domingo, janeiro 23, 2005

Socrates 5


Poderemos, desta vez, desfazer o bloco central que há 30 anos nos governa? Duvido. Os pequenos partidos, quando menos se esperava, continuam a decepcionar.


O Sapo e os principais partidos da actual disputa eleitoral (à excepção do Bloco, que recusou, e bem, aceitar o convite palhaçada do pior portal do mundo) anunciaram com pompa e circunstância que, desta vez, a batalha política se estenderá, qual virose entusiasta, à blogosfera. Uma visita relâmpago aos ditos blogues deu-me a pura imagem do analfabetismo tecnológico e comunicacional do nosso espectro partidário. O blogue de Santana Lopes, coitadinho, continua na incubadora e em branco, 48 horas depois de posto no ar. Os do PS, PCP e PP exibem umas notinhas de circunstância, supostamente assinadas pelos respectivos líderes, e ainda, para já apenas no blogue do PS, alguns despachos noticiosos cinzentos da respectiva máquina eleitoral. Como alguém já escreveu, isto não são blogues. De facto, são apenas sintomas de uma enorme indigência cultural. Não, não vos passo os links para coisa tão vergonhosa. Alguém terá um dia que acabar com a absurda protecção dada ao cartel PT-Telepac-NetCabo-Sapo-Diário de Notícias-e-quejandos... de que iniciativas mentecaptas como esta são exemplo.

Mas vamos ao resto da campanha. Depois de um exasperante silêncio PS (para já não falar do tristíssimo episódio Paulo Pedroso — uma vergonha!), eis que finalmente as Novas Fronteiras anunciam as principais intenções do partido melhor posicionado para formar Governo depois das eleições: crescer; reduzir a dependência energética dos combustíveis fósseis (e importados); emagrecer e aumentar a eficiência e transparência da Administração Pública, com base em regras declaradamente razoáveis, criar os famosos 150 mil postos de trabalho durante a próxima legislatura, rever os critérios de privatização da Saúde, reorientar as prioridades estratégicas da Educação (domínio generalizado de um segundo idioma e insistência nas disciplinas tecnológicas), avançar com a co-incineração dos resíduos perigosos, retomar o programa Pólis, e... convocar um referendo sobre o Aborto. Creio que os destaques ficaram por aqui. Temas, para já, intocados: a Justiça (uma ferida que continua a sangrar), a Burocracia, os Impostos, a Corrupção e aquilo a que chamaria problemas de Cidadania (carros em cima dos passeios, cartazes publicitários e partidários colados à toa e em toda a parte, pandemia futebolística, despolitização massiva das gentes, consumismo desmiolado, persistência da promiscuidade entre o Estado e meios de comunicação, reprodução endogâmica das elites e persistência das redes clandestinas de partilha do poder, etc.) Subscrevo, em abstracto, todos os destaques. Não creio, porém, que sem uma reforma drástica do sistema da Justiça e um ataque em força à inércia burocrática deste País, qualquer reforma possa avançar.

Devemos, no entanto, reconhecer que a descida das intenções de voto no PS, nomeadamente por causa da trapalhada Paulo Pedroso e da grande falta de à-vontade, rigidez e contradições exibidas pelo candidato a Primeiro Ministro, pode, depois do dia de hoje, iniciar uma esforçada corrida para retomar o tão desejado patamar da maioria absoluta de um só partido. A melhor ajuda vem, aliás, da mais completa falta de ideias exibida pelos restantes competidores, começando pela tourada eleitoral em que se transformou a campanha do PSD, e acabando na completa desilusão causada pelas campanhas de Francisco Louçã e Paulo Portas. O debate entre eles, na SIC, foi confrangedor!

Creio que faria bem ao sistema político português que estes dois pequenos partidos crescessem. Evitar-se-ia, finalmente, os malefícios evidentes do consistente e efectivo bloco central que há demasiado tempo nos governa (mal). Mas para isso, é essencial que estes partidos trabalhem. Isto é, que sejam capazes de desenhar modelos programáticos alternativos, originais, com substância, credíveis (mesmo quando são radicais). Ora disto, nada vimos até ao momento. Paulo Portas regressou inesperadamente aos trocadilhos e às graçolas jactantes. E Francisco Louçã, por sua vez, parece apavorado com a possibilidade de vir a ser Ministro, e faz tudo para desmerecer tal hipótese. Agarrado ideologicamente aos temas do aborto, do emprego e da guerra, para já não falar da manifesta alergia do Bloco ao Tratado Constitucional da União Europeia, esqueceu-se do principal: gizar uma visão própria do Mundo, definir um programa mínimo de actuação política para os próximos 10 anos, e estabelecer os limites de uma possível colaboração institucional com o Partido Socialista no caso de este vencer as próximas eleições sem maioria absoluta. Deixando-se ficar atolado na maré dos princípios e das divergências, o Bloco poderá crescer um bocadinho, mas acaba, no fundo, por abrir caminho à maioria absoluta do PS. O bloco central, agora na modalidade já experimentada pelo PSD, irá, como se vê, continuar.

Alguém terá que ter a coragem de propor uma nova agenda de prioridades civilizacionais para o futuro (de espanto e pavor) que nos espera no horizonte temporal de uma, duas ou, no máximo, três décadas. Não sei se já repararam que o maior jogo de guerra da história humana já começou. Não sei se já repararam que o motivo dessa guerra é muito sério (trata-se de dominar as principais reservas de petróleo e de gás natural do planeta, num quadro de ruptura eminente do actual paradigma energético nas sociedades industriais). Não sei se já repararam que a actual Administração americana pode muito bem protagonizar a transformação decisiva dos Estados Unidos no mais perigoso agressor mundial. Não sei se já repararam que a população portuguesa e europeia parou de crescer e envelhece a um ritmo insustentável. Não sei se já repararam que há centenas de milhar de casas vazias por essa Europa fora, incluindo obviamente Portugal, e que, portanto, se esgotou de vez o modelo do desenvolvimento derivado da construção civil. Não sei se já repararam nas consequências nefastas que o apetite de recursos energéticos e de matérias primas e alimentares, por parte dos EUA, da China e da India, tem actualmente, não apenas em África, México, América Central e do Sul, mas também no Canadá e na Europa! Já pensaram o que nos sucederá a todos no dia (provavelmente azul e completamente inesperado) em que se verificar o grande crash energético? Multipliquem-se, primeiro por 2, depois por 4, e depois ainda por 10, os actuais gastos mensais em gasolina e começaremos a ter uma pequena ideia do pesadelo que se avizinha. Se fizermos uma lista da quantidade e variedade de produtos, de que dependemos diariamente, oriundos da transformação do crude e do gás natural, então a sensação de desespero tornar-se-à quase inevitável. Proteger todos os recursos, mudar de economia e mudar de vida são as únicas e inevitáveis agendas políticas que poderão mitigar a dolorosa metamorfose que se avizinha, sorrateira mas inexoravelmente, como um maremoto bem mais terrrível do que aquele a que assistimos no mês passado. Os pequenos partidos bem podiam começar a discutir serenamente estes assuntos.

Notas

— Começa a ser descarado o apoio da SIC ao PSD; ao menos, assumam-no sem falsos objectivismos!
Margens de Erro, de Pedro Magalhães, um blogue a não perder sobre análise comparativa de sondagens.
— A reacção supostamente homofóbica de Francisco Louçã à hipocrisia vitalista de Paulo Portas, quando este se proclamou defensor da supremacia fetal sobre a vida humana constituída (como se o seu opositor fosse defensor da morte), tem causado algum espanto entre uma parte da comunidade homossexual. No entanto, a comunidade gay deveria perceber duas coisas muito simples: que a indignação de Louçã foi genuína e politicamente ajustada à provocação de Portas; e que a hipocrisia de Portas não merece qualquer solidariedade cor-de-rosa. Primeiro, saia do armário, e depois faça política coerentemente!

O-A-M #67 23 Jan 2005 [actualizado 24 jan 05]

terça-feira, janeiro 04, 2005

Cavaco Silva 1

Cavaco Silva

Os pedófilos continuam à solta, arrogantes e, pelos vistos com poder. Dos fracos não reza a história e parece que um destes irá parar a Primeiro Ministro sem saber ler nem escrever. O naciturno demitido continua a levar estaladas e a delirar. Teremos mesmo que votar no Bloco? Que venha o Cavaco, porra!


Depois do terramoto de 1755 a Europa nunca mais foi a mesma. Se Deus tratava assim os seus mais dedicados e submissos servos, ficava provada à evidência que, das duas uma, ou aquela enteléquia não passava de espuma metafísica, ou seria um ente sádico consumado. Como de nenhuma destas alternativas poderia decorrer a prova da existência divina, o melhor seria mesmo enterrar o respectivo dogma e começar a reduzir os vendilhões do templo à sua expressão mais simples. Napoleão, e antes dele Henrique VIII, compreenderam-no perfeitamente, e começaram assim a heroica tarefa de dar a César o que é de César (e depois ao Povo o que é do Povo), limitando com clareza os latifúndios, até aí escandalosamente vastos e laicos, dos vários cleros em exercício. A ironia permaneceu: enquanto isto se passava na Europa além Pirinaica, permitindo a essa Europa desemburrar e preparar-se para a liberdade democrática, pelas Espanhas, ao contrário, persistiram o poder, as mordomias e o atavismo cultural dos anafados vigários do Senhor. O resultado está bem à vista na pantomima em que se transformou a chamada política à portuguesa: continuação da interferência indevida da hierarquia católica na vida laica do País; endogamia persistente no seio das castas dominantes (onde continuam a predominar Ordens, Irmandades e Obras clandestinas); subsidiodependência; analfabetismo (literal e funcional); autoritarismo estatal e burocracia; corrupção; bloqueio mental generalizado; pequenez e, osso realmente duro de roer, uma incurável pandemia de social-porreirismo, irresponsabilidade cívica, laxismo e estupidez.

A democracia foi uma choldra durante a Primeira República. A democracia continua a ser uma choldra na Segunda República. No intervalo entre ambas ocorreu um espirro de ditadura de aldeia, isolacionista e fervorosamenmte católica (apesar da Concordata). Os condes de Abranhos dominaram sempre e continuaram a dominar enquanto houve mesadas generosas para gastar, longe da ralé de pé descalço, ranho no nariz e massa cinzenta atrofiada. O pior agora é que Papá faliu, as árvores das patacas secaram e parece que o Além vai deixar de subsidiar a nossa proverbial pacatez. Vêm aí os Espanhois?! Não, vem aí toda a gente!

Vamos ter novas eleições. E a pergunta pertinente é: servirão para algo? O PSD, entregue como está, a uma pandilha de “teddy boys” corre o risco de ser partido ao meio depois das eleições, indo uma das metades parar ao cesto de Paulo Portas, e a outra, ao regaço de Manuela Ferreira Leite. O PP de Paulo Portas tem aqui a sua grande chance de crescer até aos 10-15%, sobretudo se souber apoiar Cavaco Silva. O Bloco, cujo líder teve entretanto o cuidado de extinguir o PSR, pode igualmente crescer em movimento simétrico ao do PP, bastando para tal manter um discurso político europeu actualizado, por contraposição aos tiques primitivos de que enfermam boa parte dos restantes políticos em todo o restante espectro político. O Partido Socialista, se não conseguir derrotar a manobra provocatória de Paulo Pedroso, acusado uma vez mais de pedofilia, só que desta vez, em tribunal, pelo confesso Bibi..., bem pode começar a descontar da sua contabilidade eleitoral umas boas dezenas de milhar de votos, a começar pelo meu. O PCP já não conta, ou contará cada vez menos. E o pseudo partido dos salamaleques, capitaneado por esse indescritível pedaço de asno chamado Manuel Monteiro, não passa de um erro de casting televisivo. Resumindo, somos bem capazes de ter pela frente o cenário seguinte: um PS de novo em minoria, i.e. maioria relativa [20.02.2005], na Assembleia da República, dilacerado pelas suas actuais contradições internas (que a avaliar pelo caso Paulo Pedroso, têm que ser muito sérias e preocupantes); Santana, completamente estirado no tapete da noite eleitoral, murmurarndo umas frases astrológicas indecifráveis; e dois inesperados vencedores: Paulo Portas e Francisco Louçã. Deste último dependerá, muito provavelmente, a estabilidade governativa até ao fim do novo e curto ciclo governativo do Partido Socialista.

Alguém sugeriu que eu estava a delirar. É bem possível. Mas também é possível que os meus raciocínios façam algum sentido, e nesse caso, esperam-nos tempos muito curiosos. Se assim for, que mil novos partidos e organizações políticas floresçam por esse País fora. Precisamos todos de uma grande varridela cultural e de sangue novo à frente das engrenagens que fazem mexer esta praia solarenha e preguiçosa. Seria bem bom que isto, em vez dos pactos podres sugeridos por Jorge Sampaio, e das miragens de Salvação Nacional estremunhadas por Mários Soares, acontecesse antes do desejado Cavaco Silva ascender ao poder.
O-A-M #66 04 Janeiro 2005