quinta-feira, junho 26, 2008

TAP



Motivo de despedimento

O presidente da TAP, através da agência de comunicação que serve a empresa, encharcou hoje os meios de comunicação social com os efeitos dramáticos da subida do preço do petróleo nos resultados previsivelmente negativos do exercício de 2008. Anunciou 102 milhões de euros de prejuízo, e disse que se a loucura dos preços do crude continuasse, a TAP poderia perder até ao fim do ano 150 milhões de euros... ou mais! Consequência: os aumentos de salários não negociados em anterior convenção colectiva teriam que esperar, a famosa distribuição de lucros extraordinários de 2007 teria que ser repensada, e alguns dos Slots (i.e. voos de e para determinados destinos, com dia e hora fixadas) seriam cancelados após a época alta de Agosto.

Esta manobra de intoxicação mediática tem, porém, dois problemas:
  1. Esconde o facto de, ainda em 11 de Abril passado, a mesma agência de comunicação que promoveu hoje a aparição aflita do gaúcho Fernando Pinto, dando más novas ao país, ter fabricado uma entrevista vergonhosa para a SIC com sinais diametralmente opostos. A TAP anunciava então (há escassos dois meses, sublinhe-se) "resultados históricos de 32,8 milhões de euros." A jovem estagiária, olhando atentamente para a cábula, anunciava: "os lucros (da TAP) aumentaram 350% relativamente a 2006" (Ena!). E o gaúcho Pinto acrescentava, naquele seu tom de mula monocórdica: "os melhores resultados de sempre na história da TAP"... (Ena!)
  2. Por outro lado, a manobra de contra-informação omite de forma completamente desonesta o impacto da concorrência das companhias de baixo custo (Low Cost) nas importantes perdas de mercado da TAP, quer na Portela, quer sobretudo nos aeroportos do Porto e de Faro. A TAP foi aliás praticamente varrida de Faro, e está a ser varrida do Porto a grande velocidade. Porque será que o gaúcho não mencionou hoje, nem contabilizou hoje tão evidentes perdas? Eu se fosse accionista, quereria saber...
Mas o mais grave de tudo isto é a forma como o Administrador Delegado da TAP, empresa do Estado português, pretende agora alijar as suas directas responsabilidades no que toca à forma absolutamente imprudente como geriu o dossiê dos combustíveis da empresa. Se ouvirem a entrevista à SIC com atenção repararão que Fernando Pinto, a certa altura, afirma não ter segurado as suas compras de Fuel, não tendo assim operado, como deveria ter operado, no mercado de futuros. A justificação que deu é extraordinária: as informações que então detinha apontavam para uma descida a curto prazo do preço do petróleo. Em 11 de Abril! Quem foi que lhe deu semelhantes conselhos? A TAP fez o orçamento de 2008 contando com o petróleo a 70 dólares, quando já toda a gente do metier sabia que o crude chegaria, pelo menos, aos 100 USD, em 2008. Hoje, a meio do ano, o barril ultrapassou a barreira dos 140 dólares. Isto é, apenas o dobro do valor que serviu de referência ao orçamento da TAP para este ano! Em qualquer empresa privada do mundo, este simples facto seria suficiente para despedimento com justa causa. Que vai agora fazer o governo do Senhor Sócrates? Dar cobertura a tamanho desleixo? Se o fizer, que andará a esconder dos contribuintes?

As grandes empresas de aviação há muito que estão a segurar as suas compras de combustível. A Air France-KLM, por exemplo, segurou a compra de 78% do seu consumo de Fuel até Março de 2009, com base em preços de $70 e $80 o barril. Quando o petróleo chegou aos $120, a companhia francesa-holandesa poupou $35 por barril efectivamente comprado!

Vale a pena ler o que sobre este tema escreveu Caroline Brothers no Herald Tribune do passado dia 10:

European Airlines Press Fuel-Price Edge

... The airline industry's biggest lobbying group, the International Air Transport Association, or IATA, has said that every dollar increase in the price of oil costs a cumulative $1.6 billion for airlines.

Crude oil prices, which have more than doubled over the past year, had their biggest gains ever Friday, with light sweet crude jumping nearly $11 to a record high of $138.54 a barrel on the New York Mercantile Exchange.

... Air France-KLM has hedged 78 percent of its fuel consumption through March 2009, at $70 to $80 a barrel, Jean-Cyril Spinetta, the chairman and chief executive of the airline, said last month. Through that policy of hedging fuel four years in advance, the company saved about $35 a barrel when oil was at $120 a barrel.

A team of 10 people work full time on hedging oil prices for Air France-KLM, Pierre-Henri Gourgeon, finance director of the company, said Monday. Gourgeon added that the company could not pass the full cost of fuel price increases over to its customers. Instead, it is investing about $1 billion a year in new, more fuel-efficient aircraft, to which savings from fuel price hedging contribute significantly.

But that does not mean that Air-France-KLM has not felt a pinch. The company has already seen demand slow on its trans-Atlantic routes, Gourgeon said, though its European routes have not suffered. "Rather than decrease capacity we will adjust our growth plan slightly," he said.

Other European airlines have also taken the hedging route. British Airways hedged 72 percent of its fuel needs for the first half of the financial year and 60 percent for the second half. Lufthansa has hedged 83 percent of its fuel requirements through the end of 2008 and said that it saved euro 109 million, or $172 million, last year by doing so.

Even low-cost carriers like Air Berlin, easyJet and Ryanair are hedging, with Ryanair recently reversing a longstanding avowal to never do so.

But some European airlines are less protected. According to the French bank BNP Paribas, the Spanish carrier Iberia Lineas Aereas de Espana has insured 47 percent of its 2008 fuel requirements, while Aer Lingus of Ireland has hedged 36 percent. The troubled Austrian Airlines has hedged only 20 percent of its 2008 fuel needs and is reportedly under pressure to find a "strategic alliance" with a stronger carrier, most likely Lufthansa or Air France-KLM. -- By Caroline Brothers, Posted on: Tuesday, 10 June 2008, 06:00 CDT, Herald Tribune.

A situação da TAP vai tornar-se rapidamente insustentável, primeiro porque o petróleo vai chegar aos $150 ou aos $170 até ao fim deste ano; segundo, porque as companhias easyJet, Ryan Air e Air Berlin, entre outras, vão continuar a roubar passageiros à transportadora nacional; terceiro, porque o tráfego com o Brasil vai sofrer inevitavelmente uma quebra -- do lado brasileiro, devido à excessiva valorização do Euro; do lado português, devido à penúria do reino. Tudo isto era previsível, e sobre isto mesmo a blogosfera não se cansou de chamar a atenção de quem nos lê.

Há escassos dois meses a comunicação social portuguesa ainda comia tudo o que a Líbano Monteiro lhe enfiava pelo tubo catódico dentro. Agora, bom agora, só mesmo se a filha do Edu (RMVS dixit) acudir, é que a TAP se salva! Entretanto, sobram motivos para a rescisão do contrato entre a transportadora aérea nacional e o incompetente gaúcho que a tem governado nos últimos anos.

PS: ainda a propósito dos devaneios de Fernando Pinto, vale a pena ver esta reportagem da TVI sobre o aproveitamento de aeródromos militares para companhias Low Cost, onde surpreendentemente se descobre a nova vocação do gaúcho aos comandos da TAP: moço de shopping! Reportagem TVI.

OAM 382 26-06-2008, 23:15 (última actualização: 01-07-2008 15:24)

Portugal 29

Condominio Atlantico
Condomínio Atlântico

Luz ao fundo do túnel... da TAP
26-06-2008. A TAP está a estudar um cenário de fusão com a brasileira TAM e a TAAG (Transportes Aéreos Angolanos). -- Jornal de Negócios.
O Rui Santos, observador estratégico da praia lusitana, já tinha previsto e insistido neste cenário há pelo menos um ano atrás! Bem vista a coisa, talvez seja a única possibilidade de sobrevivência da TAP fora da bolsa marsupial, e assassina, de alguma grande operadora da União a que se entregasse.

Por outro lado, é coerente com o nicho de mercado da transportadora nacional.

Por fim, vai na linha da necessária triangulação estratégica que mais convem ao país: a triangulação atlântica entre Portugal, o Brasi (e a Venezuela), o Golfo da Guiné (São Tomé e Príncipe e Guiné) e Angola.

Na fileira dos portos, esta mesma triangulação é igualmente válida e urgente! Mas para isso, além de atrair os Chineses a Sines, precisamos de uma delegação comercial estratégica muito forte no Panamá. Pois o Porto de Sines, para receber mercadorias da Ásia, tem que olear os contactos naquela garganta comercial decisiva para todo o século 21.

A turbulência no Médio Oriente favorece-nos, como sempre aconteceu ao longo da História.

Pois, pois, tratemos da nossa vidinha quanto antes, sem dar muita importância ao Tratado Constitucional (moribundo), pois é isso mesmo que o garnisé de Paris e o sonâmbulo de Downing Street andam a fazer. Uma Confederação Europeia é sempre melhor do que uma Federação! Só assim os europeus poderão empregar estratégias de geometria variável, absolutamente essenciais nos tempos que correm. A célebre hesitação estratégica europeia é uma vantagem e não uma deficiência congénita.

Eu sempre disse que a diplomacia Portuguesa não trabalha mal, independentemente do socratintas de turno.

PS: se esta aliança se concretizar, a hipótese do NAL volta a estar na ordem do dia! O Novo Aeroporto de Lisboa, no Campo de Tiro de Alcochete, teria então que ser considerado como opção estratégica oportuna, enquanto verdadeira plataforma intercontinental de mobilidade aérea. O correspondente project finance contaria então, naturalmente, com uma inesperada plêiade de investidores muito interessados!

Só mais uma coisinha (conselho do Rui Rodrigues, que muito estimo): reservem a Trafaria para um futuro porto de águas profundas à entrada do estuário do Tejo. Vamos precisar dele!

OAM 381 26-06-2008, 10:23

quarta-feira, junho 25, 2008

Escolarizar

A Matemática segundo Bolonha

"A Sociedade Portuguesa de Matemática advertiu este domingo que o facilitismo nos exames nacionais pode constituir um «desincentivo» para professores e alunos, lamentando nunca ter sido ouvida pelo Ministério da Educação quanto ao grau de dificuldade das provas, refere a agência Lusa."
As pessoas e sobretudo as corporações têm uma grande dificuldade em entender as causas das coisas. As pessoas normais, por ingenuidade. As corporações, por instinto de sobrevivência. Há muito tempo que o vento começou a soprar contra o estado pantanoso e insuportável dos sistemas de ensino que vigoram na maioria das democracias ocidentais. São caros, não ensinam nada que não se possa aprender em frente a uma televisão, com um laptop nas unhas, ou em grupos de interesses, mantêm sequestrados durante 12, 17 ou mesmo 20 anos, numa alarmante improdutividade social, milhões de jovens por esse mundo fora, inflacionam para além do razoável o preço do trabalho e no fim, quando o Capitalismo esperava, ao menos, ter domesticado os novos proletariados que paulatinamente substituiriam as anteriores gerações de conformados trabalhadores e hipnotizados consumidores, depara-se com verdadeiros exércitos tecnologicamente sofisticados de furiosos desempregados!

Daí que a primeira decisão há muito tomada nos conclaves reservados onde estas coisas se discutem a sério tenha sido, encurtar tanto quanto possível os períodos escolares obrigatórios e gratuitos, massificar a administração de conhecimentos e regras comportamentais, reduzindo os respectivos custos formativos individuais, substituir o princípio do funil (numerus clausus) pelo princípio da conformidade estatística (daí a necessária facilidade crescente das provas de aferição e a falta de utilidade das antigas disciplinas discriminatórias, como a Matemática, a Física ou a Geometria Descritiva), e finalmente, projectar os jovens, depois do período de domesticação obrigatória, para uma bifurcação dramática entre a especialização paga e por mérito (reservada a uma escassa minoria competitiva), e o fatal labirinto da formação para o emprego, onde cai a esmagadora maioria dos futuros empregados de baixo rendimento e onde permanecem sem quaisquer horizontes de dignidade as vítimas do chamado desemprego estrutural.

A realidade é esta, e onde não é, como por exemplo no Japão, ou na China, subsiste a norma da velha disciplina prussiana: a escolarização como estratégia de domesticação e formação das massas. Segundo esta regra os professores têm autoridade máxima e os alunos não passam de bonsais mais ou menos viçosos. Os dois países referidos têm os respectivos cofres a abarrotar, e por isso podem continuar com a tradição prussiana. Já a Europa e os Estados Unidos, onde faliram estrondosamente os sistemas de ensino público gratuito, as dívidas acumuladas ameaçam cada vez mais a sustentabilidade da própria educação obrigatória. Resta saber se é mau, ou se poderá revelar-se proximamente um novo ponto de partida para um novo paradigma pedagógico. Oxalá!

A domesticação académica imposta de cima para baixo pela via da escolarização obrigatória é um fenómeno relativamente recente e basicamente militar. Só em 1763 viria a ser consagrada pela vontade do rei Frederico II da Prússia. Custa até entender como foi possível a humanidade ter sobrevivido sem ter adoptado antes este sistema impositivo! De que raios divinos terão surgido as primeiras leis escritas Sumérias, há mais de 5 mil anos, a arquitectura Egípcia, a Astronomia Mesopotâmica, a Escultura e a Filosofia Gregas, a Matemática da Índia, a História Romana, a Poesia Medieval, o Renascimento, ou a invenção da Ciência no século 17? Será que a educação poderá recuperar um dia a sua tão longa e fundada tradição de liberdade e a sua essencial distracção?

Antes de alimentarmos o escândalo hipócrita em volta de Bolonha (1), talvez devêssemos ler com cuidado a verdadeira história dos actuais sistemas públicos de ensino, não apenas à luz das reflexões oportunas realizadas por Michel Foucault nas idas décadas de 60 e 70 do século passado, mas também do oportuno escrito de Thom Hartmann sobre a verdadeira origem histórica e peripécias do famoso ensino público obrigatório.
Plato gave up on his experiment after only a few years, and the theocrats who ruled Salem Massachusetts gave up their state-run school when it was determined that a majority of the teachers were witches. The King of Prussia was the first to put compulsory schools into place and to make it stick.

His theory, attributed to the German philosopher Fichte, was that by forcing children to attend school at a young age they would become more loyal to and afraid of the power of the state than they would be loyal to or afraid of their parents. If they didn't go to school, people with guns would come to take them; if they or their parents tried seriously to resist, the police of the state could imprison or even shoot and kill the rebellious parents. The kids were no dummies: they knew that their parents had no choice but to send them to school, and that therefore the state was more powerful than their own families. Therefore, Fichte and the King reasoned, these children would grow up to be good soldiers, respecting the power of the state.

Additionally, the King wanted soldiers who didn't question their orders but immediately did what they were told. So the Prussian school system instituted a system of "no interruptions allowed." Children could not even ask a question about the topic under discussion unless they first asked the question of, "May I ask a question?" by raising their hand and being called on. In this way they became "properly socialized" to respect and not question authority figures.

The system, in other words, was designed to beat out or weed out what we today would call ADD-like behaviors* and perspectives from the "commoner" citizenry. It was one of modern history's first full-scale assaults on those people who inherited the Hunter genes of our distant ancestors.

And, finally, all the children who were products of this school system would have the same opinions about "matters of importance to the state." This particularly pleased the King, since he would be able to choose what these matters were, and what opinions the children should have.

The King, however, didn't want his own children to be subject to such a treatment. They, after all, would one day become the rules of the country. They'd be the leaders, and instead of follower-skills would have to have the skills of leadership, creativity, and independence. The King also realized that the sons of the leading merchants and government officials would need similar skills, and would be less effective at running business and government if they'd been processed by the public school system he'd created.

So he ordered the creation of a second, parallel public school system. While the first system was called "the People's School" (Volkshochschule), the second was to be the place where true education would take place. Recognizing this, it was called simply "the Real School" (Realschule). Ninety three percent of students would attend the People's School, and the seven percent who represented the elite of the nation and would be its future business and governmental leaders would attend the Real School.

The Realschule was set up originally in a way which would probably be very friendly to kids with ADD. There was emphasis on interaction, on participation, on asserting one's opinions and ideas, on critical thinking skills and leadership training. It resembled in many ways some of the more progressive "experimental" schools we find today in the United States and elsewhere. -- in The Real School is Not Free, by Thom Hartmann. Copyright © 1999, 2000, 2001 by Thom Hartmann, all rights reserved.

* - ADD: Attention Deficit Disorder, describes the characteristics of inattention, impulsivity and hyperactivity that may be present in some children and adults. (NTr)



NOTAS
  1. Em vez de prestarmos demasiada atenção aos jogos florais dos opinocratas de serviço, espécie de marretas atacados pela síndrome Salazarista da cadeira (só removíveis por acidente), deveríamos colocar frontalmente em discussão as questões realmente estruturais do nosso sistema educativo, sem o que nada de substancial se reformará. Para mim, os obstáculos e pecados mortais da Educação Pública são estes:
    1. A caducidade instrumental do sistema, do ponto de vista da sua génese e missão histórica: formatar a cidadania democrática de acordo com os interesses verticais do Capitalismo e do Estado Nacional;
    2. A multiplicidade de instâncias de formação dinâmica actualmente disponíveis no mercado, fora dos quadros institucionais dos Estados e Uniões de Estados nacionais, cada vez mais ajustada ao desenvolvimento em rede das sociedades e dos modos de produção, e contra a qual apenas remam as sociedades onde predominam ainda, apesar das enganadoras aparências democráticas, regimes políticos corruptos e corporativos;
    3. O centralismo, a macrocefalia e a natureza intrusiva da burocracia educativa de Estado, cujos elevados graus de incesto público-privado e corrupção corroem irremediavelmente a credibilidade e capacidade de acção dos governos nesta área de domesticação social;
    4. A inutilidade e corrupção endémica das corporações profissionais, a começar pelas hierarquias universitárias, professorado em geral, sindicatos e associações de estudantes;
    5. A recuperação das praxes académicas enquanto instanciação neofascista dos procedimentos de aquartelamento e hierarquização social.
No imediato, o Estado deve retirar-se de boa parte do sistema educativo, seja abandonando a prestação de serviços onde não faz falta, seja deixando de regular e ter autoridade onde não tem que ter e só atrapalha, seja reduzindo drasticamente a burocracia existente. A pseudo-liberalização realizada em Portugal pelas corporações do ensino, em simbiose corrupta com a burocracia política, foi um embuste total e serviu apenas para iludir os eleitores sobre a necessidade artificialmente construída da persistência do actual imprestável, caríssimo e corrupto sistema de doutrinação e domesticação social. O sistema está falido. Não prosseguirá. E as confusões e atira culpas multiplicar-se-ão numa espiral demagógica cujo único resultado será prejudicar ainda mais o endividamento público do país, e sobretudo a sua competitividade cognitiva, tecnológica e cultural. Desfaçamos os mitos!

OAM 380 25-06-2008, 02:58 (última actualização: 10:21)

segunda-feira, junho 23, 2008

PPD-PSD-11

Casamento de D. João I com Phillipa of Lancaster
Chronique de France et d' Angleterre
(Jean Wavrin, 15th century)

Uma mulher na frente política

De Filipa de Lencastre à vitória de Manuela Ferreira Leite

Quando vi Manuela Ferreira Leite subir ao palco de onde proferiria o seu discurso de posse, num tom calmo, firme e pedagógico, reparei quão masculina era a composição da generalidade dos órgãos partidários do PSD. Vi a sempre sorridente mas nem por isso menos determinada deputada europeísta Assunção Esteves, descortinei por junto mais três ou quatro personagens femininas, cujos nomes ignoro, e foi tudo! Como é possível que tamanho sexismo persista ainda em organizações cuja razão de ser é a promoção e a garantia da própria essência política da democracia?

O PS e o Bloco de Esquerda fizeram ultimamente um esforço, eu sei. Mas que dizer do partido que pretende governar o país em 2009? Será possível que até lá nada mude nesta composição troglodita do segundo maior partido português? Então o PSD quer ser o primeiro partido de Portugal sem antes proceder à necessária metamorfose de género na composição das suas principais instâncias de poder? Acha que alguma vez chegará a São Bento de novo sem substituir algumas dezenas dos seus caricatos machos alfa? Estes Chicos espertos são, como toda a gente sabe, incultos, subservientes, ciosos de mordomias e preocupados acima de tudo com a sua medíocre vidinha, futebolística. Não servem rigorosamente para nada a não ser para arrebanhar pontualmente alguns votos para quem mais benesses lhes prometer em cada momento. Será que as elites da Quinta da Marinha, da Foz e de Matosinhos ainda não sabem que o país, em matéria de competência e mérito, mudou de sexo?

Os resultados de trinta anos de marialvismo político-partidário estão à vista de todos! É tempo de deixar Manuela Ferreira Leite e mais algumas centenas de mulheres competentes e politicamente sábias assumirem uma partilha efectiva na condução dos destinos de Portugal. Voltarei ao tema no fim deste postal de saudação à nova Secretária-Geral do PSD. Mas antes quero sublinhar o que para mim pareceu essencial no discurso de vitória da antiga ministra das finanças, ao encerrar o premonitório congresso de Guimarães.

Em primeiro lugar, o estilo: em vez de demagogia pura, apontou prioridades e metas que devem ter deixado aterrados muitos cus de aparelho da actual nomenclatura. Em segundo lugar, o modo consistente como reafirmou a sua estratégia de encostar o PS à direita, onde efectivamente se encontra em resultado de ter sido comido pela tríade de Macau. Em terceiro lugar, a decisão de enfrentar o grande capital subsidio-dependente que, incapaz de inovar e de trabalhar, se agarra, como um qualquer desgraçado tóxico-dependente, ao endividamento criminoso do país, clamando pelas fatídicas Parcerias Público Privadas, através das quais o Estado tem protagonizado um inacreditável papel de corruptor activo. O betão vai deixar de ser uma prioridade (1), por razões óbvias e ainda porque as responsabilidades e dívidas por ele criadas para as gerações futuras são uma das mais negativas e criminosas heranças deixadas ao país por toda uma geração de políticos que deviam estar na cadeia, em vez de alegremente engordarem os nossos serões televisivos!

A hipótese de um novo Bloco Central, sugerido em tom provocador por Marcelo Rebelo de Sousa, não é totalmente disparatada, ainda que inoportuna na circunstância. O problema é este: se o PSD ganhar em 2009, mas sem maioria absoluta, como vai ser? Bom, o melhor mesmo seria ganhar com maioria absoluta, uma probabilidade que não está totalmente fora de questão, sobretudo se a situação económico-social continuar a deteriorar-se gravemente, como é muito provável que ocorra se as bestas da Europa continuarem a alimentar de forma suicida os jogos de guerra do Pentágono. Se o petróleo chegar aos 200 dólares no fim deste ano (já se viu que as promessas da Arábia Saudita nada podem contra a especulação desenfreada actualmente em curso), e se Israel atacar o Irão, vindo em seguida os Estados Unidos, com o apoio imbecil do Reino Unido e da França, bloquear o Estreito de Ormuz, no início de 2009, então é mais do que certa a emergência de uma crise de regime em Portugal, com fracturas abissais tanto no PS como no PSD. Nesta circunstância, das duas uma, ou o PSD de Ferreira Leite consegue chegar às eleições (que poderão ser antecipadas por Cavaco Silva) antes do esboroamento partidário, e ganha uma maioria absoluta fortemente protegida pela actual Presidência da República, ou pelo contrário, a crise dos partidos adianta-se, e neste caso, regressaremos a uma qualquer variante do Bloco Central, do qual sairá provavelmente um governo de emergência nacional. É que então, poderemos estar todos a entrar numa III Guerra Mundial!

Termino este comentário com uma nota histórica sobre uma grande mulher que governou Portugal: Filipa de Lencastre, ou melhor, Philippa of Lancaster.

Há muito que estou convencido do papel determinante desta inglesa no arranque da expansão ultramarina da Europa, protagonizada por Portugal no início do século 15. No entanto, se procurarmos na Net referências em língua portuguesa ao seu desempenho, não encontraremos praticamente nada! Nada!! Foi preciso chegar à Universidade canadiana de Calgary para conseguir ler uma breve mas instrutiva biografia da esposa inglesa que o Rei João I não quis para si, mas que acabaria por aceitar após intervenção decisiva do duque de Lancaster, John of Gaunt, e do Arcebispo de Braga. Estava então em causa a independência de Portugal e o financiamento das suas guerras contra castelhanos e mouros. Alguém teria que espevitar o pseudo-casto de Aviz.

Ao ler a breve resenha biográfica que se segue (e de que apresentarei em breve tradução portuguesa) fiquei fascinado por esta mulher culta, determinada e com uma enorme visão estratégica. Como foi possível esconder até hoje o seu fundamental papel na história do nosso país? Na entrada completamente chauvinista, machista e reaccionária de Joel Serrão (sim, Joel Serrão) sobre Filipa de Lencastre, no seu Pequeno Dicionário de História de Portugal, podem ler-se estas pérolas de canina subserviência à mentira histórica de Estado:

"Em 1387, (Filipa de Lencastre) casa com D. João e até 1402 passa metade do tempo em estado de gravidez: são os nascimentos de D. Branca, D. Afonso (mortos na infância), D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. Isabel. D. João e D. Fernando (a 'ínclita geração'). Ignora-se o papel que teve na educação de todos estes filhos. As alegações feitas nesse sentido não passam de fantasia. Filipa nunca se desligou do mundo inglês. Mantinha-se sempre informada dos negócios do seu país e à sua beira encontramos mordomos-mores, chanceleres, tesoureiros, confessores e damas de nacionalidade inglesa. Apesar disso parece ter tido alguma influência nas decisões de seu marido, como no caso do empreendimento de Ceuta."

É difícil encontrar prosa académica mais desonesta, despeitada, reaccionária e sibilina! Não li, mas vou ler o que outros historiadores portugueses escreveram sobre a rainha portuguesa. Espero que seja um pouco mais sofisticado do que esta demonstração de cronismo machista e bronco. Leia-se a biografia publicada pela Universidade de Calgary, para vermos até onde pode ir o sectarismo da subserviência burocrática.


Philippa of Lancaster, Queen of Portugal

Without the alliance between King João I, the Archbishop of Braga and Prince John of Gaunt, brother of the Black Prince, Portugal would probably have lost its independence to Castile. Central to that alliance negotiated by the archbishop and Prince John, was that John's daughter, Philippa of Lancaster, would be married to the 28-year-old King João I and become queen of Portugal. King João I was forced by necessity to agree to these terms although he had no intention of fulfilling his part of the agreement. Initially the king retreated to the country for two months with his mistress and their two illegitimate children, and sent back protestations that his monastic oath would prevent his ever contracting a marriage. John of Gaunt immediately produced a letter from the pope absolving the king of his vows of celibacy but the king continued to abscond from the marriage. On February 2, 1387 John sent the king a demand, delivered by an army of England's best troops, that the marriage take place at once or England would withhold from Portugal a loan that was desperately needed. King João I finally capitulated and later that month, on Candlemas Day, the Archbishop of Braga united the sullen king with the mortified princess in a resplendent ceremony. In public the royal couple played their parts but in private King João I treated his bride with churlish asperity. After the ceremony he left her at once for the camp of his army and plunged into the campaign against Castile.

Philippa was older than King João I by some years and had already been refused by several other royal bachelors, notably by King Charles VI of France and Albert, Duke of Bavaria. Despite these rejections Philippa would prove herself to be an extraordinary ruler and mother of a great empire. She had received a remarkable education as a girl studying under the Flemish poet Froissart, the foremost chronicler of medieval courts. Another of her tutors was the learned Friar John, the great pioneer in physics and chemistry, who presumably developed in her a sense of critical inquiry that was to become one of her outstanding characteristics. Her most beloved mentor was Geoffrey Chaucer, an intimate friend of her father's. Her father's confessor was the reformer John Wycliffe, Professor of Philosophy at Oxford and the first translator of the Bible into English. He also played a great role in moulding Philippa's young mind to be free of superstition thus enabling her to become a tolerant and enlightened leader.

King João I initially refused to accept Philippa as his wife because he felt forced to go through with the marriage. Thus he avoided her and sought solace between campaigns from his mistress in Lisbon. This situation reminded Philippa of her father's own mistress who dominated her childhood home at the detriment of her mother. Philippa was determined not to go through the same humiliating experience in her own household. She waited patiently until the king was away at the battlefront, and sent a group of clerics and knights to the house where his mistress lived. The mistress was then committed to an ancient convent of Santos where the king could not access her. Philippa took pains to make certain that her rival was treated with every respect and given a dignified establishment with an ample allowance. Philippa then adopted the king's two illegitimate children and reared them with her own children as they were born. By being so conscientious about the care of her husband's children Philippa became responsible for the founding of the bastard House of Braganza. Philippa's quality of character and integrity eventually gained her husband's respect and affection. She bore him ten children and made him a devoted husband and father by encouraging his taste for study and while discouraging his excesses.

Over the next two generations King João I delegated the administration of civil affairs to Philippa while he guarded the kingdom's frontiers. Philippa became the balance wheel of the kingdom, and quietly introduced many enlightened customs from Flanders and England. Because of her close relationship to the English throne Philippa was able to improve the diplomatic and commercial bonds between the two kingdoms. She was also able to improve internal relations between the Portugal's middle class and the aristocracy, as well as the relations between the Christian and Jewish communities.

By the year 1410 Philippa and João had ruled Portugal together for a quarter of a century, during which the kingdom had been constantly at war with Castile and the Moors. All trade, finance, and taxation were designed as war measures. The law at the time compelled every able-bodied man not serving in the armed forces to labour for a certain number of days per year on the walls and defences of his home town. In addition, all male non-combatants were required to serve some weeks annually in the watchtowers and observation posts on the inland borders with Castile and along the seacoast to defend against Moor raiders. The expense of this extended warfare and the lack of metallic material for coinage exhausted the royal treasury, forcing Philippa to issue a bizarre fiat money, in the form of leather tokens, as legal tender. The situation drastically changed in 1411 with a political change in the enemy kingdom of Castile.

With peace came the totally upheaval of Portugal's war economy. Thousands of soldiers, sailors, mechanics, and shipyard workers were thrown into unemployment. The royal councillors feared the danger of a civil war from the domestic turmoil of peace and suggested a foreign war as a diversion. Others advisors pushed for a resumption of hostilities against Castile. Another suggestion was to send an army to help the emperor of Austria against the Turks but King João I vetoed sending the kingdom's defenders so far away. It was Philippa who proposed sending an armed expedition to the Muslim kingdom of Fez in order to reach the kingdom of Prester John, the fabled African Christian ruler. Philippa believed that an alliance with him would give Portugal access to the Indian sources of spices and oriental products, thereby destroying the monopoly of Egypt and Venice over the spice trade. Although the majority of the royal council harshly criticised Philippa's proposal, history eventually proved her vision to be quite sagacious as her successors, King João II and King Manuel the Fortunate, both implemented similar policies of pursuing the Indian trade.

Philippa's proposal was not based on a whim but on facts inspired by her extensive readings of the most respected scholars of that age. These included the written account by the Greek historian Herodotus of a voyage around Africa from the Red Sea, south through the Indian Ocean, and north up the Atlantic to Gibraltar, made centuries before Christ by Phoenician galleys at the command of the Egyptian Pharaoh Necho. Philippa also studied the Roman historian Pliny who chronicled a southerly voyage along the southwestern African coast by a Carthaginian named Hanno. She was also aware of the voyages of Lief Ericson across the Atlantic to Greenland that led her to assume that the ocean could be traversed safely without fear of superstitious monsters. Philippa probably studied the popular account of Marco Polo's expedition to the Orient. All of these sources corroborated the personal testimonies of hundreds of Genoese, Venetians, Byzantines, Jewish, and Moorish merchants who all travelled along the eastern coast of Africa to the Malabar coast of India where they traded in the bazaars of Calicut. Using her vast knowledge the queen not only conceived of the bold plan of an invasion of North Africa, but she also painstaking worked to win political support for it among the royal council. On her suggestion, spies were sent to Ceuta, the centre of all North African trade activities, to report back concerning the feasibility of her plan. One spy returned with information about the great south central African market and the importation of gold through Timbuktu, the hub of that particular trade network. This was the first information that Europeans had about the source of Arab gold, until this point they had believed that the gold was brought from India. The importance of this discovery was immense because the Arabic states were the only suppliers for gold-starved Europe, now the capture of Ceuta became an even more attractive option since it could potentially save Portugal's crippled economy.

With this information Philippa believed that the Florentine bankers could be persuaded to finance her invasion, she was correct and the bankers joined the enterprise. Philippa now sought out the good will of the clergy and their assistance in winning popular support for the invasion. Once the blessing of Rome was secured, the queen had to convince her husband to authorise the undertaking. At this time King João I was tired of war and considered the stronghold of Ceuta impregnable. He flatly refused the lure of gold and religious glories. Philippa then enlisted the aid of her three oldest sons, all eager to win the spurs of knighthood, to convince their father. Eventually King João I yielded once he realised that his wife had managed to convince the majority of her former detractors of the logical and potential of her proposal.

It took three years of active preparation before the army and fleet were ready for the invasion. At this stage Philippa stepped aside to allow her husband and sons to take over the planning of the expedition. She was now over sixty years old and exhausted from the task of financing and assembling the expedition. Then disaster struck when Philippa contracted the plague and failed to recover. When she knew her end was near, she called her children to her. Upon her deathbed Philippa made her three oldest sons and daughter swear a solemn vow to carry out her dream of trying to gain an alliance with the kingdom of Pester John and through this gain access to the Indies. On July 25, 1415, the fleet of two hundred vessels dropped down the Tagus into the Atlantic Ocean and steered south; Philippa was dead, but they carried out her invasion and successfully conquered Ceuta.

The European Voyages of Exploration / The Applied History Research Group / The University of Calgary. Copyright © 1997, The Applied History Research Group


NOTAS

  1. As grandes obras e as privatizações oportunistas estão agora, felizmente, em causa. Ou melhor, a haver Grandes Obras, estas deverão incidir sobretudo na ferrovia, no transporte colectivo urbano e sub-urbano, e ainda nos portos do país. Não faltam, como se vê, oportunidades de negócio!


    • A linha de Alta Velocidade entre Lisboa e o Porto nunca fez qualquer sentido, e agora faz ainda menos. Basta prosseguir o que há muito deveria ter sido concluído: acabar a adaptação da ferrovia ao potencial cinético do Alfa e melhorar radicalmente o respectivo serviço comercial.
    • No que à Alta Velocidade (AV) entre Lisboa e Madrid se refere, basta assegurar uma ligação de Velocidade Elevada (VE), em vez de AV, entre as duas capitais, construindo-se uma linha nova de passageiros e mercadorias entre o Caia e Pinhal Novo (em vez de deixá-la pendurada no Poceirão), e permitindo que os comboios atravessem a actual Ponte 25 de Abril, até chegar a uma estação central situada na Via de Cintura Interna (por exemplo, nos antigos terrenos da Feira Popular, ou nas imediações da actual estação Roma-Areeiro). A linha VE entre o Caia e Pinhal Novo poderá ainda ligar-se à Linha do Norte, sem precisar de passar por Lisboa, desde que seja lançado um desvio ao longo da margem esquerda do Tejo, como propõe António Brotas.
    • A ligação Porto-Aveiro-Salamanca em comboios de Velocidade Elevada para passageiros e mercadorias é uma necessidade que deverá ser desde já meticulosamente planeada.
    • O mesmo ocorre com a ligação Porto-Vigo, já prevista para ser uma via de Velocidade Elevada, e não de AV.
    • O Novo Aeroporto de Alcochete, por sua vez, pode esperar bem uma década. Uma decisão definitiva sobre o mesmo deve ser adiada para 2013-2015. Se então estivermos todos enganados, e o tráfego aéreo continuar a subir, então sim, faça-se o NAL de Alcochete. Até lá, melhore-se a Portela (depois de despedir os incompetentes da ANA e da NAER) e prepare-se o Montijo como solução de complementaridade, se vier a ser necessária.
    • Finalmente, os planos de privatização da ANA, destinados a viabilizar o projecto financeiro do NAL devem ser imediatamente denunciados e suspensos. Quem não tem dinheiro não tem vícios, muito menos à custa de terceiros e vindouros!

OAM 379 23-06-2008, 16:41

domingo, junho 22, 2008

Petroleo 18

Jogos de guerra

A explicação jornalística mais comum, pelo menos no Ocidente, das causas da actual crise petrolífera mundial envolve reiteradamente três argumentos:
  1. a realidade demonstrável do chamado pico petrolífero;
  2. o extraordinário crescimento económico da China, da Índia e dos demais países emergentes (BRIC);
  3. a recusa de aumento da produção de crude por parte dos países produtores de petróleo, com destaque para a OPEC, de onde o G7 destaca invariavelmente a Arábia Saudita, na sua qualidade de maior produtor mundial.
Apesar de ser um nexo óbvio de causalidade, raramente se associa a subida do preço do petróleo à queda sucessiva do valor da moeda dos Estados Unidos, mesmo sabendo-se que esta perdeu já 25% do seu valor desde 2002, ou que no fim deste ano 1 dólar americano valerá pouco mais de 57 cêntimos de Euro.

Por outro lado, embora todos os quatro argumentos citados tenham o seu peso específico na actual crise energética, a verdade é que há pelo menos mais dois factores de que pouco se fala, mas cuja importância no desenlace a curto prazo da mesma podem ser decisivos:
  1. a especulação dos mercados financeiros, que após a hecatombe provocada pelo rebentamento da bolha imobiliária associada às hipotecas de alto risco (Subprime), alastrou para o sector bancário, cuja falta de liquidez levou os solícitos bancos centrais a lançarem sobre os vários náufragos banqueiros uma escandalosa chuva de empréstimos de curto prazo, a taxas ridículas, provocando ao mesmo tempo um desvio dos derivative markets e respectivos fundos de investimentos (nomeadamente hedge funds e fundos pensões e reformas) para os contratos de futuros de bens energéticos e alimentares, com especial destaque para o petróleo e os cereais - ou seja, as chamadas commodities. Segundo dados citados por Ni Jianjun, num excelente artigo (1) publicado no China Daily de 11 de Junho (li-o no avião entre Pequim e Paris), antes de 2003 os mercados especulativos representavam menos de 10% do volume total de negócios realizado pelo New York Mercantile Exchange (NYME). William Engdahl, por sua vez, alerta para o facto de 60% do preço actual do barril de petróleo decorrer da especulação nos desregulados mercados de futuros (2);
  2. o paralelismo impressionante entre a actual crise petrolífera e a actual crise americana e a crise energética, económica e militar de 1973, sobre o qual li recentemente um notável artigo de Jeffrey D. Sachs, na revista Fortune (3).
Embora seja cada vez mais evidente que há um problema de fundo no modelo energético global que ameaça as possibilidades de desenvolvimento económico assentes em paradigmas de crescimento contínuo da produção e do consumo, com profundos impactos nas reservas naturais do planeta e na qualidade dos eco-sistemas, podemos por outro lado estar uma vez mais diante de um jogo de luzes e sombras, e de uma sofisticada barragem de contra-informação e operações especiais, cujo fim imediato é o de prolongar a todo o custo a supremacia Anglo-Americana no mundo. Para que este desiderato seja alcançado, a prevalência da actual elite financeira mundial judaico-cristã, cujo domínio de longa data sobre todos nós decorre do controlo absoluto do dinheiro à escala global, não pode ser ameaçada.

No entanto, a explosão demográfica e económica da Ásia e da África, já para não falar do Brasil, leva-me a pensar que uma tão selecta estirpe esteja de facto seriamente ameaçada, e deva por isso negociar, em vez de exterminar. A menos que, como fizeram no passado, consigam levar o mundo para nova Guerra Mundial. Por trás da cortina de fumo da luta contra o terrorismo, da luta contra a ameaça nuclear iraniana (que é tão real e próxima quanto fora a das Armas de Destruição Maciça que o Miguel Monjardino jurou a pés juntos existirem no Iraque), e da necessidade de pôr os produtores de petróleo na linha (ladainha em que até o João Soares caiu que nem um patinho viajante), o que realmente existe é uma agenda de guerra. Uma agenda estratégica destinada, uma vez mais, a trocar as voltas ao projecto europeu, liderado actualmente por uma turma de alegres imbecis. O sucesso da agenda Sionista e Anglo-Americana conta aliás com o "Não" da Irlanda ao Tratado de Lisboa e a ambiguidade da República Checa sobre o mesmo documento. Do ponto de vista sociológico, a Irlanda e o Reino Unido são quintais da América, e como tal, presas fáceis dos jogos de sedução desta última. A República Checa, por sua vez, é um dos centros da inteligência Sionista na Europa. Nada melhor pois do que a morte do Tratado de Lisboa para deixar as mãos livres a Israel, aos Estados Unidos, ao Reino Unido e ao garnisé Sionista de Paris para atacarem o Irão e forçarem-no, como forçaram o Iraque, a abandonar o Euro!

Os sinais de que algo nesta missão suicida está em fase adiantada de preparação são cada vez mais aparentes. Os indícios mais próximos foram as manobras da aviação militar israelita na primeira semana deste mês de Junho, e depois a resposta verbal do Irão ao que foi ostensivamente apresentado pela propaganda militar de Washington como um exercício demonstrativo de um possível ataque ao Irão nos tempos mais próximos (4).

Entretanto, o Irão decidiu levantar depósitos no montante de 75 mil milhões de dólares das suas contas em bancos europeus perante a possibilidade de serem aplicadas sanções contra o seu país (5).

Nos Estados Unidos, o sindicato Sionista procura fazer aprovar uma resolução na Câmara dos Representantes cuja finalidade é a imposição de um bloqueio naval ao Irão (6), sob o pretexto de este representar uma ameaça à sobrevivência do Estado de Israel. Basta ler a história das sucessivas mudanças de regime operadas pelos serviços secretos britânicos e americanos no Irão ao longo de todo o século 20 para se perceber que nada do que se tem dito sobre o perigo iraniano corresponde de facto a algo que faça sentido. O Irão percebeu, como outros países permanentemente ameaçados pelas potências dominantes perceberam, que só adquirindo reais poderes de dissuasão militar, conseguirão travar o saqueio sistemático das suas riquezas e a humilhação. O Irão não tem ogivas nucleares, mas deveria tê-las, para compensar o arsenal nuclear israelita, que ninguém investiga, nem põe em causa. Talvez só depois de ascender a este nível de responsabilidade, seja finalmente capaz de resolver os seus gravíssimos problemas internos, provocados nomeadamente pelo cancro da corrupção que domina completamente mais esta desgraçada cleptocracia (7).

Não tenhamos demasiadas ilusões sobre a futura política internacional de Barak Obama, no caso de vir a ser eleito presidente dos Estados Unidos da América. Ele, na realidade, já vendeu a alma ao diabo Sionista, quando afirmou que Jerusalém seria a capital exclusiva de Israel!

Um último e preocupante sinal de que alguns influentes Democratas americanos estão desejosos de atacar o Irão, servindo assim o Sionismo e a Economia Militar dos EEUU, resulta da recente recusa por parte de Nancy Pelosi de fazer depender um tal ataque da autorização prévia do Congresso. Esta conspiração foi entretanto denunciada pelo congressista republicano heterodoxo Ron Paul (8). Mas muitos receiam que a iniciativa do poderoso American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) acabe por passar.

A analogia inteligentemente estabelecida por Jeffrey D. Sachs, entre a crise petrolífera de 1973 e a crise actual precisa, para ser completamente consequente, de ir até ao fim. A tese é esta: se o petróleo chegar aos 200 dólares em Setembro, e depois Israel atacar o Irão, e a América vier em auxílio dos seus mais exigentes aliados (com o apoio da França, do Reino Unido e da República Checa), impondo um bloqueio naval ao Estreito de Ormuz, atirando o preço do barril de crude para os 300 USD, que acontecerá? Acontecerá uma coisa muito feia chamada estagflação mundial, de que os países mais pobres ou com economias debilitadas serão as principais vítimas. O consumo de petróleo diminuirá e baixará de preço. Mas o crescimento mundial entrará em recessão prolongada (20 ou 30 anos são apostas realistas) e o mundo anglo-saxão ensopará as suas monumentais dívidas no suor, na fome e no sangue de milhões de seres humanos. A víbora Cheney crê que se este cenário não ocorrer antes das próximas eleições americanas, poderá tornar-se inviável para sempre. É caso para dizer que os dados estão lançados. Foi mais ou menos isto o que se passou em 1973 (9).




NOTAS
  1. Futures trading, weak dollar behind oil shock
    By Ni Jianjun (China Daily)
    Updated: 2008-06-11 07:51

    The power to decide oil prices has been taken over by the oil futures market in New York from the OPEC group since the 1980s as futures trading became synonymous with profiteering. Some studies indicate, however, speculative trading accounted for less than 10 percent of the total trading value of the New York Mercantile Exchange (NYME) before 2003 and did not dictate the long-term trend of oil prices.

    In recent years, by hyping the so-called Chinese demand factor on the world oil market and driving up marketable surplus in an underhand manner, the US has managed to increase the generalized speculative trading volume to more than half of the total on NYME and turned profiteering into the dominant trend of investments.

    One of the "symptoms" of this "epidemic" is that huge amounts of US pension funds and investment banks, driven by the need to avoid risks and increase value, have become little different from the traditional experts in speculation - the hedge funds - and frequently dive into the oil and other futures markets.

    As the volume of speculative trading grows and the amplifying effect of rumor-mongering adds to it, any geopolitical stirring would cause a tsunami on the oil futures market. The speculative investment mania has reached such "unprecedented" severity that the US Commodity Futures Trading Commission announced not long ago it had begun extensive investigation into the suspected oil price-fixing activities on the New York Mercantile Exchange.

    Citing Japan's suspension of rice futures trading to prevent profiteering as an example, Malaysian Prime Minister Abdullah Ahmad Badawi even suggested that international oil futures trading should also be suspended to contain rampant price hikes.

    Lastly, the US and the EU acted on a whim to advocate bio-energy resources and misguided international energy investment.

    Motivated purely by their own interests, the US and the EU have pushed for the use of biofuel, but it failed to stabilize international oil price predictions and caused grain prices to soar worldwide instead.

  2. More on the real reason behind high oil prices
    By F. William Engdahl, 21 May 2008

    As detailed in an earlier article, a conservative calculation is that at least 60% of today's $128 per barrel price of crude oil comes from unregulated futures speculation by hedge funds, banks and financial groups using the London ICE Futures and New York NYMEX futures exchanges and uncontrolled inter-bank or Over-The-Counter trading to avoid scrutiny. US margin rules of the government's Commodity Futures Trading Commission allow speculators to buy a crude oil futures contract on the Nymex, by having to pay only 6% of the value of the contract. At today's price of $128 per barrel, that means a futures trader only has to put up about $8 for every barrel. He borrows the other $120. This extreme "leverage" of 16 to 1 helps drive prices to wildly unrealistic levels and offset bank losses in sub-prime and other disasters at the expense of the overall population.

    The hoax of Peak Oil--namely the argument that the oil production has hit the point where more than half all reserves have been used and the world is on the downslope of oil at cheap price and abundant quantity--has enabled this costly fraud to continue since the invasion of Iraq in 2003 with the help of key banks, oil traders and big oil majors. Washington is trying to shift blame, as always, to Arab OPEC producers. The problem is not a lack of crude oil supply. In fact the world is in over-supply now. Yet the price climbs relentlessly higher. Why? The answer lies in what are clearly deliberate US government policies that permit the unbridled oil price manipulations.

  3. Stagflation is back. Here's how to beat it.
    By Jeffrey D. Sachs, director of the Earth Institute at Columbia University.

    (Fortune Magazine) -- "Three decades ago, in a bleak stretch of the 1970s, an economic phenomenon emerged that was as ugly as its name: stagflation. It was the sound of the world hitting a wall, a combination of no growth and inflation. It created an existential crisis for the global economy, leading many to argue that the world had reached its limits of growth and prosperity. That day of reckoning was postponed, but now, after a 30-year hiatus, at least a mild bout of stagflation has returned, and matters could get much worse. We are back to the future, with the question we asked 30 years ago: How can we combine robust economic growth with tight global supplies of such critical commodities as energy, food, and water? It's worth comparing the earlier episode of stagflation with our current travails to help us find our way. In fact, this time the resource constraints will prove even harder to overcome than in the last round, since the world economy is much larger and the constraints are much tighter than before.

    The similarities with the first half of the 1970s are eerie. Then as now, the world economy was growing rapidly, around 5% per year, in the lead-up to surging commodities prices. Then as now, the United States was engaged in a costly, unpopular, and unsuccessful war (Vietnam), financed by large budget deficits and foreign borrowing. The Middle East, as now, was racked by turmoil and war, notably the 1973 Arab-Israeli war. The dollar was in free fall, pushed off its strong-currency pedestal by overly expansionary U.S. monetary policy. And then as now, the surge in commodity prices was dramatic. Oil markets turned extremely tight in the early 1970s, not mainly because of the Arab oil boycott following the 1973 war, but because mounting global demand hit a limited supply. Oil prices quadrupled. Food prices also soared, fueled by strong world demand, surging fertilizer prices, and massive climate shocks, especially a powerful El Niño in 1972.

    Here we go again. Oil prices have roughly quintupled since 2002, once again the result of strong global demand running into limited global supply. World grain prices have doubled in the past year. Just as in 1972, the recent run-up in food prices is aggravated by climate shocks. Australia's drought and Europe's heat waves put a lid on grain production in 2005-06. Even the politics are strangely similar. In both 1974 and 2008, an unpopular Republican President, battling historically low approval ratings, was distracted from serious macroeconomic policymaking. The country was adrift.

    Then as now, Dick Cheney was close to the helm."

    "(...) Conventional oil supplies will remain tight in the years ahead. New discoveries will not suffice. World crude-oil production nearly tripled in 1960-73 (from 21 million barrels a day to 56 million), but has grown a mere 30% since then, to around 73 million barrels per day in 2006. In fact, Persian Gulf crude-oil production stopped growing entirely after 1974, peaking at around 21 million barrels per day. Discoveries and production increases outside the Middle East rose only modestly and now in many cases are in decline in such fields as Britain's North Sea and Alaska's North Slope."

  4. BBC: Iran has said it considers a military attack on its nuclear facilities by Israel as "impossible".

    "Such audacity to embark on an assault against the interests and territorial integrity of our country is impossible", said spokesman Gholam Hoseyn Elham.

    The statement follows reports in the US media that Israeli aerial manoeuvres over the eastern Mediterranean were a possible test-run for a strike on Iran.

    Iran insists that its nuclear programme is for peaceful purposes.

    (...) The head of the UN's nuclear watchdog, Mohammed ElBaradei, meanwhile said an attack would put Iran on a "crash course" to building nuclear weapons and would turn the region "into a fireball".

    He said he did not believe there was any "imminent risk" of proliferation by Iran given the current status of its nuclear programme.

    In an interview with Al Arabiya television, Mr ElBaradei said that if any military action was taken against Iran he would find it impossible to continue as the head of the IAEA.

  5. Iran withdraws $75 billion from Europe.
    June 16, 2008. TEHRAN (Reuters) - Iran has withdrawn around $75 billion from Europe to prevent the assets from being blocked under threatened new sanctions over Tehran's disputed nuclear ambitions, an Iranian weekly said.

    Western powers are warning the Islamic Republic of more punitive measures if it rejects an incentives offer and presses on with sensitive nuclear work, but the world's fourth-largest oil exporter is showing no sign of backing down.

    "Part of Iran's assets in European banks have been converted to gold and shares and another part has been transferred to Asian banks," Mohsen Talaie, deputy foreign minister in charge of economic affairs, was quoted as saying.

  6. House Resolution Calls for Naval Blockade against Iran
    America's powerful pro-Israel lobby pressures the US Congress


    June 18, 2008. A US House of Representatives Resolution effectively requiring a naval blockade on Iran seems fast tracked for passage, gaining co-sponsors at a remarkable speed, but experts say the measures called for in the resolutions amount to an act of war.

    H.CON.RES 362 calls on the president to stop all shipments of refined petroleum products from reaching Iran. It also "demands" that the President impose "stringent inspection requirements on all persons, vehicles, ships, planes, trains and cargo entering or departing Iran."

    Analysts say that this would require a US naval blockade in the Strait of Hormuz.

    Since its introduction three weeks ago, the resolution has attracted 146 cosponsors. Forty-three members added their names to the bill in the past two days.

    In the Senate, a sister resolution S.RES 580 has gained co-sponsors with similar speed. The Senate measure was introduced by Indiana Democrat Evan Bayh on June 2. In little more than a week’s time, it has accrued 19 co-sponsors.

    AIPAC's Endorsement

    Congressional insiders credit America’s powerful pro-Israel lobby for the rapid endorsement of the bills. The American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) held its annual policy conference June 2-4, in which it sent thousands of members to Capitol Hill to push for tougher measures against Iran. On its website, AIPAC endorses the resolutions as a way to ''Stop Irans Nuclear Proliferation" and tells readers to lobby Congress to pass the bill.

    AIPAC has been ramping up the rhetoric against Iran over the last 3 years delivering 9 issue memos to Congress in 2006, 17 in 2007 and in the first five months of 2008 has delivered no less than 11 issue memos to the Congress and Senate predominantly warning of Irans nuclear weapons involvement and support for terrorism. -- Global Research.

  7. Worst of times for Iran

    24-06-2008. What happened to the US$35 billion of oil revenues that Iran's Shabab News, in a now notorious account, claims disappeared from official accounting during the year through March 2008? Half the country's oil revenues disappeared from the books. A great deal of it left the country for banks in Dubai in the United Arab Emirates and elsewhere; capital flight already was running at a $15 billion annual rate last year, by my estimate.

    During the past year, though, conspicuous consumption in the form of a luxury housing boom has absorbed even more of Iran's oil windfall. Luxury apartments in Tehran's better neighborhoods now sell for $15,000 per square meter, Agence France Presse reported May 26, equal to the best neighborhoods in Paris or New York. A 200-square-meter apartment in northern Tehran sells for about $1 million. Real estate prices in outlying suburbs and some provincial cities have doubled over the past year.

    Corruption has metastasized, that is to say, for the scale of the property boom implies that tens of thousands of Iranians are taking six-to-seven figure bites out of the oil budget. Rather than a handful of officials siphoning state funds into bank accounts in Dubai, an entire class of hangers-on of the Islamic revolution is spending sums beyond the dreams of the average Iranian, and in brazen public view. -- By Spengler, in Asia Times.

  8. June 18, 2008. Representative Ron Paul says House Speaker Nancy Pelosi removed a section from a bill passed by Congress which would have barred the U.S. from going to war with Iran without a congressional vote, claiming she did so at the behest of the leadership of Israel and AIPAC. -- in Newsmax.

  9. "In May 1973, with the dramatc fall of the dollar still vivid, a group of 84 of the world's top financial and political insiders met at Saltsjöbaden, Sweden, the secluded island resort of the Swedish Wallenberg banking family. This gathering of Prince Bernhards's Bielderberg group heard an American participant, Walter Levy, outline a 'scenario' for an imminet 400 per cent increase in OPEC petroleum revenues. The purpose of the secret Saltsjöbaden meeting was not to prevent the expected oil price shock, but rather to plan how to manage the about-to-be-created flood of oil dollars, a process U.S. Secretary of State Kissinger later called 'recycling the petrodollar flows'.

    (...) "Present at Saltsjöbaden that MAy were Robert O. Anderson of Atlantic Richfield Oil Co.; Lord Greenhill, chairman of British Petroleum; Sir Erik Roll of S.G. Warburg, creator of Eurobonds; George Ball of Lehman Brothers investment bank, and the man who some ten years earlier, as assistant secretary of state, told his banker friend Siegmund Warburg to develop London's Eurodollar market; David Rockefeller of Chase Manhattan Bank; Zbigniew Brzezinski, the man soon to be President Carter's national security adviser; Italy's Gianni Agnelli and Germany's Otto Wolff von Amerongen, among others. Henry Kissinger was a regular participant at the Biderberg gatherings.

    (...) "What the powerful men grouped around Bilderberg had evidently decided that May was to launch a colossal assault against industrial growth in the world, in order to tilt the balance of power back to the advantage of Anglo-American financial interests and the dollar. In order to do this, they determined to use their most prized weapon -- control of world's oil flows. Bilderberg policy was to trigger a global oil embargo, in order to force a dramatic increase in world oil prices. Since 1945, world oild had by international custom been priced in dollars, since American oild companies dominated the postwar market. A sudden sharp increase in world demand for U.S. dollars to pay for that necessary oil.

    (...) On October 6, 1973, Egypt and Syria invaded Israel, igniting what became known as the Yom Kippur War. Contrary to popular impression, the 'Yom Kippur' War was not the simple result of miscalculation, blunder or an Arab decision to launch a military strike against the state of Israel. The entire constellation of events surrounding the outbreak of the October War was secretly orchestrated by Washington and London, using the powerful secret diplomatic channels developed by Nixon's national security adviser, Henry Kissinger.

    (...) " From 1949 until the end of 1970, Middle East crude oild prices had averaged approximately $1.90 per barrel. They had risen to $3.01 in early 1973, at the same time of the fateful Saltsjöbaden meeting of the Bielderberg group, which discussed an imminet 400 per cent future rise in OPEC's price. By January 1974, that 400 per cent increase was a fait accompli." -- William Engdahl, A Century of War.

OAM 378 23-06-2008, 01:19 (última actualização: 23-06-2008, 23:20)

quarta-feira, junho 18, 2008

Portugal 28

Morte súbita

A produção de petróleo per capita começou a declinar de forma consistente em 1979, e o início da queda absoluta da produção a nível global começará, segundo Richard C. Duncan, em 2006 (a uma taxa de 2.45% ao ano, durante 34 anos!). Quer dizer, daqui a um ano e meio, poderemos estar já a lidar com preços de crude na ordem dos 100 dll/barril. Em 2008, ainda segundo as previsões de Duncan, as reservas de países como os EUA, México, Noruega, Angola, Rússia, Afeganistão, Urzebequistão, Azerbeijão, etc., começarão a decair mais depressa que as reservas da OPEC (Venezuela, Nigéria, Líbia, Argélia, Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Qatar, Kwait, Irão, Iraque e Indonésia), colocando estes países numa clara posição de supremacia energética, mas também no centro de gigantescas disputas estratégicas. -- O António Maria, 16-10-2004.

Uma das coisas boas que me acontece quando viajo, ou emigro temporariamente, é a quase completa ausência de notícias sobre Portugal. Exceptuando o que a CNN diz sobre o belo Cristiano e a selecção nacional, ou no caso desta minha viagem a Pequim, a presença fotográfica da pianista Maria João Pires na galeria dos grandes músicos e intérpretes musicais do século 20 e da actualidade, que tive oportunidade de admirar no novo e espectacular Centro Nacional de Artes Performativas, a amnésia é total e terapêutica. Quando regresso ao meu país, depois de um safari marroquino ou de uma massagem chinesa nos pés, o meu país, sob o impacto sempre extraordinário do sobrevoo da cidade e aterragem na Portela, parece-me invariavelmente lindo e apetecível. O pior, como me confiava há anos um professor português de economia ao serviço da Universidade de Manchester, é o que vem depois de encararmos a bicha dos táxis!

Regressado à capital, recebido desta vez por um taxista diligente e profissional, e a não menos saborosa vitória da selecção portuguesa sobre a temível República Checa, fui sendo informado, pelo mesmo taxista, da paragem cardíaca que afectara a parte nevrálgica do sistema circulatório do país: transporte rodoviário de mercadorias, transporte aéreo e veículos prioritários (ambulâncias e carros de bombeiros, veículos policiais e aviões.) As bombas de carburante e as prateleiras dos supermercados esvaziaram-se rapidamente. O Governo, a Presidência da República e a Oposição ficaram em estado de choque (foi o que nos salvou!)

O acidente vascular rodoviário fora inesperado e repentino. Reagir a quente, com forças policiais ou com uma requisição civil precipitada (como aventaram depois as araras profissionais da Pedratura do Círculo), poderia ter incendiado o país. Manuela Ferreira Leite esteve certamente à altura da crise, não lançando nenhuma gasolina para a fogueira. O dromedário-mor do reino e o primeiro-ministro portaram-se bem (Aleluia!) na condução das negociações que permitiram enfim libertar o país do sufoco momentâneo. Como que acordando lentamente de um desmaio, saiu-se da paragem cardíaca sem mazelas de maior no tecido sociológico do país. Até ver...

Nem sequer durante os dois inesquecíveis e convulsivos anos da Revolução dos Cravos houve semelhante possibilidade de uma morte súbita do sistema político. Perante a gravidade da crise e a manifesta apatia de todo um Estado diante da primeira prova iniludível do colapso do actual modelo energético mundial, a classe política vai finalmente acordar para os cruciais desafios políticos que temos pela frente, não daqui a dez ou vinte anos, mas já.

Nada fará baixar a curva ascendente dos preços da energia, das matérias primas, da água e dos alimentos básicos. O petróleo continua e continuará a subir independentemente das viagens aflitas de Condoleezza Rice e George W. Bush à Arábia Saudita, independentemente das pressões ilegítimas e hipócritas do G7 sobre a China (mas não sobre o carry-trade do hiper-proteccionista Japão, principal casino da especulação financeira ocidental), independentemente das ameaças de ataque nuclear ao Irão (por parte dos idiotas israelitas, americanos, ingleses e franceses.)

A Ásia autonomizou-se definitivamente do Ocidente, tornando-se a outra metade estratégica do mundo. A globalização acabou. Falta tão só evitar a III Guerra Mundial, e assinar um novo Tratado de Tordesilhas, balizado agora por dois novos meridianos, algures entre o Japão e a metade oriental de África. Mas para que esta nova partilha seja viável é absolutamente necessário que o Médio Oriente petrolífero fique fora do tratado, como se de uma Suiça energética se tratasse. Isto implicará, por outro lado, parar imediatamente a lógica suicida da Organização Mundial de Comércio (WTO), regressando-se a um regime de pautas aduaneiras que permita uma competição colaborativa das economias, mais equilibrada e menos injusta. Encurralar a Europa e os Estados Unidos numa competição impossível com a mão-de-obra barata, a planificação centralizada e autocracia dos principais países asiáticos (China, Japão e Coreia do Sul) será o caminho inevitável para uma III Guerra Mundial. E se uma tal tragédia ocorrer, não tenhamos dúvidas sobre um ponto: a Europa e os Estados Unidos serão aliados. Procurarão a neutralidade da Rússia e atacarão sem dó nem piedade os três tigres asiáticos. Pode ser o fim do mundo descrito pelo Apocalipse!

Regressando a Portugal, diria que a iminência de uma morte súbita do sistema político foi demonstrada à saciedade pelos impactos sucessivos das revoltas dos professores e das empresas de transporte rodoviário, revoltas essas que, por sua vez, mostraram o grau de acomodação, inépcia, burocratização e corrupção do associativismo sindical e empresarial dominantes. No caso do boicote rodoviário (que nada tem que ver com o lockout a que se refere Mário Soares num artigo aliás notável sobre a mesma crise, publicado no DN de 17-06-2008), o que esteve realmente em causa foram quatro circunstâncias concorrentes para a aflição e indignação dos pequenos e médios transportadores de mercadorias, responsáveis pela maior fatia do transporte e do emprego neste sector estratégico da nossa economia:
  1. A subida imparável dos preços dos carburantes, sobre os quais recaiem impostos oportunistas. O ISP não tem nenhuma justificação a partir do momento em que terminou a conjuntura do petróleo barato, pelo que é de defender desde já a sua supressão pura e simples. Por outro lado, a excessiva carga do IVA terá que baixar e ser harmonizada o mais depressa possível com a Espanha. Este assunto, pela sua extrema gravidade, terá mesmo que ser separado da questão do défice...
  2. A inflação, a subida dos juros e o tremendo impacto da crise financeira mundial sobre a economia espanhola (com particular ênfase na queda, em mais de 30%, do respectivo sector imobiliário) está a asfixiar uma parte importante das nossas empresas de exportação, e por essa via, centenas ou mesmo milhares de pequenas empresas de transporte rodoviário.
  3. Os lucros inusitados e sem qualquer regulação efectiva das petrolíferas, com especial destaque para a vagamente pública GALP é um escândalo inaceitável. Revolta qualquer um e se não forem rapidamente travados, suscitarão as condições ideias para uma re-nacionalização parcial (que defendo) da petrolífera portuguesa. O que o país tiver que desembolsar para recuperar a maioria accionista da empresa será rápida e largamente recuperado pela imparável valorização dos activos e do negócio petrolífero e energético em geral. O corticeiro de Mozelos e a família dos Santos que se ponham a pau!
  4. Finalmente, a política fiscal arbitrária da nomenclatura política que nos dirige, revelada pelas escandalosas e inaceitáveis isenções fiscais atribuídas aos iates de luxo e às empresas turísticas que utilizam embarcações de recreio (por que não às competições de Fórmula 1, ao motocross e às motas de água?!) revelam a hipocrisia do discurso político perante as dificuldades, e sobretudo a corrupção endémica que grassa pelos corredores governamentais e parlamentares. A ausência de moral pública sempre justificou o caminho das revoltas e das revoluções. Talvez seja a hora de os políticos corruptos irem para a cadeia e os moles para casa!
A revolta dos camionistas é um sério aviso ao país, tendo pelo caminho revelado três realidades dramáticas:
  1. A irracionalidade criminosa da política de transportes implementada ao longo das últimas décadas, a qual deu prioridade acéfala à rodovia e ao desordenamento do território, em detrimento de uma equilibrada repartição do esforço e da planificação entre os modos rodoviário, ferroviário, marítimo-fluvial e aéreo. Num país vertical, beneficiado por seis grandes rios (Minho, Douro, Vouga, Mondego, Tejo e Guadiana) e com uma tão generosa costa marítima, como foi possível destruir praticamente a ferrovia e deixar os portos marítimos e fluviais ao abandono?
  2. A inexistência de uma rede de aprovisionamento de combustíveis líquidos articulada com as principais interfaces de transportes do país (os aviões que se dirigiam para a Portela foram forçados a procurar abastecimento noutros aeroportos!), a que se soma a ausência de circuitos alternativos de abastecimento aos veículos prioritários (polícia, bombeiros e forças militares, para-militares e policiais).
  3. A completa falência dos serviços de protecção civil perante uma emergência nacional de três dias.
Do ocorrido terão agora que ser extraídas rapidamente algumas ilações para a acção política.
  • O actual sistema de transportes precisa de uma radical e urgente reformulação estratégica, com a reorientação imediata das prioridades de investimento para o sector ferroviário e marítimo-fluvial. O novo aeroporto e a nova travessia do Tejo devem ser colocados em pausa. Mas, por outro lado, devem ser dadas novas prioridades para as ligações ferroviárias rápidas entre Madrid e Pinhal Novo, e entre Porto-Aveiro-Salamanca. Por outro lado, deve ser seriamente estudada a possibilidade de construção de um grande terminal marítimo de águas profundas entre o Bugio e a Trafaria e ainda a abertura de um canal fluvial entre os estuários do Tejo e do Sado, projectos estratégicos destinados ambos a acolher parte significativa do aumento exponencial do tráfego marítimo oriundo do renovado canal, alargado e aprofundado, do Panamá.
  • As forças militares, de segurança e de socorro têm que dispor de reservas próprias de abastecimento de carburantes, e não depender de petrolíferas privadas!
  • A ANA, por toda irresponsabilidade até hoje revelada, tem que ser expurgada dos incompetentes que por lá pastam.
  • Em suma, o país terá que se preparar para aceitar, mais cedo ou mais tarde, um Estado de Emergência Energética Prolongada, do qual resulte um conjunto de medidas de curto e médio prazo destinadas a interromper tudo o que seja manifestamente atentatório da eficiência energética de que desesperadamente precisamos. Destaco apenas algumas:
    1. proibição imediata de todos os desportos motorizados baseados em consumo petrolíferos;
    2. fim do ISP e igualização do IVA à escala europeia;
    3. promoção intensiva da microgeração energética;
    4. controlo accionista estatal das principais empresas responsáveis pela exploração dos recursos vitais ao país: energia e carburantes, águas, mar (ZEE) e rios.
Claro que para aqui chegarmos haverá que redefinir o actual sistema de forças políticas por forma a fazer as inadiáveis reformas da nossa débil democracia. Será este o tema do próximo postal.


OAM 377 19-06-2008, 12:33

sexta-feira, junho 13, 2008

China 2008

Pequim - Jaguar estacionado no famoso distrito das artes, Factory 798. Foto©OAM

O melhor e o pior de dois mundos

By around 2011 the lower middle class [in China] will number some 290 million people, representing the largest segment in urban China and accounting for about 44 percent of the urban population, according to our model. Growth in this group should peak around 2015, with a total spending power of 4.8 trillion renminbi [480 mil milhões de euros]. A second transition is projected to occur in the following decade, when hundreds of millions will join the upper middle class. By 2025 this segment will comprise a staggering 520 million people --more than half of the expected urban population of China-- with a combined total disposable income of 13.3 trillion renminbi [1,3 biliões de euros]. -- in "The value of China's emerging middle class", The McKinseyQuartely.

Acabo de chegar de uma viagem de trabalho e observação a Pequim. Foram nove dias e a primeira coisa que me apetece escrever é: esqueçamos Tiananmen! Da Cidade Proibida à Grande Muralha da China, passando pelo Palácio de Verão e pela múmia de Mao Tse-tung, tudo são agora ícones turísticos massivamente frequentados por passeantes como eu e sobretudo por milhões de chineses e outros asiáticos bem alimentados, elegantes e com cada vez mais tempo disponível para consumir. A China tem hoje mais milionários do que os Estados Unidos, cerca de 200 milhões de criaturas sofrendo de obesidade (Guardian), e nas ruas de Pequim circulam lentamente (pois a ninguém ocorre ultrapassar o limite de velocidade de 50Km/h) milhões de automóveis, com predominância para as marcas alemãs Audi (6 e 8...) e Volkswagen (Phaeton, Sagitar, Touareg), e uma presença crescente de veículos japoneses (Honda e Toyota) e coreanos (Hyundai e Kia). A maioria dos novos táxis são agora Hyundai Elantra em vez dos velhos Volkswagen Jetta e Santana que ainda há menos de uma década dominavam o mercado automóvel chinês.

O município de Beijing tem 16,8 mil quilómetros quadrados (seis vezes a área da Região de Lisboa e 1,4 vezes a da antiga Região de Lisboa e Vale do Tejo.) Nele vivem mais de 17 milhões de almas. A sua principal malha urbana e suburbana, delimitada por cinco anéis concêntricos, tem uma superfície de 1378 Km2 (muito próxima da área da Grande Lisboa), e 8 milhões e meio de urbanitas (6 mil hab./Km2). Para comparar esta zona central do grande município com Lisboa, teremos que imaginar uma malha urbana densa com um raio de 28 Km a partir do Terreiro do Paço, chegando até Cascais, Sintra, Mafra, Vila Franca, Alcochete, Setúbal e Sesimbra, apontando para uma densidade populacional 4 vezes e meia superior à da Grande Lisboa (Amadora, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Odivelas, Oeiras, Sintra, Vila Franca de Xira), e 5 vezes e meia superior à da Região de Lisboa (Grande Lisboa e Península de Setúbal.)

Pequim é uma cidade-região, como Lisboa e Porto há muito deveriam ser, sobre a qual paira quase sempre um tecto de nuvens e poluição. O clima continental húmido é afectado pelas monções e pelas tempestades de areia vindas do deserto. É uma cidade dura (fazendo por vezes lembrar Madrid numa escala ampliada), cheia de automóveis, com grandes assimetrias sociais e uma patente multiplicidade étnica, atravessada por obras públicas e privadas em todas as direcções, mas segura e surpreendentemente limpa, sobretudo se a compararmos com Lisboa e arredores! Não falta gente para trabalhar, nem sobretudo mão-de-obra barata vinda dos arredores, bem como das províncias longínquas. Há, para surpresa de quem assimilou os estereótipos vendidos pelos média ocidentais, civismo, simpatia e alegria nas ruas. Não há pedintes por necessidade, nem muitos menos pedintes profissionais. Entre os hotéis de cinco estrelas que proliferam como cogumelos depois de um dia de chuva outonal, a presença ostensiva das grandes marcas do consumismo ocidental, os centros comerciais e o fast-food chinês, os multifacetados Hutongs -- fazendo lembrar, os mais pobres, as já quase inexistentes ilhas do Porto --, os sítios turísticos e a excitação da nova arquitectura assinada por europeus, americanos e chineses (1), predomina sobretudo a sensação de estarmos no meio dum turbilhão económico, social, tecnológico e cultural sem precedentes.

Talvez por persistirem índices elevados de analfabetismo, abunda uma espécie divertida de iconografia informativa, de que o uso do estilo Anime para dar face aos polícias e suas recomendações é talvez a mais contrastante negação da imagem autoritária fabricada, entre nós, do império do meio. Ao contrário da pose xenófoba e fascista de alguns polícias do aeroporto de Newark, os polícias do aeroporto de Beijing sorriem e pedem-nos para avaliar electronicamente a qualidade do seu desempenho. Nas ruas da capital chinesa, a presença da autoridade do Estado é praticamente residual. Se exceptuarmos o dispositivo discreto mas permanente da Praça de Tiananmen, os cidadãos parecem conseguir resolver sozinhos os problemas e conflitos do dia a dia.

Os avôs e as avós fazem Tai Chi Chuan entre as 5 e as 8 da manhã, nos jardins e alamedas da cidade, antes de receberem os netos que cuidarão ao longo da jornada de trabalho dos seus ambiciosos filhos. Reformados sem outras responsabilidades familiares prementes entretêm-se em grupo desenhando ideogramas de água no chão, jogando o YoYo, ou montando barbearias ao ar livre num qualquer jardim público às portas de um museu nacional! Outros passeiam orgulhosos os seus adorados pequineses. Automóveis, Trolleys (quanta faltam nos fazem!) e bicicletas percorrem a cidade disputando cada cruzamento como se de uma dança marcial se tratasse. Traços contínuos e passadeiras são ainda decorações urbanas a que se dão pouca importância. Mas vai mudar. Os semáforos fazem já a sua função e em menos de uma década os cidadãos de Pequim respeitarão o resto da sinalética com muito maior zelo que nós. Numa Food Republic situada no piso -2 de um centro comercial fiquei a conhecer a profusão de estilos da ruidosa fast-food chinesa, e a saber onde boa parte dos trabalhadores do sector de serviços de Pequim almoça informalmente.

Na última noite da estadia fui recebido por um grupo de artistas noruegueses na residência que alugaram num Hutong perto da Cidade Proibida. Trata-se de um pátio recuperado com estilo, por um jovem profissional chinês, francamente acolhedor, rodeado por 4 quartos, uma sala comum, uma pequena cozinha e um quarto de banho elementar. Renda mensal antes das Olimpíadas, para estrangeiros: 163 euros (2). Quem quer ir para o Allgarve?!

Aperitivos picantes e melancia acompanhados de cerveja, vinho branco e vodka precederam um jantar servido por um restaurante de bairro especializado na famosa culinária da província de Sichuan, tristemente conhecida em todo o mundo desde 12 de Maio último por causa do terramoto que ceifou mais de 100 mil vidas. Esta cozinha é sobretudo caracterizada pelo uso abundante de malaguetas picantes e da chamada pimenta de Sichuan, misturadas com alho e gengibre, acompanhando as carnes de porco temperadas com molho de peixe, o pato lacado e o frango alourado, os peixes de rio (carpas), as corvinas e os mariscos. Nesta culinária, considerada há muito pelas elites burocráticas chinesas como sendo própria de intelectuais, abunda o arroz branco, couves fermentadas, molhos de feijão doce e talos de bambu. Os elementos crus ou pré-cozidos salteados em óleo bem quente e os estufados de beringela são outras tantas notas que aqui deixo dum memorável banquete de artistas, regado com muita cerveja Tsingtao e Yanjing, aguardente branca de arroz e vinho tinto (um mercado virtualmente inesgotável para os produtores de vinho de todo o mundo, incluindo os chineses, de que o famoso Chateau de Changyu é o principal estandarte.)

Em 1415, quando Portugal conquistou Ceuta, estabelecendo aí a testa de ponte que levaria a Europa a dominar o mundo durante quinhentos anos (3), a Marinha da Dinastia Ming (1368-1664 dC) possuía qualquer coisa como 1350 navios de guerra, dos quais 400 eram fortalezas marinhas e 250, navios de longo curso. Esta formidável armada tinha, entre 1405 e 1433, sob o comando do almirante Cheng Ho, sulcado os mares da Coreia, do Japão, do Sudeste Asiático e atravessado o Índico até à costa oriental de África. Como escreve ironicamente Paul Kennedy no seu fundamental The Rise and Fall of the Great Powers, os chineses poderiam ter contornado a costa africana e "descoberto" Portugal algumas décadas antes de o Infante D. Henrique iniciar a sua extraordinária aventura, lançando marinheiros e comerciantes à descoberta e marcação da costa africana, em direcção ao Índico, até chegar à India. A viagem de circum-navegação realizada por Fernão Magalhães, ao serviço de Carlos V, provaria de vez a esfericidade do planeta, levando os primeiros europeus a descobrir o novo mar a que chamaram Pacífico. O saber de experiência feito e uma excelente cartografia levariam ainda Portugal a descobrir as Filipinas e o acesso marítimo à China, ao Japão e à Austrália. Mas então, porque ficaram os chineses para trás e foram os europeus que avançaram?

Ao longo da Dinastia Sung (960-1279 dC), e até ao ano 1436 da Dinastia Ming (1368-1664 dC), a China era de facto o maior e mais populoso país do mundo, tinha as maiores cidades e era tecnologicamente o mais avançado de quantos existiam. O seu exército e a sua marinha somavam mais de um milhão de efectivos, constituindo certamente a mais poderosa força bélica então existente à face da Terra. A China tinha inventado e usava o papel-moeda, tinha inventado e usava relógios astronómicos, tinha inventado e usava a imprensa de tipos móveis muito antes de Gutenberg, inventara a pólvora ainda antes da Dinastia Sung (960-1279 dC), produzia mais ferro do que a Inglaterra no início da Revolução Industrial (sete séculos depois!) Data também desta época a reconstrução da Grande Muralha (com tijolos de barro cozido) e a construção do sistema de canais fluviais que permitem ainda hoje fazer circular grande parte dos bens agrícolas e industriais pelo seu vasto território. O que provocou então a viragem e a decadência subsequente de tão formidável civilização?

Segundo Paul Kennedy, foi a ordem dada ao general Cheng Ho (ou Zheng He) para desactivar e depois desmantelar a marinha chinesa, em nome da concentração de forças a que teria sido necessário proceder para fazer frente à pressão crescente dos Mongóis. Enquanto a Europa sabia do Oriente e ambicionava as suas sedas, marfins, madeiras nobres e especiarias, a China desconhecia praticamente o Ocidente, bastava-se com o seu imenso território, a cuja unidade dava total prioridade, e como país desenvolvido não detectara nas incursões marítimas pelos mares vizinhos e pela costa africana oriental razão económica suficiente para manter uma tão dispendiosa armada quando a ameaça vinha uma vez mais do Norte.

Esta decisão conduziria a China paulatinamente ao proteccionismo e ao isolamento internacional, ao mesmo tempo que o poder da burocracia acabaria por hegemonizar a sociedade, fazendo murchar progressivamente os pressupostos ideológicos, materiais e jurídicos de uma sociedade economicamente ágil, intelectualmente criativa e espiritualmente livre.

O que veio depois é sabido: no século 19 a balança comercial entre a China e o Ocidente (para onde vende muito e de onde compra pouco) torna-se insustentável, nomeadamente para a Inglaterra. Esta começa então a exportar, primeiro legal, depois ilegalmente, ópio oriundo do Império Britânico da Índia (sobretudo da Birmânia) para a China. Seguiram-se como consequência as guerras do ópio, que a China perderia a favor dos ingleses, daí decorrendo um longo período de humilhações que levaria ao fim das dinastias, à proclamação da república, à guerra civil e à revolução. Depois da morte de Mao, Deng Xiaoping estabelece para a China uma rota de abertura progressiva ao mundo, baseada na permanência de um Estado burocrático centralizado e autocrático, na tradição não apenas da revolução comunista de Mao, mas sobretudo da longa história dinástica do país, e na adopção de uma dita economia socialista de mercado.

"Um país, dois sistemas", foi a proclamada fórmula mágica para o rápido progresso da República Popular da China. O melhor e o pior de dois mundos: por um lado, a agilidade de uma economia politicamente subordinada e com largos sectores sob comando único do Estado, por outro, a energia injectada nessa mesma economia pela regras típicas da emulação capitalista e pela armadilha do consumismo. Como pano de fundo, um inesgotável exército de mão de obra barata, que noutros tempos servira já para construir caminhos de ferro e estradas na América e em África, e hoje alavanca a custos imbatíveis a entrada da China na era da globalização. O seu crescimento anual, revisto em baixa de 10,8% para 9,6% (Sino Daily), ou mais recentemente, de 11,9% para 9,8% (EFE/Folha de São Paulo), começa entretanto a ser ameaçado por uma inflação (China Daily) que em Abril deste ano chegou aos 8,5% relativamente ao mesmo mês de 2007, e que só não é maior porque em Pequim e no resto da China os automobilistas e os transportadores ainda não ouviram falar do aumento dos preços da gasolina e do gasóleo! Na realidade, não fora a máscara estatística, ter-se-ia que situar a inflação actual como uma das mais sérias ameaças ao tão anunciado, mas improvável, século chinês.

O consumismo do século 21 poderá vir a ser para a nova China um perigo tão grande ou maior do que o ópio com que os ingleses procuraram no século 19 reequilibrar a sua balança comercial, e sobretudo escavacar a unidade daquele imenso país. Talvez por isso, a marinha de guerra e a marinha mercante chinesas estejam hoje a crescer mais depressa do que quaisquer outras armadas conhecidas. É que boa parte da energia e matérias primas necessárias à nova economia e às legítimas expectativas sociais da China de Hu Jintao encontra-se longe das suas fronteiras. O acesso a tão preciosos e cada vez mais escassos bens dependerá sobretudo de uma formidável marinha mercante... e de uma convincente marinha de guerra que a defenda.



REFERÊNCIAS
  1. China no World Resources Institute

NOTAS

  1. National Centre for the Performing Arts, de Paul Andreu; Estádio Nacional de Beijing, da dupla Herzog & De Meuron; nova sede e estúdios da principal cadeia de televisão chinesa; CCTV, do OMA (Rem Koolhaas e Ole Scheeren); Torre 3 do World Trade Centre, concebido por Skidmore, Owings & Merrill (SOM), hoteis Mandarin Oriental, do OMA e Kapok, do Studio Pei Zhu; Linked Hybrid, de Steven Holl.
  2. Este é certamente um preço excepcional, mas ainda assim é possível alugar um apartamento dentro dos dois primeiros anéis da cidade, com 60-80mq, por 250 euros mensais; ou alugar pela Net um pátio com 300mq, 3 quartos e um living, num Hutong situado no centro histórico, por 800 euros mensais; ou finalmente alugar diariamente uma Suite de luxo num Hutong a 3Km da Cidade Proibida, para 2 pessoas (+ 2 crianças pequenas) por 54 euros/dia. Uma noite no Wangfujing Grand Hotel, de 5 estrelas, a dois passos da Cidade Proibida, custa 55 euros, com pequeno almoço (buffet chinês e ocidental) incluídos.
    Embora possamos considerar que os preços são em geral baratos quando comparados com as economias do euro, não são assim tão baratos quando comparados com outras moedas menos fortes. Por outro lado, há uma enorme disparidade preços, podendo-se ir facilmente do razoavelmente barato ao inesperadamente caro. Eis uma lista que compilei rapidamente a partir de algumas facturas que consegui conservar:

    1 noite no Wangfujing Grand Hotel (5 estrelas) c/ pequeno almoço, junto à Cidade Proibida = 55 euros
    1 jantar no Wangfujing Grand Hotel, buffet italiano, japonês e chinês, acompanhado de chá verde = 13 euros
    1 jantar a la carte no centro da cidade: 17,4 euros
    1 almoço no Food Republic (c/ caneca de cerveja) = 4 euros
    1 café no lobby do Wangfujing Grand Hotel = 3,9 euros
    1 café expresso no Starbucks = 1 euro
    1 garrafa de chá verde (1/2 litro) numa loja de bairro = 28 cêntimos de euro
    1 garrafa de chá verde (1/2 litro) num restaurante junto à Grande Muralha (Simatai) = 1,8 euros
    1 cerveja Tsingtao numa loja de bairro = 64 cêntimos
    1 caneca de cerveja Tsingtao no lobby do Wangfujing Grand Hotel = 4,7 euros
    Bandeirada de táxi = 94 cêntimos; cada Km = 0,19 cêntimos; em espera = 0,09 cêntimos/min.

    Para mais informações consultar esta página de referência sobre Pequim: The Beijinger.
  3. A partir de 1915 os EUA emergem na cena mundial, virando rapidamente a seu favor o render da guarda do imperialismo europeu. Por junto, o imperialismo ocidental, de raíz judaico-cristã, durará cerca ou pouco mais de 600 anos.
OAM 376 14-06-2008, 20:03 (última actualização: 19-06-2008 09:36)