sexta-feira, abril 30, 2010

Portugal 187

Obras públicas: a explicação do ping-pong


Basta ver os gráficos deste estudo de 2009 do departamento americano de energia (PDF) (1), para se perceber que em 2017 autoestradas e aviões não serão certamente as melhores opções de transporte!

Cavaco quer reponderar grandes obras

"Eu entendo que faz sentido reponderar todos aqueles investimentos, públicos ou privados, na área dos bens não transaccionáveis, que tenham uma grande componente importada, isto é, que utilizem pouca produção nacional e que sejam capital intensivo, ou seja, que utilizem pouca mão de obra portuguesa" (2), sustentou. — Cavaco Silva dixit in DN, 30-04-2010.

O professor de finanças do ISEG, Cantigas Esteves, disse hoje à SIC-N que 25% do crédito bancário nacional está afectado ao sector das obras públicas, ou seja, há uma espécie de simbiose oportunista entre bancos (BES, BCP, Caixa Geral de depósitos, etc.), grandes construtoras (Mota-Engil, Teixeira Duarte, Somague, etc.) e Estado, cujo invólucro se chama Bloco Central.

Quer isto dizer que, se se anunciar o corte liminar do programa de obras públicas em curso, os construtores ficarão sem argumentos para voltarem a endividar-se —em primeiro lugar, para pagar dívidas vencidas ou a vencer proximamente, e em segundo, para preencherem e validarem a sua carteira de obras. O resultado de semelhante paralisia seria, como foi e voltará a ser, a destruição do seu valor em Bolsa e o aumento exponencial dos juros em futuros empréstimos, bem como dos prémios de risco a pagar a quem segurar operações de investimento nestas circunstâncias.

Por outro lado, se o tal programa de obras públicas for interrompido, os bancos ver-se-ão na contingência de não cobrar os créditos vencidos e a vencer proximamente dos seus clientes empreiteiros (nomeadamente da Mota-Engil).

Ora como o volume em causa é descomunal, as notações dos bancos envolvidos (nomeadamente do BES e do BCP) seriam gravemente afectadas — como aliás já foram. Por sua vez, a degradação do rating dos bancos pode ser fatal para o incesto económico-financeiro existente entre o Estado capturado pelo Bloco Central, os empreiteiros do Bloco Central e os bancos do Bloco Central, que entre si decidem, desenham e validam todo o tipo de negócios e tropelias ao interesse comum, à natureza e à própria racionalidade económica.

A drástica revisão em baixa da notação do BCP, que desde o assalto de que foi vítima pela tropa de choque da tríade de Macau, vive de sucessivos apoios financeiros dissimulados por parte do banco público (CGD), produziu entretanto um efeito indesejável para a nomenclatura que há anos arruína o país, i.e., deixou de poder avalizar operações de outros bancos! Ou seja, o que a crise bolsista e a decisão do Standard & Poor's já conseguiram foi cortar um dos cordões umbilicais da hidra tribal que há anos manipula o nosso regime político. Fizeram pois mais numa semana do que o PCP e o Bloco de Esquerda fizeram nas suas dogmáticas e imprestáveis vidas partidárias.

Percebe-se agora a dificuldade, e o comportamento das araras governamentais, a catatonia presidencial e as contradições entre Passos Coelho e Paulo Rangel. Se anunciam o fim das "grandes obras", sem mais, os mercados atiram com as construtoras para o lixo, ou comem-nas ao pequeno-almoço (como sucedeu à Cimpor — uma cimenteira do mesmo ninho de interesses.) Se, por outro lado, insistem que vamos ter TGV, aeroporto, autoestradas e barragens, os detentores estrangeiros de 74% a 85% nossa dívida pública (!) fazem disparar os juros da mesma e ameaçam bloquear o acesso de Portugal a novos empréstimos soberanos, com isso arrastando imediatamente a banca portuguesa para a falência, e o país para o caos social.

Este é o dilema que temos vindo a viver, que a polémica em volta das "grandes obras" traduz sem revelar, e que obriga os distintos actores do drama em curso —banqueiros, construtores, governantes e partidos políticos— a rodopiarem como baratas tontas numa sertã com azeite a escaldar.

É claro que a EDP, dirigida pelo petulante Mexia, com os seus mais de 18 mil milhões de euros de dívida acumulada, no fim da presente crise será tudo menos portuguesa. Nessa altura chamá-lo-emos a devolver os prémios e as mordomias, com juros!

Já pouco depende de nós. Mas o pouco ainda assim é importante. É preciso rejeitar e depois substituir o actual regime político. Por outro regime democrático, certamente. Mas prendendo primeiro o bando de ladrões e de incompetentes que até agora nos tem arruinado.


NOTAS
  1.  US military warns oil output may dip causing massive shortages by 2015
    By Terry Macalister, guardian.co.uk, Sunday 11 April 2010 18.47 BST

    • Shortfall could reach 10m barrels a day, report says
    • Cost of crude oil is predicted to top $100 a barrel

    "By 2012, surplus oil production capacity could entirely disappear, and as early as 2015, the shortfall in output could reach nearly 10 million barrels per day," says the report, which has a foreword by a senior commander, General James N Mattis.

    Energy minister will hold summit to calm rising fears over peak oil
    guardian.co.uk, Sunday 21 March 2010 19.36 GMT

    Amrita Sen, an oil analyst at Barclays Capital, believes the price of crude could pass $100 this year and reach nearly $140 by 2015. Francisco Blanch, of Bank of America Merrill Lynch, has speculated it could hit $150 within four years.

    2010 Oil Crunch Report
    By Industry Task force on Peak Oil & Energy Security

    The credit crunch of 2008 foreshadowed major economic, political and social upheaval. It stress- tested the responses of governments, policy-makers and businesses to the extreme. If only there had been greater time to prepare for its impact and a greater level of understanding about the issues. The next five years will see us face another crunch - the oil crunch. This time, we do have the chance to prepare. The challenge is to use that time well. (LINK)

  2. Cavaco Silva prefere o novo aeroporto e até uma ou outra estrada mais (para completar a rede nacional de autoestradas e respectivas ligações à rede de estradas nacionais e principais localidades do país) ao plano ferroviário de alta velocidade.

    Do ponto de vista económico, não faz sentido algum.

    Em primeiro lugar, porque os transportes rodoviário e aéreo dependem de uma fonte energética em declínio (ver notícia sobre a catástrofe ambiental no Golfo do México), cada vez mais cara, e geradora da nossa maior dependência económico-diplomática externa.

    Em segundo lugar, porque a introdução crescente de portagens rodoviárias e de taxas aeroportuárias a la carte (na Ryanair paga-se por cada embrulho transportado, e em breve até para ir à casa de banho — só falta exigir dos passageiros que limpem o avião antes de abandonarem a cabine!) revelam claramente o encarecimento objectivo destas opções de mobilidade.

    E em terceiro lugar, porque este género de aposta no emprego local reflecte uma visão medíocre da nossa economia, na medida em que destaca o trabalho não qualificado e promove um tipo de efeito reprodutor na economia pobre e transitório.

    Pelo contrário, uma aposta na rede ferroviária de bitola europeia, para transporte ferroviário de passageiros, em alta velocidade ou velocidade elevada, e de mercadorias, em velocidade moderada, além de integrar Portugal na rede comunitária de transporte ferroviário, permitiria, se bem negociado com Espanha, França, Alemanha, Canadá e Suíça (países cujas tecnologias servem à partida o mix tecnológico do paradigma de transporte ferroviário internacional, interurbano, suburbano e citadino), a criação dum novo cluster industrial e pós-industrial no nosso país, com pontes possíveis ao novo cluster da economia do mar (a criar urgentemente!)

    O transporte automóvel individual movido a petróleo e gás natural, ou a biodiesel, está condenado, ou pelo menos vai reduzir-se drasticamente no prazo de uma década ou menos. A ferrovia, o teletrabalho e a substituição das economias de crescimento intensivo por economias e cidades sustentáveis, são os novos paradigmas em formação. Iremos muito em breve mudar o nosso estilo de vida, quer queiramos quer não. Aos políticos cumpre ver o futuro próximo e agir em conformidade, sob pena de condenarem os povos que dirigem ao insucesso.

    Resta, pois, uma explicação para a aposta de Cavaco Silva, e de muitos outros estrategos domésticos: travar os planos da Espanha relativamente ao nosso país, com o argumento, aliás certeiro, de que o transporte de mercadorias em bitola europeia não chegará a França antes de 2020 —pelo que o principal beneficiado da estratégia ferroviária ibérica seria, no imediato, a Espanha, continuando Portugal longe da Europa além Pirinéus. Como não podemos investir em tudo ao mesmo tempo, a prioridade portuguesa transitaria, por assim dizer, da nova ferrovia para os portos marítimos e os aeroportos. Dada a histórica e persistente resistência (cultural e estratégica) da Espanha ao consumo dos nossos produtos, e o previsível retorno a Portugal de dezenas/centenas de milhar de emigrantes portugueses que permanente ou intermitentemente trabalham em Espanha, não vejo como rejeitar a posição presidencial, cujos contornos são de natureza sobretudo política.

    Quando a Espanha estiver efectivamente ligada ao resto da Europa por vias ferroviárias em bitola europeia, continuará certamente interessada em chegar aos portos de mar portugueses. Então, também nós teremos o maior interesse em fazer parte da nova rede ferroviária ibérica. Trata-se, pois, no fundo, de uma correcção na ordem de prioridades. Não de abandonar uma coisa por outra!

OAM 694—30 Abril 2010 22:56 (última actualização 4 Maio 2010 17:06)

Portugal 186

I love this girl!

Actualmente, 74% da dívida pública portuguesa é detida por não-residentes; mas, nem sempre foi assim. Pergunta-se: se os portugueses (que podem) não compram dívida pública portuguesa, porque hão-de comprá-la os estrangeiros? — Cristina Casalinho, Jornal de Negócios Online.

Cristina Casalinho escreveu com a precisão e elegância que a caracteriza o que aqui temos escrito e rescrito há uns meses a esta parte. Parabéns!

Aqui vão os pontos de vista coincidentes:
  1. A dívida pública portuguesa deixou de ser controlada por nós, e quem detêm 75% ou mais da dita, não vai deixar de exigir o seu pagamento a tempo e horas, e com juros e prémios de risco ajustados a uma nova e mais minuciosa percepção do estado calamitoso da nossa economia e das nossas finanças públicas; a bolha das dívidas soberanas rebentou, reparar os imensos estragos vai ser tarefa árdua, para toda uma década, e os elos mais fracos da cadeia especulativa mundial serão os primeiros a partir;
  2. Finalmente começou a falar-se de Dívida Externa Bruta, em vez da ficção do Banco de Portugal
. A dita "posição externa líquida", ou "dívida externa", como costumam chamar-lhe erradamente os nossos sempre aluados economistas mediáticos, é uma falácia, pois se os angolanos não pagarem às nossas empresas, a nossa dívida aos alemães não desaparece por milagre! Alertámos vezes sem conta, nos últimos três anos, para o facto de as referências mediáticas que insistiam invariavelmente no défice público, esquecendo sempre o problema da Dívida Externa, ser o erro mais crasso da avaliação "profissional" e "política" da nossa real situação económico-financeira;
  3. A subida do IVA é inevitável e já deveria ter ocorrido. Os suecos pagam 25% —pagam mesmo—, e não se queixam; antes pelo contrário, gozam de uma excelente rede de segurança social, que precisamente revela todo o seu potencial positivo em crises agudas como a actual;
  4.  O nosso Estado engordou devido ao eleitoralismo, incompetência, endogamia e corrupção da nomenclatura partidária que há 35 anos despedaça a poupança portuguesa conseguida à paulada pela ditadura. E agora? Será que os idiotas da actual democracia ainda acreditam que esta pode sobreviver sem poupança interna? Ainda defenderão a aberração teórica (a la Keynes) do crescimento do PIB pela via prioritária e sem portagem do consumo? Acham os distintos professores de economia (que infelizmente não estudam História) que os portugueses podem continuar a encomendar Mercedes, BMWs e Audis, brincar nas praias de Cancun, e encher os Shoppings do Belmiro, à custa da poupança alheia, nomeadamente chinesa e alemã? Pois não — não podem!

    A solução aqui proposta há mais de dois meses, e agora elegantemente sugerida por Cristina Casalinho —transformar os subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos (ou pelo menos, parte destes subsídios) em certificados de aforro, durante alguns anos (até 2014, ou mesmo 2015)— seria uma medida justa e proporcionada, atendendo nomeadamente ao facto de que têm sido até agora os trabalhadores do sector privado que têm suportado o grosso da crise — seja porque perderam e perdem todos os dias os seus empregos (e casas!), seja porque vêm renegociadas as suas condições de trabalho de forma prepotente e humilhante (chegando a perder mais de metade dos honorários, ou em opção, permitindo que o seu posto vá parar a alguém mais jovem ou financeiramente desesperado, como sucedeu recentemente no Museu de Serralves — um exemplo que me foi relatado há algumas semanas atrás.)
Faltou a Cristina Casalinho acrescentar a importância de controlar também os prémios dos altos executivos das grandes empresas, e uma mais agressiva taxação dos dividendos e dos lucros. Os primeiros devem ser sujeitos a um plafond imposto pelo Estado, e a segunda deve ser imposta onde não exista, e aumentada onde já exista. Só assim haverá equidade na Política. Mas devo aceitar que seria exigir demais de uma jovem e distinta economista ao serviço do BPI.


POST SCRIPTUM — Não percebo porque nem o PCP, nem o Bloco, querem discutir a sério como vão os funcionários públicos portugueses partilhar parte do custo da actual crise financeira.

Transformar, por exemplo, 50% dos subsídios de férias e de Natal de 2010, 2011, 2012 e 2013 em certificados de aforro, com maturidades de 3 anos, seria ou não mais inteligente, mais solidário e menos gravoso, do que recusar toda e qualquer medida viável, em nome da mais sórdida demagogia eleitoralista, tendo como consequência inevitável a continuação do ataque actualmente em curso e irreversível aos benefícios sociais adquiridos?

O ataque sem precedentes que neste momento o governo de piratas do Bloco Central desencadeou contra os trabalhadores desempregados (que raramente são funcionários públicos) e contra os reformados é também da responsabilidade conivente do PCP e do dito Bloco de Esquerda. Não tentem, pois, fingir que não contribuem para este problema. Sois igualmente responsáveis!

Tal como os partidos do Bloco Central, também o PCP e o BE olham apenas para o peso eleitoral do funcionalismo público, do onde aliás, em boa medida, provêem!


OAM 693—30 Abril 2010 19:13

Portugal 185

Grécia corta 13º e 14º meses aos funcionários públicos

Por cá, talvez chegue transformar metade destes subsídios em poupança forçada, sob a forma de certificados de aforro não cobráveis antes de 2014.

Entretanto, há que investigar o que andam os piratas do Bloco Central a fazer com o sobe-e-desce do PSI 20!

E há que exigir de Sócrates que explique ao país para onde foram os 300 milhões de euros que usou para recomprar dívida soberana previamente emitida. A quem recomprou esta divida? Qual foi exactamente a operação? Exigimos transparência!

O senhor Joe Berardo, tal como o BCP, já para não mencionar os escândalos do BPN e do BPP, têm sido objecto de sucessivas operações de resgate dissimulado (nomeadamente via Caixa Geral de Depósitos), ao mesmo tempo que o banco público executa hipotecas a centenas/milhares de famílias que deixaram de cumprir com os seus compromissos. Não pode haver uma lei para os testas de ferro e para os bancos, e outra para o comum dos cidadãos.

A continuarmos por este caminho, não se admirem os partidos da actual nomenclatura se um dia destes alguém exigir o regresso à ordem! A democracia não pode ser uma desculpa para a institucionalização de um Estado mafioso.


POST SCRIPTUM —  O Bagão Félix engasgou-se. Porquê? No lugar de ministro das finanças passámos a ter uma banana. Porquê?


OAM 692—30 Abril 2010 17:48

quinta-feira, abril 29, 2010

Portugal 184

De bluff em bluff até à bancarrota final

"Adjudicação da Pinhal Interior prevista para esta semana" — Jornal de Negócios Online

"Contrato da Pinhal Interior foi assinado hoje" — Jornal de Negócios Online

    1.    O Estado português desembolsou hoje 300 milhões de euros, recomprando a sua própria dívida soberana —uma loucura completa sobre a qual nenhum dos nossos economistas se interrogou!— com o único objectivo de salvar alguns bancos portugueses, nomeadamente o BCP (que hoje viu mudar de mãos mais de 150 milhões de acções!) e... o BES. Mas amanhã, depois de amanhã, e na próxima Segunda-Feira, perante o a manutenção do ataque inglês e americano à divida soberana portuguesa, o qual se estenderá amanhã a Espanha e possivelmente à Irlanda, como vai ser?
    2.    Sócrates e Passos Coelho nem falaram das grandes obras. Sabem porquê? Para manter o bluff de que haverá crescimento e projectos para algumas das mais endividadas construtoras do burgo, com a Mota-Engil à cabeça.

Sucede, porém, que os mercados estão informados!

Por outro lado, o braço de ferro entre a moeda americana (que leva atrelada a libra inglesa) e o euro, não terminará o assalto em curso antes do próximo dia 9 de Maio, data em que a chanceler Angela Merkel saberá finalmente se o seu governo vai mesmo ao charco, como as sondagens das próximas eleições regionais na Renânia do Norte-Westfália prevêem, ou se aguenta (1).

Outro momento crítico no decurso do actual assalto anglo-americano ao euro-marco ocorrerá no próximo dia 6 de Maio, quando se souber que coisa irá substituir o actual governo trabalhista de péssima memória.

No fundo, Portugal está a resistir como pode. Mas pode pouco!

Imaginem um carro a grande velocidade numa autoestrada Sem Custos para o Utilizador (SCUD) que, de repente, perdeu os travões. Por mais que o condutor guine o volante, ou tente meter a marcha atrás, e o pendura de ocasião revele solidariedade, a verdade é que deixou de haver controlo da viatura e ninguém sabe ao certo o que irá acontecer. A probabilidade dum desastre violento é muito grande. Pois bem, assim está Portugal relativamente à sua sorte imediata.

A União Europeia poderá safar-se desta, por um triz. Não digo que não. Mas a turbulência e a crise do euro vão continuar até que haja uma governança económica efectiva na União, ou a Alemanha decida que será preferível deixar cair os porquinhos do Sul e dois dos grandes bancos alemães cujos fundos de pensões detêm boa parte da dívida grega!

A  grande pergunta é: se o euro bom sanear o euro mau, os mercados penalizarão, ou darão um prémio, à Alemanha?

Quanto ao carro que perdeu os travões, um palpite: prepare-se para um desastre financeiro lusitano sem precedentes desde a falência de 1891-92, e para uma década de declínio e agonia. Se a Espanha também cair, então as perspectivas serão medonhas.


POST SCRIPTUM — sabem qual é o sector económico que sairá mais prejudicado de toda esta crise? Acertaram, é o turismo! E por seis vias principais: o colapso do sector imobiliário; o fim do "goze agora e pague depois"; o ataque sem precedentes, que já está ser desencadeado, nomeadamente em Portugal, contra o poder de compra das pensões de reforma; a expansão do desemprego estrutural; e o aumento dos preços da energia, nomeadamente oriundos do petróleo. Não foi pois por acaso que Cavaco Silva, no seu discurso comemorativo do 25 de Abril, preferiu falar de indústrias criativas em vez de turismo.


ÚLTIMA HORA — "Auto-estradas do centro a reavaliar, Aeroporto, 3ª Travessia e TGV mantêm-se" (RTP). — O verbo de encher Teixeira dos Santos foi desautorizado pela quarta ou quinta vez. Donde a pergunta: Você é ministro ou uma banana? Entretanto, Paulo Rangel demarca-se da moleza de Passos Coelho. Ou seja, ganha terreno para um futuro provavelmente próximo...


NOTAS
  1. Greek instability threatens to topple Merkel's government
    By Tony Paterson in Berlin (The Guardian)
    Wednesday, 28 April 2010 — Growing opposition from the German public to a planned bailout of Greece is jeopardising Angela Merkel's chances in a key state election next week and could ultimately undermine the stability of her coalition government.


OAM 691—29 Abril 2010 0:52 (última actualização: 22:13)

quarta-feira, abril 28, 2010

Portugal 183

Do optimismo à bancarrota?

Se os títulos do BCP, BES e BPI afundarem hoje como ontem e anteontem, um deles irá muito provavelmente à falência e Portugal caminhará provavelmente para a bancarrota. Se resistirmos até meados de Maio, talvez escapemos ao pior, por os holofotes estarem então concentrados na dívida inglesa. Mas seja como for, nada impedirá um aperto dramático no nosso estilo de vida e uma profunda depressão na nossa economia, que poderá prolongar-se até 2015. A saída do euro antes do fim deste ano será então um cenário mais plausível do que hoje parece. Quase tudo dependerá do que a Alemanha decidir fazer com esta crise. Para já, Angela Merkel quer ganhar a guerra do euro contra a libra e o dólar. No entanto, a dimensão que tiver o rebentamento da gigantesca bolha especulativa que se formou no mercado das dívidas soberanas vai ser o factor porventura decisivo.

Em dois dias os principais bancos portugueses perderam, cada um deles, mais de 10% do seu valor em bolsa. E embora os meios de comunicação social e as agências de comunicação, que dependem totalmente dos ditos bancos, tenham passado uma esponja sobre esta espectacular destruição de valor, a verdade é que se percebeu, pela primeira vez, que a Caixa Geral de Depósitos deixou de acudir ao colapso, nomeadamente do BCP. Este é o sinal mais evidente de que amanhã poderá mesmo iniciar-se a contagem decrescente para mais de um dos bancos portugueses — mal preparados para sobreviver em mar alto e sem cinto de segurança. Quando lhes falta o Estado, afinal, esfumam-se!

2006 crise mundial
    A crise aguda de civilização em que estamos metidos aconselha duas coisas: estar atento e evitar o pânico. A melhor receita para a sobrevivência passa por suprir o atraso e desinformação sistemáticos dos média corporativos com informação proveniente de outras fontes, independentes ou simplesmente distintas do ópio mediático disperso pelos média convencionais. Por outro lado, aconselha-se vivamente muito cuidado na tomada de decisões de investimento de médio e longo prazo. O mais provável é que bens como a terra fértil e as zonas habitacionais próximas dos nós de comunicações se venham a valorizar tremendamente nos próximos anos. Para já, o investimento em metais preciosos (como o ouro e a prata) são bem mais seguros do que quaisquer aplicações financeiras e planos de poupança/reforma e seguros de saúde. O mesmo ocorrerá infelizmente com todos os bens e serviços associados a emergências bélicas, sanitárias e sociais decorrentes do previsível agravamento da presente crise mundial. Num cenário de catástrofe financeira mundial, é de prever a falência de centenas de bancos e sociedades de investimento, já para não falar da falência de algumas dezenas de Estados (congelamentos de salários e pensões de reforma, despedimentos nas Administrações Públicas, subidas vertiginosas de impostos, derivas nacionalistas, etc.) Se a crise vier a ocorrer, como se teme, não será fácil evitar o pânico. Mas se estivermos alerta, poderemos evitar o pior, e prepararmo-nos com coragem para uma longa e dolorosa metamorfose. — in O António Maria, 2 de Março 2006.

O Global Europe Anticipation Bulletin (GEAB) anunciou em Fevereiro de 2006 que vinha aí uma crise sistémica. Semanas antes eu tinha estado em Paris numa reunião promovida por Franck Biancheri (fundador do GEAB e impulsionador do programa Erasmus), onde se falou da crise sistémica que se perfilava já então no horizonte, e da importância da investigação prospectiva.

Desde 2 de Março de 2006 (DOIS MIL E SEIS) que comecei a alertar o meu país sobre este problema, lendo tudo o que pude agarrar de substantivo sobre a matéria, e obtendo uma crescente e preciosa ajuda de leitores, alguns dos quais são hoje meus amigos. Os economistas portugueses, no entanto, andaram quase todos a florear este assunto até 2007, 2008, ou mesmo até ao princípio deste ano, afirmando que a banca portuguesa era sólida e sofisticada, que os endividamentos público, externo e privado nacionais eram coisa de somenos, e mais recentemente, que Portugal não era a Grécia! Esta noite, finalmente, Luís Campos e Cunha estava verdadeiramente preocupado. Ora bolas! Eu sou artista e escritor, não um economista. Como foi então possível escrever neste blogue, desde 2006, que Portugal caminhava para o desastre, enquanto praticamente todos os economistas, empresários e políticos assobiavam para o ar e cantavam hinos aos grandes benefícios da nossa pertença à moeda única europeia?

A queda abrupta do PSI 20, que hoje afundou para níveis historicamente preocupantes, revela duas coisas fatais: que o banco de Estado (a CGD) já não tem capacidade para acudir aos amigos e especuladores do burgo, e que, por outro lado, controlando Portugal pouco mais do que 15-17% da sua dívida pública (prova do grau miserável da nossa poupança), deixou de poder influenciar sequer os movimentos do PSI 20! Estamos pois completamente nas mãos dos fundos de investimento, dos investidores e dos especuladores estrangeiros. Se hoje, dia 28 de Abril, a venda ao desbarato dos principais títulos nacionais prosseguir, estamos fritos! Provavelmente alguém apagará as luzes a meio da sessão!

O problema é simples: os principais bancos portugueses —CGD, BCP, BPI, BES, Montepio — e algumas das maiores empresas portuguesas —Mota-Engil, Teixeira Duarte, SONAE, Parpública (de que a TAP é um dos principais passivos!) REN e EDP, entre outras— precisam, como náufragos, de financiamento urgente e continuado, seja para aliviar os respectivos e descomunais níveis de endividamento, seja para se manterem em acção. Como tal financiamento já não pode vir de dentro, e os fundos de investimento estrangeiros estão a desertar, das duas uma: ou boa parte do tecido empresarial e financeiro nacional é objecto de operações de aquisição por parte de concorrentes de outro campeonato (como recentemente sucedeu à Cimpor), nomeadamente angolanos, brasileiros, árabes, norte-africanos e chineses, ou vai pura e simplesmente à falência.

Os ingleses preparam-se já para cortar 5% nos vencimentos da função pública. E por cá, como vai ser?


ÚLTIMA HORA: Braço de ferro entre o dólar (e libra) e o euro prossegue sem quartel. Principais bolsas mundiais afundam e euro valoriza face à moeda americana !

Banca nacional tem 6,8 mil milhões em dívida grega

Os bancos portugueses estão entre os que mais caem em bolsa na Europa, penalizados pela perspectiva de um aumento nos seus custos de financiamento. Um estudo divulgado ontem pelo Citigroup revela outro risco: a exposição à dívida pública da Grécia. — Jornal de Negócios Online (28 Abril 2010).
Pergunta: quanto deste dinheiro voou de fundos de pensões nacionais e da Caixa Geral de Depósitos para o buraco negro de Atenas?

BCP afunda mais de 17% e BPI recua mais de 10% no arranque da bolsa

As acções da banca estão a ser as mais castigadas pelos investidores na abertura da bolsa em forte baixa. Logo nos primeiros minutos de negociação, o BCP chegou a cair mais de 17% e o BPI a afundar mais de 10%. O BES já esteve a perder mais de 8%. — Jornal de Negócios Online (28 Abril 2010).

PSI-20 afunda quase 6% com todas as cotadas a descer mais de 2%

A bolsa nacional está a afundar 5,96% para o nível mais baixo desde 30 de Abril, pressionada essencialmente pelo sector da banca que viu a Standard & Poor s reduzir o seu "rating", na sequência da revisão em baixa da qualidade de crédito portuguesa. — Jornal de Negócios Online (28 Abril 2010) .

Stocks Fall, Asia Default Swaps Climb on Greece, Portugal Debt

April 28 (Bloomberg) -- Stocks slid for a second day and the cost to insure against bond losses rose after credit-rating downgrades of Greece and Portugal fueled concern about sovereign defaults. Greek two-year note yields soared to 21.4 percent. The euro strengthened from a one-year low against the dollar. — Bloomberg (28/4/2010) .


REFERÊNCIAS

Republic of Portugal Ratings Lowered To 'A-/A-2' On Weak Macroeconomic Structure; Outlook Negative (Standard & Poor's)
  • Fiscal and economic structural weaknesses in our view leave the Republic of Portugal in a comparably weak position to address the significant deterioration in its public finances and expected lackluster economic growth prospects over the medium term.
  • We are lowering our long-term ratings on Portugal to 'A-' from 'A+' and the short-term ratings to 'A-2' from 'A-1'.
  • The negative outlook reflects our assessment of the risk of a further downgrade should fiscal consolidation fall short of expectations or should concerns over government liquidity mount.
Portugal Suffering Greek Contagion Pressures EU Bonds

April 27 (Bloomberg) -- Portugal risks becoming the new Greece.
With a higher debt burden and a slower 10-year growth rate than Greece, Western Europe’s poorest country is being punished by investors as the sovereign debt crisis spreads. The risk premium on Portuguese bonds rose to more than double the past year’s average this month. Portugal’s credit default swaps show investors rank its debt as the world’s eighth-riskiest, worse than for Lebanon and Guatemala.

O caso desesperado da Letónia


In late 2008, Latvia agreed to what the IMF itself has called one of the most severe austerity programs since the 1970s. To accomplish it, Latvia has done everything from slashing public sector wages by 25 to 40 percent, increasing taxes, reducing unemployment and maternity benefits and cutting the defense budget. The crisis has already cost the Latvian prime minister his job and stoked social unrest. Despite all of that, the budget deficit has not budged much, remaining around eight percent of the GDP mark. Spending has been cut to the bone, but Latvia is simply too small of an economy to emerge from recession on its own.

Since the broader European economic recovery remains moribund at best, less government spending has translated directly to less growth. Less growth means less tax income, and less tax income means that the country' s budget deficit remains stubbornly high. Latvia has essentially become a ward of the IMF, and will remain so until either the broader European economic recovery is more robust or the Baltic state is fast-tracked into the eurozone itself. — in John F. Mauldin, "The Making of a Greek Tragedy".

Is the Euro Doomed?
The dreams of European union could die along with it.
By Christopher Hitchens (Slate)

Sometimes, sheer immodesty compels me to ask, of my long record of prescience, what did I know, and when and how did I know it? In the summer of 2005, Foreign Policy magazine asked its contributors to name one taken-for-granted thing that they thought was overrated or would not last. After a brief interval of reflection, I chose the euro.

'Nothing Justifies Kicking Greece out of the Euro Zone'

With Greece finally pleading for financial help from its European partners and the IMF, Germany is pushing to guarantee that the massive loan comes with strict preconditions. In Monday's newspapers, German commentators are divided over whether Greece's problems should force it out of the euro zone. — in Spiegel Online.

Brutal choices over British deficit
By Chris Giles, Alex Barker and Nicholas Timmins

The next government  will have to cut public sector pay, freeze benefits, slash jobs, abolish a range of welfare entitlements and take the axe to programmes such as school building and road maintenance – or make a set of equally politically perilous choices, according to an analysis by the Financial Times.

An online simulator, developed by the FT using government figures, suggests a saving of that scale would require all of the following: a 5 per cent cut in public sector pay; freezing benefits for a year; means-testing child benefit; abolishing winter fuel payments and free television licences; reducing prison numbers by a quarter; axing the two planned aircraft carriers; withdrawing free bus passes for pensioners; delaying Crossrail for three years; halving roads maintenance; stopping school building; halving the spending on teaching assistants and NHS dentistry; and cutting funding to Scotland and Wales by 10 per cent. — Published: April 25 2010 22:10 | Last updated: April 25 2010 22:10, in FT.com.

OAM 690—28 Abril 2010 1:59 (última actualização: 9:59)

segunda-feira, abril 26, 2010

Portugal 182

Um discurso irrepreensível



O seu a seu dono: Cavaco surpreendeu tudo e todos neste discurso comemorativo do 25 de Abril de 1974.  Não só a referência primeira a Salgueiro Maia, mas também o facto de o 25 de Novembro ter ficado no tinteiro, deixou certamente perplexos todos os deputados!

Apesar das críticas que aqui ultimamente temos dirigido ao actual presidente da república, a verdade é que o seu discurso de Abril não estabelece apenas o arranque da sua recandidatura presidencial, não configura só a evolução presidencialista inevitável do regime, mas sobretudo desenha um novo quadro de autonomia estratégica para Portugal merecedor do meu integral apoio.

Cavaco Silva começou a redefinir de forma clara o novo quadro estratégico do país quando em Andorra declarou que as prioridades portuguesas, nomeadamente em matéria de transportes, não dependem da Espanha. Aliás, a sensibilidade do actual presidente da república para as questões que afectam ou podem vir a afectar a nossa independência nacional tem sido uma constante desde a polémica em torno do estatuto de autonomia dos Açores, fruto de um processo mal conduzido pelos incompetentes e oportunistas deputados da Assembleia da República.

A eleição do mar, das indústrias criativas, e das cidades-região de Lisboa e sobretudo Porto, como lugares de uma resposta à crise objectiva do país e das suas instituições, é todo um programa alternativo à imbecilidade e corrupção corporativa e partidária que tem dominado a economia e a política portuguesas nas últimas décadas. Curiosamente, coincide com o essencial do que aqui temos vindo a defender desde 2006. Daí a minha surpresa e expectativa!

Voltaremos a este importante discurso presidencial. Agora ouçam-no!


OAM 689—26 Abril 2010 13:03

Portugal 181

Quem privatiza está falido!

Embora por razões diversas, concordo em geral com o PCP neste ponto!
É um cenário negro aquele que é traçado pelo secretário-geral do PCP caso o Governo concretize as privatizações previstas no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC). "Deixaria no final de 2013 o país numa situação bem pior do que aquela em que nos encontramos hoje", disse ontem Jerónimo de Sousa, acrescentando que o PEC é mesmo "uma declaração de guerra aos trabalhadores e ao povo português" — in Público.
Basta olhar para a principais economias emergentes —China, Índia, Brasil, Rússia—, ou mesmo para outros países detentores de importantes recursos naturais —Arábia Saudita, Irão, Angola, Nigéria, etc.—, ou ricos em tecnologia —Japão—, para percebermos que a moda não é privatizar, mas sim nacionalizar e manter sob domínio público (ou nacional) os principais recursos de cada país. Alienar recursos ou sectores estratégicos (1) no actual quadro de deslocação do centro de gravidade do poder económico mundial para Oriente só pode significar uma coisa: quem privatiza está falido!

Daí que antes de vender os anéis que restam, Portugal deva mesmo proceder a uma séria reforma da despesa pública e a uma diversificação estratégica ousada das suas interdependências e alianças comerciais e diplomáticas. Isto se não quiser desaparecer debaixo do tapete espanhol. A fronteira já começou a recuar em Elvas, Valença e Chaves, e não vai ficar por aqui. Se o concurso para a construção da desnecessária TTT Chelas-Barreiro não for anulado, será Madrid a ter as portagens e a chave da futura entrada do AVE (o dito TGV) em Lisboa! Se privatizarem a TAP, em vez de a reestruturarem a sangue-frio (como irá acontecer inevitavelmente), e venderam por um prato de lentilhas a ANA, e os Estaleiros de Viana do Castelo, podem ter a certeza que antes de 2020 Madrid terá alcançado todos os seus objectivos estratégicos relativamente ao nosso país (2). Os imbecis, corruptos e traidores responsáveis por tanta estupidez já pensaram bem nas consequências dos seus actos? Acham que ficarão impunes? Acham mesmo?

A obsessão paranóica de Cavaco Silva com a sua segurança pessoal ficou uma vez mais exposta recentemente. Durante o episódio rocambolesco do seu regresso de Praga a Lisboa mudou três vezes de viatura blindada, por sinal todas alemãs (Mercedes, BMW e Audi). A seguir, para visitar uma escola no problemático Bairro da Bela Vista, na república de que é presidente, montou-se um dispositivo militarizado de segurança próprio dum país em guerra civil. Quando a situação estiver realmente descontrolada, como vai ser? Reconstituem a PIDE?!

NOTAS
  1. Nem tudo deve estar nas mãos do Estado, obviamente. No entanto, num país pequeno como Portugal, as privatizações devem ser medidas com critérios de interesse público muito rigorosos e obedecer a uma visão estratégica. Ambos devem ser publicitados e discutidos democraticamente, e devem mesmo depender, em última instância, do voto referendário favorável dos portugueses.
  2. Os alertas que o António Maria tem vindo a fazer sobre a questão ibérica nada têm de desagravo aos povos de Espanha, amigos e inimigos de longa data. O nova prioridade atlântica de Madrid responde a dois problemas: o acumular lento mas inexorável das tensões nacionalistas no interior de um Estado cuja unidade formal é recente e nunca foi pacífica; e a perspectiva, desfavorável aos interesses de Espanha, mas cada vez mais realista, de uma triangulação estratégica euro asiática, com vértices em Berlim, Moscovo e Beijing, cujos flancos —Iraque, Irão, Arábia Saudita, Cáucaso, repúblicas da Ásia Central, Coreia do Sul e Japão—têm vindo a aproximar-se diplomaticamente.

    Criar ilusões a Madrid sobre um rápido acesso aos portos portugueses seria uma imprudência intolerável. Basta medir o esforço actual da indústria militar naval espanhola, e o modo como tem vindo a pretender entrar pela plataforma continental portuguesa dentro, para não nos deixarmos enganar pelos sorrisos "socialistas" de Zapatero.

    Para lá da amizade e dos casamentos, existem os interesses estratégicos das nações. Os indivíduos podem andar distraídos, mas os governos não. Estes, se forem avisados, e mesmo assim persistirem no erro, serão mais cedo ou mais tarde chamados a prestar contas — como mentecaptos, ou como  traidores.


OAM 688—26 Abril 2010 0:19 (última actualização: 10:02)

quinta-feira, abril 22, 2010

Estado social

Pagar impostos para algo...



O problema fiscal português é este: quem paga, paga bem, embora parte significativa da população fuja quanto pode aos impostos, e a banca goze de isenções indecentes. Por outro lado, a aplicação da receita fiscal é má, nada transparente e serve sistematicamente para alimentar uma administração pública obesa e ineficiente. É preciso criar mecanismos que permitam ao vulgar cidadão escrutinar pessoalmente a aplicação dos seus impostos.


OAM 687—22 Abril 2010 1:03

terça-feira, abril 20, 2010

Crise Global 77

Portugal: o elo mais fraco?

Portugal é, afinal, o segundo país que mais pode perturbar a zona euro

O custo de subscrever a protecção para um eventual incumprimento da dívida portuguesa é actualmente o terceiro mais elevado entre os países europeus emitentes de dívida soberana, sendo apenas superado pela Grécia e pela Islândia.

As preocupações dos investidores com a situação das finanças públicas portuguesas fizeram os Credit Default Swaps (CDS) sobre obrigações de Portugal dispararem durante a última semana, sendo neste momento apenas ultrapassados na Europa pelo risco da Grécia (467,14 pontos), que é o quarto mais alto do mundo, e da Islândia (381,93 pontos), em oitavo lugar. — in Notícias Lusófonas, 20-04-2010.

Custo da dívida pública portuguesa ultrapassa a Irlanda pela primeira vez desde o início da crise

Apesar de estar a prever um défice público mais baixo para este ano e de ter menos problemas no seu sistema bancário, Portugal voltou ontem, pela primeira vez desde o início da crise financeira internacional, a ter de pagar taxas de juro mais elevadas do que a Irlanda, um sinal da desconfiança que os mercados estão a ter relativamente à situação das finanças públicas nacionais. — in Público, 20-04-2010.

Cavaco Silva: "Não acredito que Portugal chegue a uma situação de bancarrota"

O economista [Simon Johnson] diz que Portugal, tal como a Grécia, em vez de abater os juros da sua dívida, tem refinanciado os pagamentos de juros todos os anos através de emissão de nova dívida, chegando mesmo ao ponto de dizer que "vai chegar a altura em que os mercados financeiros se vão recusar pura e simplesmente a financiar este esquema ponzi". in Destak, 20-04-2010.

Must Germany bail out Portugal too?
Portugal, not Greece, poses the greater existential threat to Europe's monetary union.
By Ambrose Evans-Pritchard

Portugal does not face an imminent funding crisis. If Europe's economy grows briskly, it may be enough to lift the country off the reefs. But one thing seems sure: Germany is not going to bail out any more countries, and the IMF is too small to cover. — in Telegraph.

Como refere um amigo meu num email que acaba de me enviar, entre pagar e refinanciar as nossas dívidas, o Estado português precisa de arranjar rapidamente uns 30 mil milhões de euros no mercado financeiro internacional. Como as garantias dadas pelos empréstimos são apenas títulos de dívida pública aceites pelo BCE como bons, mas que na realidade não passam de papeis, progressivamente mais duvidosos desde Janeiro deste ano, haverá previsivelmente cada vez menos interessados em emprestar-nos dinheiro a 10 anos (ver resultados da emissão de dívida pública portuguesa a 14 de Abril, e também no dia 21), e os que emprestam a 2 pressupõem que Portugal ainda tem alguma margem de segurança no curto prazo.

Este simples facto poderá levar o país à falência. E a razão explica-se muito simplesmente assim: é o financiamento de longo prazo que financia os custos de curto prazo. Imaginem, a título de ilustração, que para comprar a nossa própria casa os bancos deixavam de emprestar a 15, 25 ou 30 anos, e por isso éramos forçados a liquidar o empréstimo contraído para a compra da dita casa num prazo de dois anos. Que sucederia? É precisamente esta a situação a que o senhor Cavaco, o senhor Sócrates, o senhor Jardim e outros que tais, mais a bela democracia populista que alimentamos a pão de Ló, levaram as finanças públicas portuguesas!

O problema é especialmente grave porque o endividamento tornou-se um problema sistémico na maioria das economias desenvolvidas, incluindo muito especialmente os seus grandes protagonistas: Estados Unidos, Reino Unido, Japão, França, Itália e mesmo a Alemanha. Na realidade, a situação é explosiva na América de Obama e no reino de sua majestade britânica, dona de alguns dos principais paraísos fiscais onde se esconde boa parte do saque financeiro operado contra milhões de pessoas em todo o planeta. O escândalo que nos últimos dias (1) tem vindo a revelar as entranhas corruptas da Goldman Sachs —o grande propagador e beneficiário, a par da JP Morgan, dos chamados derivados financeiros, de que se destacam os Credit Default Swaps (CDS, inventados em 1995) e os Collateralized Debt Obligation (CDO, inventados em 1987)— mostra que há uma guerra surda de titãs entre a União Europeia (onde a velha Albion não se revê) e o triângulo Reino Unido, Israel, Estados Unidos. A Alemanha (ou se se preferir, a União Europeia sem a Inglaterra, nem a República Checa), e agora também a China, são as grandes ameaças à sobrevivência das super potências militares, financeiras e diplomáticas que reinaram nos últimos 200 anos no mundo. O chamado deficit spending, de origem vagamente keynesiano, levou a América desde o tempo de Reagan até hoje, e boa parte da Europa, a uma lógica de desenvolvimento baseada no endividamento cumulativo dos Estados, empresas, bancos, famílias e pessoas singulares, tudo em nome do crescimento virtual do PIB e das maravilhas estimulantes do consumo.

Para que este endividamento criminoso dos países ocorresse foi necessário, no entanto, proceder ao seu disfarce com produtos financeiros complexos, tais como os derivados especulativos (CDS, CDO, OTC, etc.), ao mesmo tempo que se mantinha a ficção de uma moeda universal, o dólar americano, com o qual os Estados Unidos mantiveram um nível de vida escandalosamente acima das suas possibilidades, esmagando no caminho tudo o que se lhe opusesse. O que hoje está a ruir como um dominó é pois esta monumental pirâmide de corrupção e espoliação dos fracos. Daí a pergunta: por onde vai romper a cadeia desta super Dona Branca? Pelo euro, ou pelo dólar? Pelo elo fraco grego, português ou espanhol, ou pelo elo forte, mas perigosamente falido, de Londres, ou Wall Street? A resposta não é indiferente. E as consequências ainda menos!

O Ocidente pensa com modelos historicamente gastos. Sobretudo a América depois de Reagan, e a Inglaterra desde sempre, convivem mal com a ideia de terem que repartir os recursos energéticos, minerais e alimentares do planeta com o resto da humanidade. Os Estados Unidos, viciados na sua moeda imperial, resistem como podem —e podem ser muito perigosos— ao aparecimento de novas moedas, e sobretudo ao declínio da green back. Atacaram o Iraque quando Saddam Hussein ameaçou aceitar outras moedas que não o dólar por petróleo. Querem desencadear um ataque atómico contra o Irão porque este há alguns anos que troca petróleo por euros com a maioria dos seus principais clientes —China, Itália, Espanha, Grécia, França (o Japão e a Coreia do Sul continuam a preferi usar USD)— e anunciou querer abrir uma bolsa de petróleo em euros!

Os tigres anglo-saxónicos acumularam demasiados inimigos, declarados e disfarçados, nas últimas duas décadas. O mundo está farto da sua arrogância, corrupção e insensibilidade. Preparar, como parece estar em curso, um novo 11 de Setembro, desta vez atómico, para justificar um ataque nuclear contra o Irão (via Israel, supõe-se) seria o suicídio da América. Mais vale sufocar no ninho as forças tenebrosas que neste momento conspiram activamente para ver realizado um tal cenário de guerra total. Espero que Obama acabe por desmontar uma a uma as sucessivas armadilhas que o poderosa teia sionista (2) lhe tem colocado no caminho.

Mas voltemos a Portugal.

A nossa situação é desesperada, por mais que pretendamos olhar para o lado. E é precisamente por estarmos tão mal objectivamente que as aves de rapina das agências de avaliação (todas, não por acaso, norte-americanas ou inglesas) investem furiosamente contra este elo fraco do euro. Que podemos fazer? Mostrar indignação patriótica faz bem ao ego, mas não resolve os problemas. A unidade de que o país precisa tem que nascer rapidamente de uma nova transparência de linguagem que substitua o disléxico discurso político dominante. Por outro lado, é preciso ouvir a verdade, como pedia sem saber como Manuela Ferreira Leite — em vez de continuarmos a aturar o optimismo cada vez mais grotesco do sempre jovial pedaço de asno que supostamente nos governa. Não, não é ele quem nos governa, mas os piratas que o colocaram onde agora está.

As eleições inglesas poderão ser o prelúdio do grande colapso financeiro mundial. Se este ocorrer, estaremos imediatamente à beira de um ou mais conflitos bélicos de vastas proporções. Por outro lado, vários bancos, empresas, cidades e países inteiros caminharão como Zombies para a falência. O valor nocional dos contratos de derivados financeiros (registados e OTC) é da ordem dos 1 144 biliões de dólares (3), ou seja, qualquer coisa como 6,8x a totalidade dos activos financeiros mundiais (acções+obrigações+depósitos bancários), ou 16 vezes o PIB do planeta! Quer dizer, não há dinheiro que chegue para o dominó de incumprimentos que se aproxima a uma velocidade vertiginosa. Nada a fazer se não assistirmos atónitos à maior destruição de valor que alguma vez ocorreu na história da homem. Mas será possível que tal ocorra sem que a humanidade se veja mergulhada num verdadeiro holocausto de penúria, guerra e perda de identidade?

Para já, uma recomendação: é preciso que a sociedade civil se organize e prepare para o pior. Dos populistas que nos governam, nada ou muito pouco podemos esperar.


POST SCRIPTUM — Portugal vai ter que aguentar o barco até à madrugada do próximo dia 6 de maio, momento em que saberemos todos o que vai acontecer no Reino Unido depois de Gordon Brown deixar o poder. De qualquer forma, mais cedo ou mais tarde (e quanto mais tarde, pior), teremos que optar entre aumentar o desemprego, reduzir os rendimentos do trabalho, ou uma combinação agressiva das duas opções. O desemprego e a redução nominal e real dos salários no sector privado são realidades dramáticas desde meados de 2008, e têm vindo a agravar-se dia a dia. Parece que apenas quem trabalha para o sector privado está a pagar a crise! Ora isto é uma bomba-relógio que irá inevitavelmente explodir e causar um enorme buraco na identidade do país. Em vez de mendigarmos empréstimos no exterior para pagar aos funcionários públicos (e para pagar as mordomias sem conta da nomenclatura populista que temos), talvez fosse boa ideia reter metade dos subsídios de férias e de Natal deste ano e do próximo, na Administração Pública, convertendo-os em certificados de aforro. Ou seja, talvez não fosse má ideia impor uma poupança forçada aos funcionários públicos. Será certamente menos injusto do que a presente situação, onde prolifera o acosso e a ilegalidade em tudo o que são contratações eventuais na Administração Pública e no sector privado. Um poder político que resolva escorar-se apenas nos funcionários do Estado e na tropa de choque do desemprego caminha inexoravelmente para o fascismo!


NOTAS
  1. City watchdog launches Goldman Sachs investigation

    Embattled Wall Street firm Goldman Sachs is now facing an investigation by the City watchdog, the Financial Services Authority, following the $1bn (£650m) fraud allegations brought by the US regulators. — Jill Treanor, Guardian, 19 April 2010.

    Gordon Brown and Angela Merkel attack Goldman Sachs

    A crisis gripping Goldman Sachs deepened today as Britain and Germany moved towards joining the US in pursuing a fraud investigation against the Wall Street bank for allegedly fiddling clients out of $1bn ($650m) through a misleading mortgage investment deal.

    Gordon Brown ordered a special investigation into Goldman, accusing the bank of "moral bankruptcy". He threatened to block multimillion-pound bonus payouts if the firm is found guilty of wrongdoing.

    In Berlin, Angela Merkel's government said it had sought information from the US Securities and Exchange Commission with a view to evaluating "legal steps" against Goldman. — Andrew Clark, Guardian, 18 April 2010.

    Now we know the truth. The financial meltdown wasn't a mistake – it was a con

    The global financial crisis, it is now clear, was caused not just by the bankers' colossal mismanagement. No, it was due also to the new financial complexity offering up the opportunity for widespread, systemic fraud. Friday's announcement that the world's most famous investment bank, Goldman Sachs, is to face civil charges for fraud brought by the American regulator is but the latest of a series of investigations that have been launched, arrests made and charges made against financial institutions around the world. — Will Hutton, The Observer, 18 April 2010.

    Senior Executives at Goldman Had a Role in Mortgage Unit

    The Securities and Exchange Commission filed a civil fraud suit on Friday that essentially says that Goldman built the financial equivalent of a time bomb and then sold it to unwitting investors. Mr. Egol, 40, was not named in the S.E.C.’s suit.

    Goldman has vowed to fight the S.E.C. But the allegations have left many on Wall Street wondering how far the investigation might spread inside Goldman and perhaps beyond.

    Pressure on Goldman mounted on Sunday as two members of Congress and Gordon Brown, Britain’s prime minister, called for investigations into the bank’s role in the mortgage market. Germany also said it was considering legal action against the bank. — Louise Story, The New York Times, 18 April 2010.
  2. A extrema-direita judia e em geral a seita Sionista radical não param de conspirar. A sua rede engloba nomeadamente os serviços secretos israelitas —Mossad—, o poderoso lóbi judeu que actua junto do Congresso americano em Washington —The American Israel Public Affairs Committee (AIPAC)—, e o think-tank Council on Foreign Relations (CFR), entre outros. Enquanto montam um teatro à escala global sobre o perigo iraniano (por querer desenvolver tecnologia nuclear pacífica, e provavelmente militar), que está muito longe de ser verosímil, a verdade é que ainda recentemente os EUA de Obama contrataram a venda de mais 200 mil milhões de dólares de material bélico à potência nuclear que ninguém no Ocidente se atreve a denunciar, ou seja, Israel. Ler a propósito "Despite ‘Tensions,’ US OKs Massive Arms Shipment to Israel" (Antiwar News)
  3. "Total Notional Value Of Derivatives Outstanding Surpasses One Quadrillion" — in Slate. [Listed derivatives =~$548 trillion + OTC derivatives =~$596 trillion = $1.144 quadrillion. ]

OAM 686—20 Abril 2010 23:34 (última actualização: 21 Abril 2010 0:45)

segunda-feira, abril 19, 2010

CO2

Aviões ou vulcões?
O impacto do vulcão Eyjafallajokull deveria levar-nos a reflectir sobre o colapso civilizacional para que caminhamos como mortos-vivos endividados.


Informação detalhada sobre o cálculo que levou a este gráfico (LINK)


OAM 685—19 Abril 2010 14:50

sábado, abril 17, 2010

Crise Global 76

Inglaterra, a porca que se segue!


Zhu Min, vice-governador do Banco da China: « o mundo não tem dinheiro que chegue para comprar mais títulos do Tesouro americano ».

U.K. Is Vulnerable After Greek Deal, Strategists Say

 April 12 (Bloomberg) -- The pound, gilts and FTSE 100 Index may be the weak spot of European markets after Greece was offered a bailout over the weekend, strategists said.

“The Greek problem should calm down, and we should look at the next one on the agenda for markets to watch,” Alain Bokobza, Paris-based head of global asset allocation strategy at Societe General SA, said in a phone interview. “The next one to be watched for is the U.K.” 

Ao contrário do que a manobra Anglo-americana de ataque ao Euro tem querido fazer crer ao mundo —que controla através da sua gigantesca máquina de propaganda e das indecorosas agências de rating—, não será Portugal que se vai seguir à Grécia na grande tragédia das bancarrotas soberanas, mas muito provavelmente o reino de sua majestade pirata Isabel II de Inglaterra! O empate técnico entre o irascível Gordon Brown e o oco David Cameron, dois velhos responsáveis pela crise inglesa, nas palavras do "democrata liberal" Nick Clegg (que claramente venceu o primeiro debate televisivo pré eleitoral da passada quinta feira), conduzirá o Reino Unido (com uma dívida pública por pagar este ano que ultrapassa os 200 mil milhões de euros!) para uma situação potencialmente muito mais perigosa do que a situação em que se encontra a Grécia. Depois das eleições de 6 de maio próximo, o Reino Unido iniciará muito provavelmente a sua marcha triunfal para uma longa decadência económico financeira, política, social e diplomática.

Como assinalou o GEAB de março último publicado pelo Laboratoire Européen d'Anticipation Politique (LEAP), o facto de a China se ter transformado no principal parceiro comercial do Brasil (os grandes parceiros anteriores foram os EUA, o Reino Unido e Portugal) mostra até que ponto estamos perante uma mudança das placas tectónicas da diplomacia mundial e face à emergência inexorável duma nova hegemonia — a Oriente!


O confidencial GEAB deste mês aponta três causas para a situação de declínio inevitável e potencialmente explosivo do Reino Unido depois das eleições de 6 de maio, de onde aliás não se prevê que resulte uma maioria estável:
  1. o endividamento explosivo do país e o colapso da City londrina, 
  2. o declínio à vista dos grandes investimentos no sector da defesa,
  3. a descolagem do amigo americano, pois nenhum pode já ajudar o outro na zona crítica das finanças públicas e do sector financeiro.
Porque será então que perante estatísticas tão preocupantes apenas ouçamos falar de Atenas e de Lisboa? Eu não desculpo a insanidade, o cabotinismo político e profissional, e a corrupção que conduziram os PIIGs à situação dramática em que se encontram. Nem me dispenso de criticar duramente a irresponsabilidade das democracias populistas que actualmente regem Portugal, a Espanha, Itália, a Grécia e a Irlanda. Todos este países terão que sofrer profundas metamorfoses de regime antes de voltarem a levantar as respectiva cabeças. Muita gente deverá ser posta no banco dos réus, para que uma verdadeira catarse redentora destas democracias doentes possa ter verdadeiramente lugar. O preço da falta de coragem e da falta de lucidez num período histórico como aquele que atravessamos será um doloroso e grave declínio civilizacional. Quanto mais depressa os jovens líderes políticos e a geração milénio entender isto, menor será o preço a pagar por todos nós.

U.K. Is Vulnerable After Greek Deal, Strategists Say

 April 12 (Bloomberg/ Business Week) -- The pound, gilts and FTSE 100 Index may be the weak spot of European markets after Greece was offered a bailout over the weekend, strategists said.

“The Greek problem should calm down, and we should look at the next one on the agenda for markets to watch,” Alain Bokobza, Paris-based head of global asset allocation strategy at Societe General SA, said in a phone interview. “The next one to be watched for is the U.K.” 

Apesar de a imprensa e as agências de rating terem concentrado até agora os holofotes sobre todos (Islândia, Letónia, Grécia, Portugal, Espanha, Dubai, ...) menos a Inglaterra e os Estados Unidos, num ataque concertado sem precedentes contra a moeda única europeia (Euro Zone Grapples With Debt Crisis - WSJ.com), a hora da verdade para a orgulhosa City londrina chegará, porém, antes de a Grécia e Portugal declararem falência junto do FMI.

Só não será assim se o "democrata liberal" Nick Clegg conseguir um grande resultado eleitoral, se entrar no próximo governo de sua majestade, e finalmente impuser o fim da Libra em favor do Euro. Se o Reino Unido aderir à moeda única europeia, no que seria um surpreendente golpe de rins, a sua descomunal dívida externa (a 2ª maior do planeta) reduzir-se-ia como que por magia e o Euro, por sua vez, recuperaria rapidamente do seu lamentável estado actual.

O grande problema actual não reside, porém, nas percentagens do endividamento relativamente ao que cada país produz, mas nos valores absolutos do endividamento! Não há, pura e simplesmente, nenhum país do mundo capaz de refinanciar o endividamento colossal dos Estados Unidos, ou sucessivamente as grandes dívidas públicas e externas do Japão, do Reino Unido e da Espanha. Ou seja, o grande buraco negro dos derivados financeiros, que permitiu acomodar temporariamente o maior esquema Ponzi alguma vez gerado na história da humanidade, equivale a qualquer coisa como 8x o PIB mundial. E para tamanha loucura não haverá nunca dinheiro que chegue. Vai ser inevitável colocar os contadores a zero. E muitos pagarão, injusta ou justamente, por isso.

Buffett’s Goldman Sachs Warrants Drop by $1 Billion

April 16 (Bloomberg) -- The value of Warren Buffett’s options to buy Goldman Sachs Group Inc. shares dropped by $1.02 billion after regulators sued the bank for misleading clients on the sale of securities tied to the subprime mortgage market.

Saint-Etienne Swaps Explode as Financial Weapons Ambush Europe

 April 15 (Bloomberg) -- The worst global financial crisis in 70 years arrived in Saint-Etienne this month, as embedded financial obligations began to blow up.

A bill came due for 1.18 million euros ($1.61 million) owed to Deutsche Bank AG under a contract that initially saved the French city money. The 800-year-old town refused to pay, dodging for now one of 10 derivatives so speculative no bank will buy them back, said Cedric Grail, the municipal finance director. They would cost about 100 million euros to cancel today, he said.

Goldman Sachs falls the most since January 2009

SAN FRANCISCO (MarketWatch) -- Shares of Goldman Sachs Group Inc. closed down nearly 13% on Friday, the most in more than a year, after the Securities and Exchange Commission announced fraud charges against the company.

Ninguém na realidade sabe como tudo isto vai acabar. Até os grandes navios-pirata do sistema, como a Goldman Sachs, caminham já na direcção do cadafalso! Quando os Estados vão à falência há uma regra muito simples: quem tem o dinheiro, fica sem ele, de uma maneira ou doutra. As grandes guerras nascem quase sempre deste tipo de eventos.

O Reino Unido será corrido das Malvinas (Falklands) antes de 2020… e se refilar muito sofrerá um bloqueio conjunto de toda a América Latina. A rejeição africana virá depois.

A ligação recente de Londres a Madrid parece-me, por outro lado, um erro de cálculo. Cá estaremos para vê-la regressar às velhas alianças.

A Espanha continua a ser um país autoritário, com grandes doses de ódio ideológico reprimido nas entranhas das suas classes dirigentes, pronto a explodir ao menor contratempo interno. De lá, nem bom vento, nem bom casamento! E olhem que tenho grandes amigos por lá.



OAM 684—17 Abril 2010 19:45 (última actualização: 18 Abril 2010 16:14)

Alta Velocidade 7

O que o vulcão Eyjafallajokull nos ensina



Europa precisa de uma rede ferroviária única, de alta velocidade!

  • Angela Merkel vai de avião, de Lisboa para Milão, de onde apanhará depois um TGV para Berlin.
  • Cavaco vem de automóvel blindado, de Praga para Barcelona, onde apanhará depois um avião para Lisboa (se for possível, claro!)

Imaginem que Lisboa estava já ligada à rede ferroviária europeia de alta velocidade (AV/VE), incluindo o Eurostar. Não está...

De todas as grandes obras públicas previstas, a única que faz sentido económico e tem futuro é a ligação de Portugal, via Lisboa-Madrid, e via Porto-Aveiro-Salamanca, a Espanha e ao resto da Europa.

A breve trecho, com vulcões, aumento exponencial dos temporais (tornados), e petróleo no fim da linha (chegará de novo aos 100 dólares/barril antes do fim do ano), só a ferrovia e os comboios eléctricos serão alternativa credível para o transporte rápido, fiável e seguro de pessoas e, sobretudo, de mercadorias!

O que Portugal tem que fazer é ter ideias claras e estrategicamente inteligentes, coisa que não tem tido. E não tem tido porque os partidos políticos (todos eles!) foram engolidos pelos barões da finança e pelos limitados construtores civis que temos. Em vez de dirigir uma acusação sexista contra Sócrates, Francisco Louçã deveria ter antes falado do que terá levado o centro político-partidário do país a transformar-se num colégio de mordomos subservientes e corruptos do capital rentista que continua a dominar Portugal.

No caso, o que a diplomacia portuguesa deveria exigir de Espanha, como contrapartida da entrada do país na rede ibérica de Alta Velocidade, era a criação dum cluster ibérico no sector ferroviário, nomeadamente através do estabelecimento de parcerias científicas, tecnológicas e industriais de ponta, com vista à criação de uma nova indústria ferroviária europeia, de que Portugal e Espanha seriam um importante pólo de desenvolvimento.

Enfim, enquanto Cavaco regressa de BMW, Audi, Mercedes (todos blindados!), e Merkel aproveita o TGV, meditemos nas lições que o poderoso vulcão da falida Islândia nos dá.


POST SCRIPTUM — Vale pela espreitar o Flight Radar 24, para ver em tempo real a alteração profunda da paisagem do tráfego aéreo sobre a Europa em consequência da pluma de poeiras do vulcão Eyjafallajokull.


OAM 683—17 Abril 2010 13:48 (última actualização: 20 Abril 2010 18:09)

quinta-feira, abril 15, 2010

Portugal 180

Acordem Portugueses!


  • Former IMF economist says Portugal must be helped now to stop domino effect (FT, April 15 2010
  • Presidente checo ataca países com défice excessivo
    Num encontro com Cavaco Silva, o seu homólogo checo e anfitrião disse que nunca permitiria no seu país uma situação semelhante. Cavaco Silva não fugiu ao tema, mas evitou entrar em polémicas. (RR, 15 Abril 2010
  • Governo aceita parceria na gestão do aeroporto
    Norte duvida da possibilidade do "Sá Carneiro" ser gerido autonomamente (JN, 15 Abril 2010)

UMA DEMOCRACIA DE PIRATAS (A NOSSA) ESTÁ A VENDER LITERALMENTE A INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL AO ESTRANGEIRO - COM ESPECIAL DESTAQUE PARA ESPANHA !!!

  O Estado e a Câmara Municipal de Lisboa estão falidos. Esta é a simples realidade por trás da privatização da TAP e da venda de monopólios de Estado (REN, ANA, EDP) aos especuladores privados internacionais. A outros, como as ÁGUAS DE PORTUGAL, chegará também a vez, se nada fizermos entretanto. Isto é, se não pusermos rapidamente o PS de quarentena, e não formos capazes de eleger um novo presidente da república independente — que nem Alegre, nem Cavaco são (além de que são muitíssimo co-responsáveis pelo estado a que chegámos!)

A venda da ANA serve apenas para financiar a construção do novo aeroporto, o maior elefante branco que a tríade de piratas que nos governa insiste em levar por diante, com o seu exército de advogados e professores-economistas corruptos, para gáudio do BES e da Mota-Engil. Ou seja, entrega-se um negócio público aos especuladores privados para que estes, depois, enquanto monopólio privado, ponham e disponham no transporte aéreo de e para o nosso país!

No entanto, assim como não haverá quem pague as SCUTS, também não haverá quem pague o NAL. O que vem a querer dizer que, seremos todos nós, indiscriminadamente, que pagaremos estes assaltos à riqueza nacional através duma carga letal de impostos e do empobrecimento inexorável da sociedade portuguesa. Os partidos parlamentares são todos responsáveis!

Lembro que uma das causas da falência da Grécia foi precisamente o novo aeroporto de Atenas e a corrupção das Olimpíadas. Por cá será, se não travarmos imediatamente este assalto ao país, o NAL da Ota em Alcochete e o Mundial de Futebol a que Portugal e Espanha concorrem "juntos".

A Espanha (através da FCC), que não brinca em serviço, está a beira de ter as chaves de entrada em Lisboa através da anunciada Terceira Travessia do Tejo (TTT)

A Espanha (através da Ferrovial, que hoje controla os principais aeroportos ingleses), mais cedo ou mais tarde, terá nas mãos a futura ANA , começando obviamente por entrar no consórcio vencedor da privatização da ANA/construção do NAL.

A Espanha, através da Ibéria (que acaba de ver aprovada a sua fusão com a British Airways, indo ambas agora avançar para uma fusão com a American Airlines), fez uma aliança estratégica com o Reino Unido e com os EUA para controlar o espaço aéreo do Atlântico Norte.

Por fim, Espanha tem em marcha uma operação fortíssima para estender a sua plataforma marítima continental atlântica por cima da plataforma portuguesa!

Resumindo: a Espanha tem um plano claro de absorção pacífica de Portugal, posicionando-se como novo vértice de um triângulo estratégico com o Reino Unido e a América. Foi este o sentido profundo da Cimeira das Lajes, em cujas fotografias publicadas em Espanha, nunca apareceu a figura subserviente do cicerone Durão Barroso! Ou muito me engano, ou este gajo é mesmo um agente duplo da CIA.

Precisamos mesmo de um Vladimir Putin antes que o país desapareça!

Ou então que a Maçonaria e os militares retomem seriamente os seus deveres patrióticos.


ÚLTIMA HORA  — Grécia pede reunião com BCE, FMI e Bruxelas

Numa carta endereçada a Jean-Claude Trichet, Dominique Strauss-Kahn e a Olli Rehn, o ministro grego das Finanças, George Papaconstantinou, “solicita conversações” com os três dirigentes, referindo que o faz na sequência do acordo político alcançado neste domingo sobre uma eventual ajuda dos países da Zona Euro à Grécia. (Jornal de Negócios, 15 Abr 2010)

Com as dores da Irlanda, da Bélgica, do Reino Unido, do Japão, ou dos Estados Unidos, todos países com endividamentos descomunais, podemos nós bem! Isto é, devem preocupar-nos menos do que as nossas próprias mazelas. Agora que a Grécia resolveu, por fim, dirigir-se a Bruxelas e ao FMI para que ponham em marcha uma operação de salvamento do endividado e corrupto país onde um dia habitaram filósofos imortais, aproxima-se um fim de semana de cortar à faca! O euro já começou a cair e os detentores de dívida grega já começaram a desembaraçar-se de algo que vale cada vez menos.

Leiam-se estes dois textos —Greece Saved For Now – Is Portugal Next? By Peter Boone and Simon Johnson (The Baseline Scenario, April 11) e Greece And The Fatal Flaw In An IMF Rescue. By Peter Boone and Simon Johnson (April 6, 2010)— em vez da versão grosseira do pensamento destes dois autores publicada pelo Económico de hoje.

Seria preciso qualquer coisa como 150 mil milhões de euros para salvar a Grécia da bancarrota, isto é, os 40-45 mil milhões sugeridos a medo por Bruxelas e pelo FMI não teriam outro efeito que não fosse empurrar o problema com a barriga até ao próximo colapso. Aparentemente, o actual presidente do FMI tem ambições presidenciais em França, ou seja, o socialista Dominique Strauss-Kahn pensa suceder a Sarkozy em 2012. E por este simples motivo de carreira gostaria muito de deixar o problema grego para quem lhe suceder, algures em 2011. Claro que estes cálculos podem sair furados, e o dominó dos defaults soberanos começar muito antes do que todos esperam. Por exemplo, na próxima Segunda Feira!

Os cálculos do senhor Cavaco Silva, que hoje levou um inesperado e muito bem dado raspanete do presidente checo, podem pois estar também viciados por um erro de estimativa. A Alemanha vai tentar salvar o euro a todo o custo, mas este desiderato poderá mesmo implicar uma quarentena de 1, 2, 3, 4 anos fora do euro, para países como a Grécia, a Irlanda, Portugal... e Espanha! Seria o fim do euro? Não creio. Seria o fim dos PIIGs? Também não creio. Mas lá que vai ser um período de lágrimas e ranger de dentes, disso não tenho dúvidas há já muito tempo.


POST SCRIPTUM — O raspanete a Cavaco foi muito bem dado, objectivamente, ou não?

O calculista de trazer por casa, Aníbal Cavaco Silva, inepto presidente da nossa república, em vez de reconhecer os factos denunciados e bem pelo presidente checo, e anunciar que o seu (nosso) país irá corrigir os erros do passado e começar uma nova vida, não! Desculpou-se com o cargo: "eu desde o início vou responder como presidente da república" (não sou primeiro ministro, queria ele dizer na sua). Ora porra!

Cavaco Silva é pelo menos meio responsável pelo estado a que o país chegou. Desde logo porque nunca enviou à Assembleia da República uma mensagem formal e clara sobre o desvario orçamental e a corrupção de Estado, exigindo ao parlamento que fizesse a sua obrigação. Também não denunciou formal e claramente aos deputados a promiscuidade entre o Banco de Portugal, a banca comercial, alguns grandes grupos económico-financeiros e as redes de interesses instalados nos partidos com assento parlamentar (e que capturaram mesmo, para já, um deles — o PS).

Numa palavra (e escrevo agora directamente ao actual presidente da república do meu país):

— senhor Aníbal Cavaco Silva, não peça votos ao povo português para reeleger quem num período crucial da nossa anunciada decadência, nada fez para o impedir, salvo balbuciar algumas mensagens encriptadas que ninguém entendeu! Ou pior ainda, deixar que o seu sinistro Chefe da Casa Civil, Nunes Liberato, tivesse orquestrado a telenovela patética das escutas ao Palácio de Belém. Para quem, como eu, chegou a crer que não havia fumo sem fogo, e depois verificou que tudo se tratara afinal duma operação de contra-informação armadilhada por um aprendiz de feiticeiro ambicioso, mas burro, a confiança em si, Senhor Presidente da República, não poderia deixar de esmorecer e acabar por morrer depois de tão imbecil episódio palaciano.

Como tenho vindo a recomendar, Cavaco Silva deve anunciar quanto antes que não irá recandidatar-se ao cargo que hoje ocupa. O país não irá à falência por isso. Vai à falência, sim, porque tem sido dirigido por gente inepta, corrupta e sem coragem política.


OAM 682—15 Abril 2010 12:41 (última actualização: 16 Abril 2010 15:46)

terça-feira, abril 13, 2010

Portugal 179

Passo a passo...



Aos que esperam de Passos Coelho uma varinha mágica que nos traga de novo a fartura fácil do cavaquismo, desenganem-se! O cavaquismo não passou de uma inundação de fundos comunitários que não voltará.

É por isso que o novo líder laranja não tem pressa. O que há para distribuir é pouco, e o que houver para redistribuir vai ser uma arena de conflitos sociais crescentes.

A economia real deslocou-se para a Ásia nos últimos vinte anos, ficando nos Estaods Unidos e na Europa uma economia cada vez mais virtual, alimentada pelos endividamentos (deficit spending) crescentes das empresas, dos governos e das pessoas. A China, mais o Japão e a Coreia transformaram-se nas locomotivas industriais do planeta, corroendo a um ritmo alucinante os potenciais produtivos do Ocidente, nomeadamente dos Estados Unidos, da Alemanha, do Reino Unido, da França e da Itália.

Se a China —que vende bens e serviços baratos a todo o mundo— está hoje enredada na armadilha do endividamento, pelo facto de ter comprado a dívida americana para além de tudo o que seria imaginável, que diremos da Alemanha que (pela via da criação do euro-marco) alimentou nos últimos vinte e cinco anos um gigantesco mercado, a União  Europeia, com bens e serviços caros — cada vez mais caros?!

Tal como a China não conseguirá cobrar tudo o que emprestou aos Estados Unidos, também a Alemanha terá que se habituar à ideia de que uma parte substancial da Europa lhe pagará parte das suas dívidas com Sol e mar. A alternativa das grandes guerras parece-me, para já, irrealizável, além de só poder agravar, e muito, os problemas!

Na origem da crise encontram-se dois fenómenos registados estatisticamente em 1972 no relatório Limits to Growth: o crescimento exponencial da população humana mundial e o consequente desgaste acelerado dos recursos energéticos e alimentares necessários a suportar um tal crescimento sem futuro.

Já em 1956 M. King Hubbert havia chamado a atenção do governo americano para o fim anunciado da era petrolífera (Peak Oil) e para a consequente necessidade de encontrar novas fontes de energia alternativa ao carvão e aos hidrocarbonetos líquidos e gasosos (ele propôs claramente o desenvolvimento da energia nuclear).

Em Fevereiro de 2005 Robert Hirsh veio confirmar estas previsões num hoje célebre relatório encomendado pelo Departamento de Energia dos EUA, Peaking of World Oil Production: Impacts, Mitigation, and Risk Management.

"The peaking of world oil production presents the U.S. and the world with an unprecedented risk management problem. As peaking is approached, liquid fuel prices and price volatility will increase dramatically, and, without timely mitigation, the economic, social, and political costs will be unprecedented. Viable mitigation options exist on both the supply and demand sides, but to have substantial impact, they must be initiated more than a decade in advance of peaking."

A equação energia cara+trabalho caro torna impossível a manutenção de economias competitivas num ambiente onde a própria impossibilidade de tomar de assalto as fontes energéticas mundiais (em resultado dos movimentos anti-coloniais do pós-guerra e sobretudo depois da constituição da OPEP em 1960) obrigou o Ocidente a promover a abertura multilateral dos mercados mundiais e a livre circulação de mercadorias e capitais numa lógica de modificação profunda dos termos de troca mundiais.

Sabe-se hoje que a resposta americana e europeia ocidental foi esta: exportar a economia real para os países de mão-de-obra barata, ou ricos em matérias primas energéticas e alimentares. Um dos objectivos seria levar a uma inflação crescente dos preços dos bens e serviços nas economias industriais avançadas (beneficiando assim os mercados internos), ao mesmo tempo que se pressionava uma simultânea perda progressiva do poder de compra da classe média e dos trabalhadores em geral nestes mesmos países, por via dum ataque constante aos respectivos rendimentos do trabalho. Foi o que aconteceu, embora sem os resultados esperados.

O chamado crony capitalism, que chamou a si a tarefa de realizar este trabalho sujo em nome da liberdade dos mercados, da competitividade e da flexibilidade laboral, porque apenas serviu os especuladores financeiros mundiais, com particular destaque para a cúpula formada pelos grandes bancos e sociedades financeiras americanas: Goldman Sachs, Bank of America Corp., J. P. Morgan Chase & Company, Citigroup, etc., nem sequer se preocupou com as consequências previsíveis dos seus actos.

O resultado está à vista: ao disfarçarem a destruição efectiva dos tecidos produtivos do Ocidente com um inefável manto de consumismo festivo e ensino permanente, e a promessa de uma protecção social ilimitada, esconderam uma realidade que se viria a revelar fatal: a implosão sucessiva das capacidades produtivas competitivas do Ocidente e o endividamento geral das sociedades. Este foi o Cavalo de Tróia que a ganância financeira do Ocidente comprou ao Oriente. O declínio da Europa e dos Estados Unidos parece, pois, um cenário irreversível.

Resta saber se teremos uma aterragem suave, ou com muitos acidentes de permeio.


POST SCRIPTUM — a entrevista dada por Pedro Passos Coelho a Miguel Sousa Tavares confirma a boa impressão que tenho deste candidato a primeiro ministro do meu país.


OAM 681—13 Abril 2010 11:07

Crise global 75

Empire - What future for capitalism?



Empire - What future for capitalism? - Part 2

Um debate esclarecedor sobre as implicações profundas da crise actual. Participam Joseph Stiglitz,  Tariq Ali,  Ann Pettifor,  Ruth Lea,  entre outros.


OAM 680—13 Abril 2010 00:14

domingo, abril 11, 2010

Portugal 178

Uma esperança cor-de-laranja
Afinal parece que há um diamante no PSD


Se as sondagens não descolarem em Janeiro [de 2009, Manuela Ferreira Leite] deveria mesmo demitir-se e dar lugar aos jovens turcos do partido. O Pedro Passos Coelho, se não tiver teias de aranha nos sótãos por onde andou, talvez seja a melhor alternativa do PSD nas presentes circunstâncias. — in O António Maria (25 Novembro 2008)

Acabei de ouvir o discurso de encerramento do congresso laranja da boca do seu novo e jovem líder, Pedro Passos Coelho.  O contraste com José Sócrates, e mesmo com a generalidade dos políticos que nos trouxeram até à crise aguda em que estamos (Cavaco Silva incluído), foi flagrante. Em vez de papaguear pelo tele-ponto o discurso escrito por qualquer coacher contratado para o efeito, falou durante cerca de uma hora, claramente, com eloquência que baste, sem floreados, indo directo à ideologia, e chamando os bois da falta de decência e da corrupção pelos nomes, sem por isso precisar de entrar em pormenores mais ou menos sórdidos. Falou sem rede dos problemas sérios que temos pela frente, das correcções inadiáveis que é preciso fazer no actual regime constitucional, e sobretudo do pouco tempo que temos para dar a volta ao estado miserável em que os piratas do PS e os barões do PSD, mais os anões à esquerda e à direita do espectro parlamentar, deixaram Portugal ao fim de 35 anos de democracia.

A quase ausência dos barões, condes e escribas neste congresso é um sinal muito revelador do que poderemos esperar da nova liderança do PSD. Não terá sido por acaso que este congresso teve lugar em Carcavelos, onde vivo e onde o PSD domina desde 1974 (apesar do meu voto ter ido sempre parar ao PS, até às penúltimas eleições). A presidente da Junta de Freguesia, Zilda Costa da Silva, é uma mulher prática e tem motivos para estar hoje muito satisfeita. O congresso que confirmou a nova maioria dirigente do PSD ocorreu a escassos quinhentos metros da minha praia, onde todos os dias, chova ou faça Sol, centenas de surfistas e praticantes de bodyboard, contribuem para fazer de Lisboa (à grande urbe me refiro) o melhor destino europeu para 2010. O congresso não foi na Quinta da Marinha, mas em Carcavelos (mais precisamente nos Lombos Sul), e este simples facto faz toda a diferença que era preciso fazer!

Ao preparar esta reacção à confirmação de Passos Coelho dei-me conta que já lhe havia dedicado (1) sete artigos favoráveis e uma referência desagradável, desde 2008. E sabem uma coisa: acertei no vaticínio inicial! Além de ter previsto em Novembro de 2008 que o jovem político sucederia a Manuela Ferreira Leite, confirmou-se o meu desejo de que houvesse uma separação de águas ideológica entre o PSD e o PS.

A nova liderança cor-de-laranja defende um posicionamento muito próximo do dos democratas norte-americanos — espécie de feliz fusão criativa das ideias dos três mosqueteiros agora encarregues de preparar uma alternativa certa à falida farra "socialista". Não foi por acaso que Passos Coelho deu ao seu livro de combate para esta caminhada o título Mudar (Change), numa clara referência à principal consigna programática que levou Barack Obama ao poder. A mensagem é clara e vai originar uma praxis correspondente, sob pena de morrer à nascença. Tal como Obama chegou a uma América exangue e desmoralizada, com o firme propósito de alterar algumas regras do jogo e de impor decência ao mais poderoso país do planeta, também nós esperamos que Passos Coelho e a nova direcção do PSD sejam capazes de instaurar uma nova linguagem política e de renovar a democracia no sentido de uma radicalmente diversa cooperação entre os eleitos e os respectivos eleitores.

Pedro Passos Coelho começou desde hoje a impor um novo ritmo ao país. Cavaco Silva, pelo semblante esverdeado de Nunes Liberato, já terá percebido o recado: se o actual presidente da república se sente bem com os poderes que tem, o melhor mesmo é fazer-se a revisão constitucional antes das eleições presidenciais. Além do mais, a Assembleia da República não tem que pedir licença, nem ao governo, nem ao presidente, para fazer a sua obrigação, ou exercer os seus poderes próprios. O recado foi uma carambola certeira para Sócrates e Cavaco. Sempre quero ver como irão reagir estas duas desacreditadas criaturas do regime.

Fortalecer o Estado onde este precisa, e libertar a sociedade civil da presença burocrática, autoritária e corrupta do Estado onde quer que este asfixie a liberdade e a criatividade democráticas, é a revolução tranquila de que precisamos. Estabelecer uma verdadeira rede social —física, pessoal e electrónica— entre o poder delegado pelo voto e a cidadania, é outra mudança inadiável de que o actual regime necessita urgentemente para atacar com sucesso a presente crise, e sobretudo livrar-se do demo-populismo que nos conduziu ao actual estado de coisas. Finalmente, olhar o mar de frente e retomar o pensamento estratégico como a única alavanca efectiva que nos permitirá sair do aperto diplomático em que estamos, é o caminho certo que Luís Amado, sendo um bom ministro, não conseguiu seguir com a determinação desejável. Estamos a um passo de sermos postos temporariamente fora do euro-marco, e a outro de vermos a Espanha de Madrid substituir Portugal no nosso próprio território aéreo-marítimo. As velhas alianças atlânticas estão sob pressão, se é que não ruíram já. E as novas querem nascer e nascerão em breve. A oportunidade para Portugal é de ouro. Mas se a desperdiçarmos, ficaremos sob um domínio efectivo espanhol por todo este século, ou mais!

A vitória de Pedro Passos Coelho —um pai de família normal, com profissão e morada certas— acaba de colocar uma nova geração no poder. O caso de polícia em que se transformou o PS e o seu intolerável líder facilitarão sem dúvida a vida ao próximo poder laranja que em breve assumirá a governação do país. Mas já agora, os tempos que se vão seguir poderiam ser também uma boa oportunidade para levar Francisco Assis e António José Seguro, entre outros, a unir esforços para refundar o Partido Socialista, como Passos Coelho acaba de refundar o Partido Social Democrata.


NOTAS
  1.  Passos em frente; A armadilha de Cavaco; Para Passos Coelho, Cavaco é um empata; Se o Pedro Passos Coelho...; O PSD precisa de sumo novo!; Geração Europa e a proximidade de Aquarius (este artigo versa, na realidade, o furacão Paulo Rangel, e é de facto injusto para Passos Coelho); Economistas lentos; Excitações da semana/ "Relvas lança ‘think-tank’ para preparar 2009".


OAM 679—11 Abril 2010 17:57