aeroporto, previsto para o Campo de Tiro de Alcochete, com a entrada em funcionamento inicialmente agendada para 2017 — Económico.

O embuste escondido nesta propaganda é completo: a Portela não vai esgotar, nem em 2017, nem em 2030. E o mau serviço já existe há anos, por intenção criminosa do Bloco Central do Betão e da Corrupção, que apostou na degradação dos serviços para assim justificar a corrupção da Ota, e agora a corrupção de Alcochete.

A prova do algodão da sustentabilidade da Portela existe (3) e é bom que os dirigentes partidários e políticos com ambições comecem a estudar este dossier explosivo. Não nos esqueçamos que um dos buracos que levou ao colapso da Grécia foi precisamente o pacote viciado dos Jogos Olímpicos mais novo aeroporto de Atenas. A companhia grega de aviação foi imediatamente à falência em consequência desta enormidade!

A Portela não está esgotada, nem vai esgotar nunca, sobretudo se o petróleo continuar a subir, como será inexoravelmente o caso. Em 2030, o mais provável é o tráfego aéreo regressar aos níveis da década de 1960!

NOTAS
  1.  Na realidade, o que este lóbi quer é um três-em-um: privatização da ANA (com venda dos terrenos da Portela incluída)+novo aeroporto de Alcochete+TAP!
  2. Foi ele quem comprou 250 milhões de euros de terrenos em Alcochete quinze dias antes de Sócrates ter anunciado que desistia da Ota.
  3. Prova do algodão sobre a mentira do lóbi SLN-NAL de Alcochete
    • consultar o sítio internacional de Slots aeroportuários em www.online-coordination.com
    • entrar em "Runway Availability" e seleccionar "Week"
    • na caixa "Country" escolher "Portugal" 
    • em "Airport" escolher LIS
    • em "Week containing" escolher a data, por exemplo correspondente a esta semana: "31JAN"
    • ver slots na Portela e comparar com Heathrow que é LHR  (London Heathrow). Os rectângulos mostram os SLOTS disponíveis; os rectângulos verdes mostram situações de máxima disponibilidade de SLOTS (VAZIOS!); os rectângulos vermelhos mostram SLOTS saturados, i.e. sem intervalos disponíveis para descolagem/aterragem.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Tempos de ira

O Egipto não está assim tão longe.... 




A minha equação é esta: quando os avós virem as suas reformas perder 30, 40, 50% do poder compra que tinham em 2007 e os pais entrarem no exército do desemprego de longa duração, os netos que hoje vivem em casa dos pais ou dos avós, sairão à rua... e aí creio que os avós, pais e netos expoliados, desiludidos e furiosos deste país farão uma nova revolução. Os que hoje monopolizam a cena pública irresponsavelmente, sem uma réstia de ética, nem ponta de coragem —do parlamento às televisões, rádios e jornais; das secretarias de estado aos municípios e agências governamentais; dos bancos e oligopólios públicos e privados encostados à democracia burocrática e populista que se foi instalando nos últimos trinta anos— não digam, quando este tempo de ira chegar, que não sabiam, nem foram avisados. Estão avisados!



Paulo Portas é um homem inteligente agarrado a uma causa serôdia. Não percebeu, durante muitos anos (lembro-me do tempo em que eu escrevia no Independente e nos mantínhamos a uma cordial distância), que ser conservador em Portugal meio século depois de um regime defensivo, anti-democrático e culturalmente reaccionário que acabaria por cair de podre no momento em que julgou poder "liberalizar-se", não implica abraçar os fantasmas da segurança e do moralismo reaccionário e hipócrita dos tempos clericais e monárquicos. Bastava olhar para a Holanda, ou para o Reino Unido, digo para os partidos conservadores desses lugares, para perceber que não só é possível, como aliás é vital para a sobrevivência da democracia, a existência de uma direita laica e arejada no nosso país. Sem uma direita pragmática, ideológica por razões de estratégia e não por empenhos de conveniência, construtiva e aberta à sociedade, o resultado foi o que está à vista: a ocupação burocrática da democracia por um bloco central de interesses, estúpido e ganancioso, apoiado nos cadáveres surrealistas de Marx.

Mas depois do que Paulo Portas disse a Mário Crespo no dia 31 de Janeiro, o debate político vai necessariamente mudar. Por um lado, o buraco do nosso endividamento é pela primeira vez reconhecido sem subterfúgios por um líder partidário. Por outro, Portas reconhece, também pela primeira vez, que sem uma abertura dos partidos à sociedade democrática que vive e sofre fora do círculo protegido pela nomenclatura partidária (65% do eleitorado!), o regime corre sérios riscos de explodir — e não num horizonte demasiado longínquo. Quando fala de uma "sociedade pós-partidária", Paulo Portas revela sensibilidade política. Resta-lhe daqui em diante arrumar as ideias num programa claro, realizável e sem teias no sótão cultural, impeditivas, como está completamente provado, de uma maior adesão popular ao crescimento deste partido.

Mas o mais importante desta entrevista é a sua proposta da reforma do regime. Que pensam Manuel Maria Carrilho, António José Seguro ou Francisco Assis, disto? Que pensa Pedro Santana Lopes desta ideia? Será aceitável, do ponto de vista democrático, assistirmos à entronização do senhor Sócrates no próximo congresso do PS? Que autoridade poderá depois invocar qualquer socialista que agora nada faça para desafiar o pedestal de onde inevitavelmente cairá o actual e imprestável líder "socialista"? E poderá o PP crescer rapidamente sem o PPD de Santana Lopes?

Quando vejo o Mubarak resistir à sua saída do poleiro, o fantasma da política portuguesa e sobretudo a figura cada vez mais caricata de Sócrates surgem inevitavelmente como sombras projectadas de um futuro mais previsível do que queremos e tememos.